“A Paixão Segundo G.H.”, de Clarice Lispector: uma história entre sonhos, buscas e conflitos

Romance é um dos mais importantes da literatura brasileira e convida o leitor a refletir sobre a condição humana, os preconceitos e a relação entre o homem e a natureza
Por
Redação
Data de Publicação
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Arte sobre foto: Wikimedia Commons
Arte sobre foto: Wikimedia Commons

A Possíveis Leitores

Este livro é como um livro qualquer. Mas eu ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas de alma já formada. Aquelas que sabem que a aproximação, do que quer que seja, se faz gradualmente e penosamente – atravessando inclusive o oposto daquilo que se vai aproximar. Aquelas pessoas que, só elas, entenderão bem devagar que este livro nada tira de ninguém. A mim, por exemplo, o personagem G.H. foi dando pouco a pouco uma alegria difícil; mas chama-se alegria. 

C.L. 

Com essas palavras, a escritora Clarice Lispector apresenta o seu quinto romance, A Paixão Segundo G.H., publicado em 1964. Ela o considera como um livro qualquer, porém, ficaria contente se fosse lido apenas por pessoas “de alma já formada”…

Certo é que os milhares de estudantes (em 2026, foram 111 mil inscritos) vão, com a sua “alma já formada” e pronta, para o desafio das provas da Fuvest 2027. Na primeira fase irão se deparar com questões de múltipla escolha e, na segunda fase, com respostas dissertativas sobre trechos do livro e também sobre as características da autora.

Nádia Battella Gotlib, professora de Literatura Brasileira da USP e especialista em Clarice Lispector - Foto: Arquivo pessoal
Nádia Battella Gotlib, professora de Literatura Brasileira da USP e especialista em Clarice Lispector - Foto: Arquivo pessoal

Para orientar os vestibulandos, o Jornal da USP convida a professora Nádia Battella Gotlib, especialista na Literatura de Clarice Lispector. Livre-docente pela Universidade de São Paulo como professora de Literatura Portuguesa e de Literatura Brasileira na USP, ela observa: “A intenção de Clarice era ser lida por um grande público”. E ressalta: “Prova disso é que, em 1977, acatou o projeto que lhe foi encaminhado pelo editor Jiro Takahashi, da Editora Ática, responsável por fazer uma tiragem enorme, segundo padrões da época, de sua obra Felicidade Clandestina, tal como o editor havia feito de obras de escritores mineiros, que atingiram a marca de mais de cem mil exemplares”.

Mas, infelizmente, Clarice não viu os resultados da sua literatura – nas mãos de milhares de leitores. “Foi hospitalizada e faleceu pouco tempo depois.” Como nos contos que reuniu em Felicidade Clandestina, de 1971, o romance A Paixão Segundo G.H. reflete sobre a crise existencial. 

A história de G.H., a barata e os seres humanos

Será que os vestibulandos vão entender os medos, angústias, incertezas, que fluem neste romance de Clarice Lispector? A professora Nádia explica: “A Paixão Segundo G.H. tem tudo a ver com cada um de nós, pois o que está ali em questão é a nossa condição humana. É o ser ‘vivo’, como outros seres vivos animais, ou seja, a barata e os seres vivos humanos, como a personagem Janair. No primeiro caso, o livro propõe a grandeza de uma união simbólica entre o homem e a natureza selvagem animal. No segundo caso, um processo de enfrentar e vencer preconceitos de discriminação, tão latentes ainda nas classes sociais, sobretudo nas de elite, pautadas em mentalidade retrógrada escravagista”.

Clarice acompanhou, em vida, o romance A Paixão Segundo G.H. em cinco edições. A primeira pela Editora do Autor, em 1964; a segunda em 1968 e a terceira em 1972, pela Editora Sabiá; a quarta e a quinta pela Editora José Olympio em 1976. Não chegou a ver as edições cuidadosamente elaboradas pela Editora Rocco com as capas de suas pinturas. Clarice, nesses desenhos, aliou a sensibilidade de escritora com o olhar de pintora, gravadora, desenhista. E, segundo a artista e muito amiga Maria Bonomi, pintar para Clarice era registrar o inefável. “Eram sensações de espontaneidade gráfica. Era muito influenciada em sua poética escrevendo ou na estética de seus desenhos pelo I Ching, livro oracular chinês.” Está aí algo que os vestibulandos podem pesquisar. Clarice usava muito a simbologia do I Ching, consultava o oráculo que usava símbolos, como, por exemplo, a barata.

Clarice Lispector, escritora que leva o leitor a refletir sobre a condição humana - Foto: Wikimedia Commons
Clarice Lispector, escritora que leva o leitor a refletir sobre a condição humana - Foto: Wikimedia Commons

Livro que é destaque na literatura brasileira

Na avaliação da especialista Nádia Battella Gotlib, o livro A Paixão Segundo G.H. ocupa posição de suma importância na história da literatura brasileira. E por vários motivos. Mas destaca os pontos essenciais que os vestibulandos devem observar. “Primeiro, o livro registra a história de G.H., mulher da classe alta, que mora em um apartamento de cobertura. É artista, escultora e sem nenhuma preocupação financeira. Mas depois da demissão da empregada Janair, resolve ela mesma fazer a limpeza de seu apartamento e começa pelo quarto da empregada, que acreditava ser o lugar mais sujo do apartamento. Porém, ao abrir a porta, G.H. fica surpresa ao observar a limpeza do quarto.”

G.H. descreve:

“... Mas ao abrir a porta meus olhos se franziram em reverberação e desagrado físico. É que em vez da penumbra confusa que esperara, eu esbarrava na visão de um quarto que era um quadrilátero de branca luz; meus olhos se protegeram franzindo-se. Há cerca de seis meses – o tempo que aquela empregada ficara comigo – eu não entrava ali, e meu espanto vinha de deparar com um quarto inteiramente limpo”

G.H. se reconhece “vazia”

Diante da visão do quarto, começam os questionamentos de G.H., que admite: 

“... Esperara encontrar escuridões, preparara-me para ter que abrir escancaradamente a janela e limpar com ar fresco o escuro mofado. Não contara é que aquela empregada, sem me dizer nada, tivesse arrumado o quarto à sua maneira, e numa ousadia de proprietária o tivesse espoliado de sua função de depósito”

A professora Nádia continua pontuando para os vestibulandos. “Ao entrar nesse quarto, G.H. descobre, surpresa, numa das paredes, o desenho de um homem, uma mulher, um cão, feito pela empregada, Janair, que se demitiu. O recado está dado: ao olhar para o contorno de si mesma, sem receio, G.H. se reconhece ‘vazia’ e, pela primeira vez, inicia ali no quarto da empregada um processo de enxergar o ‘outro’, no caso, Janair. Eis o seu primeiro passo de uma ‘redescoberta do mundo’ fora da bolha social de mulher rica e branca, instigado justamente por uma mulher pobre e negra.”

Ao longo do livro, o que acontece, segundo a professora, são as etapas dessa via-sacra de se reconhecer como “gente”, mergulhando em valores de conteúdo humanístico. “A narrativa é centrada na personagem principal, a protagonista G.H., que conta o que lhe aconteceu no dia anterior. Ou seja, há dois tempos básicos da vida de G.H., que se alternam na narrativa: hoje e ontem, além de alguns outros mais remotos. Exemplo, as primeiras palavras do livro são:

“... Estou procurando, estou procurando. Estou tentando entender. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem, mas não quero ficar com o que vivi. Não sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desorganização profunda. Não confio no que me aconteceu. Aconteceu-me alguma coisa que eu, pelo fato de não a saber como viver, vivi uma outra?”

Entender o quê?… O que vale é o resultado: o livro

Diante da leitura, os vestibulandos podem ficar tão confusos quanto a protagonista. Mas a professora Nádia Gotlib esclarece: “Entender o quê?”. E acentua: “G.H. procura entender o que lhe aconteceu no dia anterior. Essa é a G.H. que conta. E quando a narradora e personagem G.H. conta o que lhe aconteceu no quarto da empregada, já é a G.H. de ontem a que se refere, aquela que passou por essa experiência”.

Pode parecer confuso. Mas a professora aponta: “Trata-se, pois, de uma narrativa baseada no discurso de memória ou do que a protagonista se lembra e de como reage a esse processo de rememoração. Mas tudo é ficção. Ou, quem sabe, com fatias de vida da própria Clarice? Impossível saber. Talvez, nem a autora Clarice soubesse… O que vale é o resultado: o livro”.

Capa da edição original publicada em 1964, com 168 páginas, da Editora do Autor; e capa publicada pela Editora Rocco, com uma pintura criada pela própria escritora e artista e projeto gráfico do designer Victor Burton - Fotos: Reprodução/Editoras
Capa da edição original publicada em 1964, com 168 páginas, da Editora do Autor; e capa publicada pela Editora Rocco, com uma pintura criada pela própria escritora e artista e projeto gráfico do designer Victor Burton - Fotos: Reprodução/Editoras

Questões filosóficas, religiosas e eróticas

A professora Nádia Gotlib pede a atenção do vestibulando. E orienta: “Trata-se de uma obra que se destaca não apenas pelo conteúdo relacionado à paixão, que é um tema que aborda questões filosóficas ligados à existência, religiosas, que trazem o sagrado e o profano, e eróticas que abordam as relações sexuais”.

A professora, porém, salienta: “É importante observar, principalmente, a forma como esse repertório é construído, evidenciando suas qualidades estéticas. E entre tais recursos, ressalto o das imagens. Exemplo: como a personagem G.H. passa a perceber quem é Janair. E não mais como antes, um vulto sem formas a seu serviço, mas como uma mulher com nome, rosto, de glorioso passado cultural, uma ‘rainha africana’, remontando, assim, à grandeza de uma ancestralidade destruída pelo sistema”. 

A cada um dos 33 fragmentos da narrativa, a professora atenta que o estudante/leitor deve observar que surge um novo e surpreendente conjunto de detalhes. “Detalhes que levam a um imaginário construído, ao mesmo tempo, em linguagem simples, ou seja, o vestibulando nem vai precisar recorrer ao dicionário, e sofisticado, pela rede rica de relações entre palavras, objetos, experimentações e imagens poderosas.”

Clarice Lispector em vários momentos de sua vida - Fotos: Reprodução/IMS
Clarice Lispector em vários momentos de sua vida - Fotos: Reprodução/IMS

Mas vem outra pergunta comum que permeia o livro. Por que “G.H.”? O que quer dizer? A professora esclarece: “G.H.: duas letras que aparecem gravadas numa pequena mala de G.H. Eis as iniciais de seu nome. Já houve múltiplas interpretações. Uma delas foi: Gênero Humano. Mas nem essa, nem nenhuma outra proposta resolve essa questão. O que importa é: quem é G.H. para cada um de nós? Ela será o que nossa leitura do livro conseguir construir”.

E a velha barata que a protagonista encontra no armário do quarto de empregada? G.H. a esmaga. Mata. E come a massa branca como se fosse uma hóstia… Nádia Gotlib elucida: “A barata é o símbolo do ‘ser vivo’, ‘matéria viva pulsando’, sentido de vida, que é absorvido por G.H. ao incorporar o ‘de dentro’ da barata ao seu próprio ‘de dentro’ de mulher. São espécies diferentes. No entanto, são aí convocadas para traduzir ficcionalmente, e com intenso apelo erótico, a paixão entre os seres vivos. Pois não se esqueçam – é uma história de paixão entre os seres, inclusive, humanos. Essa união, por vezes cópula, de G.H. e suas histórias com homens, sinaliza o momento de libertação da personagem, depois de passar por provas, obstáculos, como medos e frustrações, que fazem parte da vida”.

A professora, com o seu conhecimento sensível e profundo da literatura de Clarice Lispector, observa: “Mas faz parte da vida também a pertinácia em seguir em frente, para que se atinja esse momento de ‘alegria’, ‘ainda que alegria difícil’, tal como propõe Clarice Lispector na dedicatória aos seus leitores”. E conclui: “Nesse sentido, o livro explora, de forma surpreendentemente inovadora, as experiências humanas em sua inevitável travessia em direção a uma libertação, inclusive de padrões cerceadores. A ficção tem esse poder. Ela mostra o caminho. E abre perspectivas para que a pessoa faça descobertas de si mesma e do mundo em que vive”.

Cenas do filme “A Paixão Segundo G.H.” dirigido por Luiz Fernando Carvalho, lançado em 2024 - Foto: Reprodução / YouTube​
Cenas do filme “A Paixão Segundo G.H.” dirigido por Luiz Fernando Carvalho, lançado em 2024 - Foto: Reprodução / YouTube​

A Paixão Segundo G.H., romance que vira filme

Sob direção de Luiz Fernando Carvalho, o romance A Paixão Segundo G.H. foi lançado nos cinemas em 2024. E surpreendeu com o enredo, que seguiu a originalidade da obra de Clarice Lispector publicada em 1964. Por enquanto, não está disponível nos catálogos dos principais streamings. Mas quem sabe estará de volta para os vestibulandos da Fuvest apreciarem o filme e compararem com detalhes do livro.

Como bem lembra Nádia Battella Gotlib, especialista na obra de Clarice Lispector, “o filme de Luiz Fernando Carvalho surpreende”. E completa: “E é tão bom quanto o romance”. G.H. é interpretada por Maria Fernanda Cândido, que, na época, ganhou vários prêmios como melhor atriz: Festival de Siena (Itália), Bafici (Argentina) e Filmadrid (Espanha).

“A narrativa segue impulsionada por um jorro de imagens surpreendentes; tem-se um verdadeiro luxo figurativo, com poder de atingir o leitor e espectador nos mais longínquos recônditos de sua intimidade ou inconsciente…”, escreveu Nádia em um dos artigos sobre o filme que, por sua vez, virou o livro Cinema em A Paixão Segundo G.H.”, organizado por Ilana Feldman e editado, em 2025, pela Ateliê Editorial.

Texto de Leila Kiyomura publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/universidade/a-paixao-segundo-g-h-de-clarice-lispector-uma-historia-entre-sonhos-buscas-e-conflitos/