Por que países disputam o direito de sediar uma Copa do Mundo? Pesquisa da USP investiga interesses por trás do evento

Dissertação da FFLCH mostra que a Copa do Mundo é uma estratégia de Soft power e um evento atrativo para de investimentos privados
Por
Maria Fernanda Friano
Data de Publicação

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A Copa do Mundo FIFA masculina mobiliza populações inteiras em várias nações, tendo um grande impacto econômico e, principalmente, social. Mas de que forma o megaevento influencia as dinâmicas de poder da sociedade contemporânea? Qual o real interesse de um país em sediar uma Copa do Mundo? Uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, intitulada A Copa do Mundo FIFA Masculina como estratégia de poder no mundo contemporâneo, de Jaqueline Floria Baumgaertner evidenciou que o evento movimenta interesses financeiros e usa da mobilização cultural como forma de reafirmar o poder de nações.

A pesquisa de Jaqueline explora as consequências de megaeventos em cidades e países. A geógrafa analisou as transformações produzidas pela Copa do Mundo no Brasil em 2014 na cidade de São Paulo. Ela começou a perceber que os lucros gerados por turismo, durante e depois do evento, não compensam os grandes gastos feitos pelo Estado com transporte, hospedagem e infraestrutura para sua realização.

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Gráfico 2 da dissertação de Jaqueline Floria Baumgaertner

 

Futebol como Soft Power 

Apesar do turismo ser a principal justificativa para a candidatura dos países a sediarem a Copa, a pesquisadora explica que o resultado do investimento não sai como esperado: “Não temos esse boom de turistas que são esperados depois do evento”. Baumgaertner investigou os reais incentivos da candidatura para as sedes, e afirma que a Copa do Mundo serve como um mecanismo de soft power internacional. 

Soft power é um termo utilizado para descrever a capacidade de persuasão de um país sem o uso de forças armadas ou pressões econômicas, ou seja, a habilidade de construir influência por meio da cultura, valores políticos e relações internacionais. Apesar da Copa do Mundo da FIFA trabalhar como uma ferramenta de soft power a partir da mobilização cultural da população mundial, existe também uma manipulação do poder internacional por meio de acordos econômicos que ocorrem na época da competição.
 

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A pesquisadora explica que os acordos econômicos são uma das maiores vantagens de sediar o megaevento. “Sediar a Copa do Mundo é um elemento importante pois coloca as cidades como vitrines dos países, buscando investimentos privados internacionais”, completa Jaqueline. Essa estratégia de poder baseada no uso do esporte como mercadoria principal é utilizada para construção de uma imagem nacional atrativa, além de ser uma ferramenta geopolítica dos Estados. 

De acordo com a geógrafa, a modernização trouxe uma mudança de abordagem sobre o futebol, transformando a modalidade esportiva em um produto. “A Copa do Mundo é uma chave para entender as relações da economia contemporânea”. O evento impulsiona vendas de diversos itens customizados, como camisetas de time, mascotes, bolas personalizadas e apostas esportivas, além de aumentar a comercialização de mercadorias de marcas parceiras da FIFA.

A transição do futebol para uma lógica mercantil foi feita a partir da profissionalização (século 19), da atuação estatal para a criação de uma identidade nacional e da transformação das competições em espetáculos voltados à indústria do entretenimento. A Copa do Mundo de 2014, por exemplo, foi encarada pelo povo brasileiro como uma vitória nacional, apesar das críticas. Além de engrandecer o nacionalismo, a fim de fortalecer a economia nacional e atrair iniciativas privadas, “a Copa do Mundo é um negócio”, afirma Baumgaertner. 

A pesquisa conclui que a Copa do Mundo FIFA masculina deve ser compreendida para além de seu caráter esportivo e econômico imediato. Segundo Baumgaertner, o evento integra estratégias de projeção internacional dos Estados, articulando interesses políticos, econômicos e culturais que influenciam as relações de poder no cenário contemporâneo.

A dissertação de mestrado “A Copa do Mundo FIFA Masculina como estratégia de poder no mundo contemporâneo”, de Jaqueline Floria Baumgaertner, e orientada por Rita de Cassia Ariza da Cruz, foi defendida em junho de 2026, no âmbito do Programa de Pós Graduação em Geografia Humana da FFLCH.