Uma dissertação de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP analisou a produção de desigualdades socioambientais em São Paulo. Segundo a geógrafa Beatriz Furtunato da Silva, autora da pesquisa, identificou melhora em alguns indicadores, como o acesso à água, o tratamento de esgoto e a coleta de resíduos. No entanto, desigualdades territoriais significativas ainda persistem, concentradas em áreas periféricas, principalmente na presença de favelas e populações vulneráveis.
O termo “racismo ambiental” foi usado pela primeira vez pelo sociólogo e ativista estadunidense Robert Bullard. Para o autor, o conceito se refere às “consequências desproporcionais dos impactos ambientais sofridos principalmente pelas populações racializadas e de baixa renda”, como explica a pesquisadora.
A região de Pirituba foi escolhida por abrigar a Terra Indígena Jaraguá — a menor demarcada do Brasil, o que, para Beatriz, já revela uma desigualdade ambiental com a comunidade. A partir do método da cartografia quali-quantitativa, isto é, uma análise crítica dos dados obtidos pelo Censo Demográfico do IBGE (2010 e 2022); Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) da Fundação SEADE; e Defesa Civil, a autora da pesquisa buscou entender como a população racializada (pretos e pardos) e de baixa renda se relaciona com as mazelas socioambientais da área.
“Quando pensamos em racismo ambiental, pensamos nesses eventos críticos que acontecem, e não em políticas institucionalizadas.”
Beatriz Silva
Entre os riscos sofridos pelos habitantes, estão a falta de saneamento básico (indicadores de água, lixo e esgoto); alta densidade habitacional, ou seja, muitas pessoas vivendo em um mesmo local; riscos hidrológicos (enchentes e inundações) e riscos geológicos (escorregamento e solapamento de terra). Beatriz afirma que esses riscos se concentram principalmente em áreas de adensamento de favelas, onde habitam pessoas em situação de vulnerabilidade e que se autodeclaram pardas ou pretas.
Subprefeitura de Pirituba-Jaraguá | Organização da autora (2026)
Indicadores mostram aumento da desigualdade
A pesquisa revela que apesar de haver uma melhora nos índices de infraestrutura urbana ao longo dos anos, como abastecimento de água, tratamento de esgoto e coleta de lixo, as regiões mais vulneráveis apresentaram uma piora, principalmente nos riscos hidrológicos e geológicos. Ao analisar o Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) da Fundação SEADE, Beatriz descobriu que, entre 2010 e 2022, houve uma melhora nos índices de baixíssima vulnerabilidade, e uma piora nos índices de altíssima vulnerabilidade — isto é, pessoas que já se encontravam em condições dignas de vivência melhoraram a qualidade de vida, enquanto a população mais vulnerável se tornou ainda mais sujeita aos riscos ambientais.
Distribuição temporal (2010-2022) do Índice Paulista de Vulnerabilidade Social (IPVS) na
Subprefeitura de Pirituba-Jaraguá
Para a autora, houve uma “segregação socioespacial ambiental maior para essas áreas que já são vulneráveis”. Ela explica que existe desigualdade mesmo quando há mais serviços, uma vez que eles não chegam a todos de maneira democrática. “Vão ocorrer desproporcionalidades para pessoas que já estão em vulnerabilidade, e infelizmente, essas pessoas são racializadas”, conta.
Beatriz cita o caso do Parque Estadual Jaraguá, que abriga um dos últimos remanescentes da Mata Atlântica da Região Metropolitana de São Paulo, mas sobrepõe a área demarcada como terra indígena. Ela acredita que haja uma naturalização desse estado: “já está institucionalizado que aquela área é pior social e ambientalmente, então isso não é novidade”.
A comunidade, segundo a pesquisadora, fica limitada e corre o risco de cometer um crime ambiental caso atue sobre a área delimitada. Segundo ela, “é uma política institucionalizada que pode ser caracterizada como racismo, porque eles estão proibidos de reproduzir a própria cultura por conta da limitação ambiental do parque”.
O atraso dos dados do Censo do IBGE de 2022 foi um obstáculo para a autora, que até então, estava trabalhando com dados de 2010. Ela explica que a demora prejudica não só a pesquisa, mas a formulação de novas políticas que atendam as demandas da população. “Com a demora de disponibilização de dados públicos, como eu vou fazer política pública?”, questiona.
Beatriz acredita que o estudo pode incentivar novas políticas públicas que atuem nessas injustiças, além de possibilitar — dentro do currículo escolar — que as crianças percebam o território em que vivem de forma crítica, e identifiquem as desigualdades na cartografia.
“A cartografia sempre foi um instrumento de poder. Apropriar a cartografia para mostrar as condições sociais de pessoas que vivem o infortúnio da reprodução social capitalista é um empoderamento da população que vive ali.”
Beatriz Silva
A dissertação de mestrado Território, Desigualdade e Racismo Ambiental: Um Estudo Cartográfico na Subprefeitura de Pirituba–Jaraguá no Município de São Paulo, de Beatriz Furtunato da Silva, e orientada por Reinaldo Paul Pérez Machado, do Departamento de Geografia da FFLCH, foi defendida em maio de 2026 no Programa de Pós-graduação em Geografia Humana.