
No dia 28 de outubro, às 19 horas, ocorrerá o lançamento do livro Erótica Teórica: teórica: Escritos sobre as fronteiras do sexo e do pensamento, organizado pela professora Eliane Robert Moraes, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. A antologia atravessa mais de um século de pensamento sobre o desejo e reúne textos de 21 autores, de Carlos Drummond de Andrade a Susan Sontag. “O que eu quero trazer e mostrar com esse livro é que tudo pode ser objeto de reflexão. Inclusive, essas matérias que, às vezes, são mais tabu, mas elas são grande literatura”, afirma a autora.
“Em matéria de erotismo, a fantasia sempre triunfa sobre a realidade”, aponta a pesquisadora, que fez da obra, de inspiração autobibliográfica, uma espécie de catecismo erótico. Os textos reunidos por ela “ecoam questões de fundo da vida erótica que nos assombram desde sempre, a começar pela repetida ânsia de saber como pode realmente a vida mental dar conta das indecências que as demandas carnais não cessam de produzir”.
Para investigar essa questão, ela convoca vozes de épocas, línguas e gêneros muito diversos, num arco que vai do início do século 20 ao primeiro quarto do 21, do austríaco Robert Musil, nascido em 1880, o mais velho do grupo, até a brasileira Amara Moira, de 1985, a mais jovem. Entre um e outro, desfilam nomes como Susan Sontag, Georges Bataille, Ítalo Calvino, D. H.Lawrence, Roberto Piva, Agustina Bessa-Luís, Carlos Drummond de Andrade, Anne Carson, Yara Frateschi Vieira, Glauco Mattoso, Otavio Frias Filho, Katherine Mansfield, Cristina Peri Rossi, Otto Maria Carpeaux, José Paulo Paes, Reinaldo Moraes, Néstor Perlongher, Sérgio Sant'Anna e Annie Le Brun, entre outros.
“São livros que fizeram parte não só das minhas pesquisas, mas mesmo da minha formação como leitora e como pesquisadora”, destacou. O que reúne autores tão distintos sob o mesmo teto começa na própria linguagem. Há palavras que parecem ter sido feitas uma para a outra, e "erótica" e "teórica" são um caso raro: compartilham exatamente as mesmas letras. Foi esse achado que serviu de fio condutor para a pesquisadora, interessada em escritos que pensaram o reino equívoco, promíscuo e absoluto do erotismo. “Para além dos lugares-comuns cristalizados na cultura, a erótica teórica se impõe como o lugar por excelência de onde se podem contemplar os vasos comunicantes que unem o sexo ao pensamento”, afirma.
Para dar conta de um material tão heterogêneo, Eliane optou por não seguir uma corrente teórica ou defender uma tese específica. O critério foi outro: reunir textos por afinidade discursiva, deixando que dialogassem livremente entre si. O resultado é organizado em três eixos: Pensamento, Corpo e Palavra, que funcionam menos como categorias estanques e mais como um caleidoscópio que a organizadora descreve, em seu texto de apresentação, como um mergulho no "reino equívoco, promíscuo e absoluto do erotismo".
Na primeira parte, Pensamento, predomina o raciocínio conceitual: Sontag, Calvino, Bataille, Lawrence e Musil interrogam as bases filosóficas do erotismo e de seus desdobramentos, como a pornografia, o obsceno e o riso, enquanto Piva imprime uma inflexão política ao debate e Bessa-Luís e Drummond de Andrade colocam o problema com humor e sagacidade.
Já em Corpo, a fisicalidade erótica ganha protagonismo: Anne Carson e Yara Frateschi Vieira voltam-se a diferentes momentos históricos para investigar a ideia da sujeira, tanto como substância concreta quanto como figura de linguagem, historicamente associada ao corpo feminino, e discutem as implicações éticas, políticas e estéticas dessa associação, enquanto Mattoso e Frias Filho registram, em depoimentos diretos, cenas íntimas vividas em espaços públicos, e Mansfield e Peri Rossi exploram os pontos de contato entre sexo e fantasia.
A terceira parte, Palavra, é dedicada a escritos sobre escritos: Carpeaux lê Henry Miller, Paes lê Pietro Aretino, Bataille lê Emily Brontë, Amara Moira lê James Joyce e Reinaldo Moraes lê Philip Roth, num jogo de intérpretes e interpretados que Sant'Anna e Le Brun abrem e fecham questionando a própria pertinência de se escrever sobre obscenidades.
A curadoria também aposta em conexões que só aparecem numa leitura cruzada. O depoimento de Frias Filho sobre clubes de sexo, por exemplo, ganha outra gravidade quando lido ao lado da introdução de Bataille a O erotismo, e as ideias de Bessa-Luís sobre desordem e travessura conversam, à distância, com a defesa que Reinaldo Moraes faz da obra de Roth. Não por acaso, Eliane sugere que os textos também podem ser lidos fora da ordem proposta, sem seguir a sequência das três partes.
Autoridade reconhecida no estudo da literatura erótica, Eliane assume no livro uma inspiração que chama de “autobibliográfica”: mais do que autobiográfica, a seleção reflete décadas de leitura apaixonada do tema, um percurso que a consolidou como uma das principais vozes brasileiras sobre o assunto. O volume é dedicado à memória de Annie Le Brun, uma das autoras reunidas em suas páginas.
Sobre a organizadora
Eliane Robert Moraes é professora de Literatura Brasileira na FFLCH e pesquisadora do CNPq. Publicou pela Iluminuras: Sade: a felicidade libertina (2015), O corpo impossível (2016), Lições de Sade: ensaios sobre a imaginação libertina (2011) e Perversos, amantes e outros trágicos (2013). Organizou a Seleta erótica de Mário de Andrade (2022) pela Ubu, além de antologias eróticas da poesia e do conto brasileiro que foram editadas no Brasil e em Portugal, assim como o seu livro de ensaios, intitulado A parte maldita brasileira – Literatura. Excesso. Erotismo (Tinta-da-China, 2023).
O livro pode ser adquirido no site da Editora Autêntica.
Com informações de Editora Autêntica.