A Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP realizou, entre os dias 5 e 9 de outubro, a 23ª Semana de Geografia da USP. Com o tema “Por uma Geografia do Esperançar”, o evento reuniu estudantes e professores de escolas públicas em uma programação voltada ao ensino de Geografia e à aproximação entre a Universidade e as escolas públicas.
Realizada desde 2003, a Semana de Geografia é um projeto de extensão universitária organizado com a participação de estudantes de graduação em Geografia. Nesta edição, a programação incluiu apresentações de escolas, debates, mesas e conferências sobre questões contemporâneas da área, como a crise climática e ambiental, as desigualdades sociais, os conflitos e diferentes formas de violência.
Ao longo dos cinco dias de programação, cerca de 2.400 estudantes e 150 professores de escolas públicas participaram das atividades, com o acompanhamento de 80 monitores de graduação.
Para Vagner Luis Carneiro de Campos, estudante de Geografia e monitor do evento, a edição deste ano foi a mais marcante de seus cinco anos de participação da Semana. Ele destacou o envolvimento dos participantes com o tema e a qualidade das apresentações realizadas pelos estudantes das escolas públicas.
“Nesta edição, o pessoal abraçou muito o tema do esperançar, que esperançar é agir” afirmou. Vagner também ressaltou o encantamento dos visitantes com a Universidade e destacou que esta foi a maior edição da história do evento.
Mesa de abertura
A programação teve início no dia 5 de outubro com uma mesa de abertura que reuniu representantes da FFLCH, da organização da Semana de Geografia e do Laboratório de Ensino e Material Didático (Lemadi). O encontro apresentou as atividades previstas para a edição e discutiu o papel da extensão universitária na relação entre a universidade e as escolas públicas.
Participaram da mesa o diretor da FFLCH, Adrián Fanjul; o coordenador da Semana de Geografia e professor do Departamento de Geografia, Júlio César Suzuki; a técnica do Lemadi, Waldirene Ribeiro do Carmo; e as bolsistas Letícia Polato Quina e Alice dos Santos Silva. A mediação foi realizada pelo estudante e monitor Vagner Luis Carneiro de Campos. A atividade também contou com uma conferência da professora Sandra Lencioni, do Departamento de Geografia.
Em sua exposição, Lencioni abordou a relação entre Geografia e esperança a partir de problemas contemporâneos como a crise climática e ambiental, as desigualdades sociais, a violência, os conflitos, o feminicídio e a violência contra os povos indígenas. A professora destacou a importância de compreender essas questões considerando também as possibilidades de transformação da realidade.
O mito de Pandora foi utilizado como ponto de partida para discutir o significado da esperança. Na conferência, Lencioni apresentou a esperança não como uma espera passiva, mas como uma possibilidade de ação diante das adversidades. A discussão também abordou a relação entre conhecimento geográfico, sociedade e ação, destacando como a Geografia pode contribuir para interpretar problemas contemporâneos e pensar alternativas para o futuro.
Esperança frente à realidade
Na terça-feira, 6 de outubro, a mesa Crise ambiental-climática global: Há esperança? foi ministrada pelos professores Ricardo Sartorello e Júlio César Pedrassoli, do Departamento de Geografia, e mediada por Letícia Polato Kina, aluna da graduação e bolsista do Lemadi. A palestra discutiu a dificuldade de manter uma visão otimista frente os desafios enfrentados pela emergência climática.
Segundo Sartorello, a esperança não deve amenizar a realidade. Como exemplo, ele citou alguns eventos extremos, como as enchentes no Rio Grande do Sul, as secas na região amazônica e as queimadas no Pantanal, que ocorrem com mais frequência a cada ano. Também afirmou que a Terra está em torno de 1,43°C acima da média pré-industrial e que a concentração de dióxido de carbono na atmosfera é a maior em 800 mil anos.
“Se esses números trazem alguma angústia, isso é bom. Agora, o que fazemos com isso?”, questiona. Ele acredita que, no passado, dados alarmantes já foram ponto de partida para ações de reversão, como o Protocolo de Montreal, de 1987, que decretou o fim da produção e consumo de substâncias destrutivas à camada de ozônio.
O professor afirma que o Brasil possui o maior potencial de restauração ambiental do mundo. Como exemplo, traz algumas espécies que retornaram, como o mico-leão-dourado, que chegou a ter 200 indivíduos, e com o projeto de restauração, a população já alcança a marca dos 4.800 micos. E destacou que as terras indígenas são uma peça fundamental para manter a Floresta Amazônica em pé.
Em sua fala, Pedrassoli pontuou que embora o Brasil não seja o grande responsável pelo aquecimento global, é um dos países com um potencial de redução drástica do efeito. “A terra indígena é a maior tecnologia que nós temos hoje de combate ao desmatamento”, afirma. Entre 1985 e 2025 — um período de 40 anos —, essas terras acumularam menos de 1% do desmatamento.
Para o professor, além das terras indígenas, a esperança também vem das escolas. Ele cita projetos como o do Instituto Alana e da ONG Formigas de Imbaúba, que implementaram “mini florestas” nas escolas públicas.
A cidade no mundo do século 21
No dia 7 de outubro, a programação da Semana teve como tema a vida urbana no século 21. A mesa A cidade no mundo do século XXI: onde está a esperança de uma vida urbana melhor? reuniu as professoras Elisa Favaro Verdi e Marina Regitz Montenegro, do Departamento de Geografia, com mediação do estudante e monitor Luiz Carlos Kozarenko Parreira.
As discussões partiram dos desafios enfrentados pelas cidades contemporâneas, especialmente pelas grandes metrópoles, abordando questões relacionadas à desigualdade socioespacial, à violência urbana, à especulação imobiliária e às condições de vida da população. As professoras também discutiram as formas de produção e organização do espaço urbano e os efeitos dessas dinâmicas sobre diferentes grupos sociais.
A mesa também propôs uma reflexão sobre o planejamento urbano e sobre as possibilidades de construção de cidades mais justas. Nesse contexto, a Geografia foi apresentada como uma ferramenta para compreender as transformações do espaço urbano e as relações sociais e econômicas que estão por trás dos problemas vivenciados nas cidades.
A discussão retomou, ainda, a ideia de esperança presente no tema da Semana de Geografia deste ano, relacionando com à possibilidade de pensar outras formas de organização da vida urbana e de enfrentar os problemas que marcam as cidades no século 21.
No dia 8 de outubro, a programação teve como tema a relação entre o ensino da disciplina e a transformação social. A atividade reuniu a professora Ana Paula Gomes Seferian, da Faculdade de Educação (FE) da USP, com mediação do monitor e estudante de graduação Pedro Henrique Alem e Lamar.
As discussões partiram dos desafios enfrentados no cotidiano da educação básica e na formação docente, abordando questões relacionadas à precarização do ensino público, aos currículos escolares e às metodologias de ensino. A professora também discutiu as práticas pedagógicas capazes de conectar o conhecimento geográfico à realidade dos estudantes e os efeitos dessas abordagens na construção de um pensamento crítico dentro das salas de aula.
A conferência também propôs uma reflexão sobre a prática docente e sobre as possibilidades de construção de uma escola pública mais democrática e inclusiva. A Geografia Escolar foi apresentada como ferramenta fundamental para compreender as dinâmicas territoriais, as desigualdades e as lutas sociais presentes no dia a dia dos alunos.
A discussão retomou, ainda, o conceito de esperança na perspectiva de Paulo Freire, relacionando com a necessidade de superar o conservadorismo, reinventar as práticas de ensino e reafirmar o papel da educação geográfica na sociedade contemporânea.
Conferência de encerramento
A sexta-feira, 9 de outubro, marcou o último dia da Semana de Geografia. A mesa realizou uma mostra do documentário Semana de Geografia USP 23 anos: Esperançando e conectando a escola pública com a universidade pública, produzido pelo Grupo de Trabalho de Audiovisual da Semana. A atividade foi conduzida por Waldirene Ribeiro do Carmo, co-coordenadora do evento e técnica responsável pelo Lemadi. A mesa foi mediada por Nathan Gabriel Franco.