O apoio à democracia no Brasil passou de 64% para 68% entre 2023 e 2026, apesar do aumento do pessimismo econômico no país, que saltou de 35% para 59% no mesmo período. Os dados são do relatório Pulse of Democracy 2026, que aponta uma recuperação do apoio à democracia em quase todos os países da América Latina após mais de uma década de queda. Esse foi o tema do evento “Pulse of Democracy – Apresentação do LAPOP 2026”, realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em 22 de outubro.
Participaram do evento Robert Vidigal, pesquisador associado do Center for Global Democracy, da Vanderbilt University, e professor da Universidade de Brasília (UnB), e Nara Pavão, professora da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Segundo Vidigal, a missão do centro é, “usando dados, entender o surgimento, funcionamento e declínio das democracias ao redor do mundo”.
O projeto, que completou 22 anos, já realizou mais de 400 mil entrevistas em mais de 35 países. Vidigal explicou que as pesquisas são feitas com um sistema rigoroso de controle e treinamento prático de entrevistadores. Na rodada mais recente, entre julho de 2025 e 2026, 21 países foram pesquisados, com média de mil entrevistas por lugar. No Brasil, a parceria com pesquisadores da USP possibilitou a realização de 1.500 entrevistas.
Brasil é exceção na América Latina
A pesquisa identificou uma retomada do apoio à democracia na América Latina, embora o avanço brasileiro tenha sido menor do que o registrado em outros países. O levantamento também mostrou que o Brasil se diferencia da maior parte do continente quanto à percepção da situação econômica. Os dados indicam que os brasileiros associam a democracia principalmente ao cumprimento da lei e à igualdade, e não necessariamente à realização de eleições.
No cenário político, o estudo apontou que candidatos de direita têm vencido eleições na América Latina sem que isso represente, necessariamente, um realinhamento ideológico da população. No Brasil, 50% dos entrevistados se posicionam à direita, resultado que se destaca no contexto regional — hoje, dos 12 países da América do Sul, sete possuem presidentes alinhados à direita política.
O questionário aplicado pelo projeto continha 124 perguntas, com temas que variaram entre valores democráticos, apoio ao sistema, Estado de direito e intenção de migrar. Os resultados demonstraram que o apoio à democracia caiu nos países da América Latina a partir de 2016, com uma subsequente estabilização. Em 2026, esse percentual aumentou. Na Colômbia, por exemplo, o percentual passou de 51%, em 2023, para 63%, em 2026. “Os resultados não são definitivos, mas servem para apontar certas tendências da situação de apoio à democracia na região e no Brasil”, destacou Vidigal.
Em 2023, o Brasil contava com um apoio à democracia de 64% e, em 2026, esse percentual aumentou para 68%. “No Brasil tem um aumento de apenas quatro pontos percentuais, o que é pouco em comparação com outros países que estão tendo um aumento de oito, doze pontos percentuais”, destacou o pesquisador.
Democracia para os brasileiros
Ao investigar o significado da democracia para os brasileiros, a pesquisa identificou o cumprimento da lei e da igualdade como os valores mais associados ao regime, mencionados por 30,3% e 25% dos entrevistados, respectivamente. As eleições apareceram na última posição, com 9,7%. Os resultados indicam que, para parte da população, a democracia está relacionada não apenas aos processos eleitorais, mas também à garantia de direitos e à igualdade perante a lei.
Para investigar os fatores associados ao apoio à democracia, o levantamento também analisou a confiança da população nas instituições democráticas, incluindo o Legislativo e as eleições. O resultado demonstrou que os brasileiros confiam apenas 31% no Legislativo e 41% nas eleições, taxas que se mantiveram semelhantes durante a última década. A popularidade dos presidentes também continua baixa. El Salvador, em 2026, possui uma rejeição presidencial de 83%, enquanto o Brasil apresenta 35%.
O relatório também investigou a relação entre as condições econômicas e o apoio à democracia. Na maior parte dos países latino-americanos, os entrevistados perceberam uma melhora na economia. Brasil e El Salvador foram exceções, com aumento da insatisfação em relação à situação financeira. No caso brasileiro, o percentual de pessoas que avaliam negativamente a economia passou de 35%, em 2023, para 59%, em 2026.
Para assistir ao evento completo, acesse o link.