Homenagem a Rubens Junqueira Villela

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Professor Rubens Junqueira Villela dentro de uma embarcação
Professor Rubens Junqueira Villela | Arquivo Pessoal

No dia 21 de janeiro de 2026 faleceu Rubens Junqueira Villela, docente aposentado do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP. Fernando Nadal Junqueira Villela, docente do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, escreveu a homenagem abaixo a seu pai:

Fernando Nadal Junqueira Villela
Professor Fernando Nadal Junqueira Villela do Departamento de Geografia da FFLCH

O falecimento de um ente querido é sempre um motivo de tristeza pela falta que faz aos familiares, amigos e conhecidos. No entanto, penso que a lembrança acaba sendo mais alegre se sua trajetória e convivência tiverem sido muito boas, e ainda com um legado quanto ao avanço da ciência no Brasil. É o que posso dizer em relação ao meu pai, Rubens Junqueira Villela, professor aposentado do Instituto Astronômico e Geofísico - IAG da USP, falecido na última 4a feira, 21/01/2026, aos 95 anos.

Não quero aqui enfatizar especificamente sua carreira como meteorologista, apelidado de "Dr. Trovão" pelo irmão e sobrinhos, embora talvez traga um pouco de sua contribuição para a Geografia, Climatologia e Meteorologia por motivos óbvios. Mas o que queria mesmo era destacar alguns pontos de sua incrível trajetória de vida, que foi marcada por uma profunda curiosidade, respeito ao ser humano e por uma genialidade no modo de agir que são dignos de nota, e que foram refletidos em sua carreira como professor e cientista.

Nascido em São Paulo em 1930, foi criado na Fazenda Belo Horizonte no município de Cristais Paulista junto com o irmão mais novo, com direito a muitas andanças pelas áreas rurais localizadas à beira de uma escarpa de cuesta no NE do estado de SP. Interessava-se por viagens de exploradores e aventureiros, mas creio que o estopim de seu interesse foi o ganho de um rádio comunicador aos 13 anos e o descobrimento da radiotelegrafia, que o colocou em escuta e contato com um mundo de navegação e exploração que o fascinou e cativou pelo resto de sua vida. Tornou-se radioamador e radiotelegrafista profissional, aprendeu com maestria o código morse e línguas como o russo, muitas vezes recorrendo sozinho a suas dúvidas na biblioteca Mário de Andrade, na capital, durante o período em que cursava o colegial no Colégio São Luís.

Quando terminou a escola, interessando-se por resistores e transmissores nas telecomunicações, prestou Engenharia Eletrônica na Escola Politécnica por duas vezes, mas não passou, creio que por muita ansiedade e nervosismo. Entretanto, não se deu por vencido e, por várias circunstâncias, acabou indo para Denver, nos EUA, para cursar a Colorado School of Mines, curso de nível superior que já contava, dentre os egressos, com Antônio Ermírio de Moraes. Gostou bastante do curso e ainda mais de percorrer trilhas nas Montanhas Rochosas, porém sentiu que lhe faltava algo e mudou para engenharia elétrica na Universidade de Maryland. Esse curso também não o satisfez, mas foi importante, já que ali acabou por cursar uma disciplina optativa de Meteorologia oferecida pelo Departamento de Geografia daquela Universidade. O professor ministrante da disciplina notou o entusiasmo do estudante e o incentivou veementemente, pois como o próprio aluno afirmava, foi “amor à primeira vista”. Com isso, ingressou no curso da Florida State University – FSU em 1953, formando-se como meteorologista em 1957. Ainda, nesta década de 1950 trabalhou num posto de escuta do governo americano em Washington (Foreign Broadcast Information Service), mais tarde transformado em bureau da Central Intelligence Agency - CIA, além do US Weather Bureau, aeroportos e centros de estudos de furacões, não sem se divertir com incursões em barco à vela pelo rio Potomac, aventuras que lhe renderam até mesmo o direito a um capote durante uma forte ventania, cujo evento foi noticiado pelo Washington Post sob o título “Cold Dunk in the Potomac”, ou “Banho gelado no Potomac”. Nesse tempo, impelido pela curiosidade e interesse completo na compreensão das forças atmosféricas, ele seguiu na FSU como aluno dedicadíssimo, surpreendendo até mesmo os professores mais antigos por seu conhecimento em radiotelegrafia e conhecimento de códigos em outras línguas, bem como a propagação de sinais de rádio em tempestades.

Esse período nos EUA alimentou cada vez mais um grande interesse que tinha desde menino: conhecer a Antártida. Acompanhando desde a década de 40 as missões do Almirante Byrd, que sobrevoou o Polo Sul em 1929, começou a se corresponder com autoridades dos EUA em função de seu estágio no US Weather Bureau e estudos sobre radiocomunicação no continente gelado, publicando artigos em periódicos internacionais e textos em vários jornais brasileiros sobre a importância das frentes frias emitidas da Antártida para o clima no Brasil. Solicitando apoio ao Itamaraty e ao médico Durval Rosa Borges, primeiro brasileiro a chegar na Antártida, e correspondendo-se com o Comandante da força naval americana, George Dufek, recebeu convite para integrar a tripulação do navio quebra-gelo “USS Glacier” que partiria da Nova Zelândia – NZ com destino à Costa de Eights, no Mar de Ross, para exploração e mapeamento de uma parte do continente que à época ainda não era conhecida, na chamada missão “Operation Deep Freeze” (“Operação Congelamento”, nome bem propício). Imaginem, o convite ocorreu em Dez/1960 e o navio partiria de Christchurch em Jan/1961, requerendo uma agilidade no itinerário para a NZ que por si só já era um milagre, mas saiu: a antiga Real Aerovias, onde trabalhava, lhe concedeu uma passagem para Tóquio, e ele tomou carona entre São Paulo e Honolulu, saindo do Havaí para Christchurch com chegada no dia de suspender a âncora, o que felizmente foi atrasado em razão das hélices do USS Glacier estarem consertando (o que lhe rendeu também 2 semanas de passeio pela NZ).

Não cabem aqui detalhes desta incrível viagem à Antártida, que durou até Abril de 1961 e que contou, como ele mesmo dizia, "com grandes aventuras (queda de helicóptero, cientistas perdidos em tempestades, dias presos no gelo somente libertados à força de explosivos)", mas posso destacar 2 fatos importantíssimos para a ciência no Brasil: o primeiro foi sua ida, não somente como meteorologista e pesquisador do quebra-gelo, mas também como repórter do jornal "Folha de São Paulo", em que publicou seus relatos da viagem como  “news correspondent” do CNPq e da National Science Foundation dos EUA, produzindo assim um dos primeiros relatórios científicos de nossa agência brasileira de fomento à pesquisa;  e em segundo, sua participação num dos desembarques mais complicados da viagem na Baía do Almirantado em frente à Ilha Rei George, em 16/03/61, onde mais de duas décadas depois seria implantada a primeira base antártica brasileira chamada "Estação Antártica Comandante Ferraz – EACF”. Estas situações, pioneiras, não seriam mais importantes se não fosse um terceiro acontecimento que nem mesmo ele poderia imaginar: o convite do próprio Almirante Dufek, em Nov/1961, para integrar a Operation Deep Freeze II, cujo destino seria o Polo Sul. Assim, a partir de um voo num Hércules C-130 saído da Base Americana de McMurdo, o "Dr. Trovão" tornou-se o primeiro brasileiro a pisar no extremo austral do nosso planeta, em 17/11/61. Ficou abismado, entre muitas outras, com duas coisas: a primeira foi o fato do ponto exato do Polo estar marcado no platô toscamente por alguns barris de óleo, observação que o fez sugerir lubrificar o eixo de rotação da terra; e a outra, a "mina de gelo" perfurada na estação do Polo chamada Amundsen-Scott, onde havia um poço de 28 m de profundidade cavado para estudos glaciológicos. Ficou tão curioso com aquela perfuração que, tendo como prova de seu entusiasmo, há uma foto registrada à época em que o prof. Villela acabou por sair o indivíduo mais inclinado, parecendo que queria "mergulhar" gelo adentro. Vale contar também o fato de seu filho mais novo e ex-aluno do IAG, Franco Nadal Junqueira Villela, meteorologista do INMET, quase 5 décadas mais tarde, integrar a equipe do Projeto Criosfera 1 desenvolvido pela UERJ, INPE e UFRGS, pondo os pés a aproximadamente 600 km dali por diversas vezes. Além disso, nessas expedições de 1961 meu pai pôde perceber a importância dos conhecimentos de alpinismo para os estudos antárticos, contribuindo nesse quesito para a fundação e desenvolvimento do Clube Alpino Paulista, entidade que atualmente presta serviços de apoio e logística fundamentais ao Programa Antártico Brasileiro - o PROANTAR.

Voltando ao Brasil e trabalhando no início da década de 60 na Real Aerovias (depois comprada pela Varig), o recém-formado meteorologista conseguiu um estágio no Goddard Space Flight Center, mais tarde incorporado à NASA, em que pôde conhecer melhor ramos da ciência como a Aeronomia , que estuda as camadas atmosféricas, e perceber-se totalmente como um "meteorologista troposférico", interessado nas reviravoltas e turbulências do clima que tanto nos afeta em superfície. Nesse período, também pôde desenvolver sua paixão pelo vôo à vela, tirando seu brevê de piloto de planador e participando em inúmeros trabalhos e competições desta modalidade como previsor do tempo, tanto no Brasil como no exterior, o que lhe rendeu amigos também pilotos que encontrou até seus dias finais, além de ministrar muitos cursos e escrever artigos sobre aviação publicados em especial na Revista Aeromagazine. Nessa época, também foi importante sua escrita no Correio Agropecuário, veículo de comunicação que o aproximou de outros professores como o climatologista Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro, geógrafo que o intrigava com seu trabalho sobre o ritmo climático e a discussão sobre a metodologia para tais investigações, e o Prof. Aziz Nacib Ab'Sáber, que mais tarde dividiria também uma seção nos anos 2000 na revista Scientific American Brasil.

Nesse início da década de 60, seu interesse pela Antártida não apenas aumentava como também germinava uma ideia importante: a formação de um programa antártico brasileiro. Fez todo tipo de esforço por artigos publicados em jornais, cartas, contatos e outras movimentações para isso; finalmente, conseguiu um agendamento para uma reunião com o então presidente Jânio Quadros. Porém, com a renúncia deste e o golpe militar de 1964, acabou por tomar outros rumos em suas aptidões e por uma série de motivos desembarcou em Cuba em 1966 para trabalhar como professor no Instituto de Meteorologia de Havana. Viveu a Revolução implantada por Fidel ao "pé da letra", como dizia, tendo com outros professores de aprender o trabalho duro da vida no campo inclusive, onde ficou abismado com a força dos camponeses, já que o caboclo que os ensinava a rastelar fazia uma área 10 vezes maior que todos eles juntos; verificou, igualmente, como a importância dada ao clima era enorme naquele país, contraditoriamente ao Brasil com suas dimensões continentais. Esse ponto de sua vida foi particularmente gratificante ao reencontrar antigos alunos, atualmente colegas meteorologistas, no The Weather Channel Latin America em Atlanta, nos EUA, quando foi contratado para trabalhar por lá ao final da década de 90.

Terminando seu período em Cuba nos fins de 1967, Villela partiu para a Europa a ponto de até mesmo "tomar uns cascudos" nas manifestações da revolução estudantil em maio de 1968 em Paris. Acabou por se deslocar para Londres, onde trabalhou como freelancer da BBC News e, retornando ao Brasil, foi trabalhar em 1971 com consultoria agrícola, conhecendo a equipe de pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas - IAC, a exemplo de Ângelo Paes de Camargo, que "tinha a climatologia do Brasil na cabeça", segundo ele. Nesse tempo, começou também a estreitar relações com a USP e particularmente com o Instituto Oceanográfico - IO, assim como o Instituto de Geociências – IGc, participando como convidado de viagens de pesquisa a bordo do navio oceanográfico “Prof. Wladimir Besnard”, onde mais tarde inauguraria o PROANTAR na expedição de 82/83 indo às Ilhas Shetlands do Sul e Península Antártica. Conheceu também a Marqueza, médica vinda do Paraná com quem se casaria e seria, como ele próprio apontava, "pai-avô" de dois Cbs (alusão ao código Cb de nuvens de tempestade em forma de bigorna no topo - Cumulus Nimbus). Em 1974, a convite do Prof. Giorgio Giacaglia, ingressou no IAG da USP, assumindo as disciplinas de Meteorologia Básica, Meteorologia Sinótica e Meteorologia Operacional em curso que teve colegas os professores Pedro Leite da Silva Dias e Maria Assunção Faus. Transcorreu as décadas de 70 e 80 entre a USP e a prestação de serviços adicionais à Hidroservice, Embraer e o jornal “O Estado de São Paulo”. No final da década de 70, desenvolveu seu mestrado a partir da implantação de um aeroporto na Ilha da Madeira, SW da costa portuguesa, e arrumou briga: contrariando as expectativas, indicou em sua dissertação que o local, orientação da pista e projeto do aeroporto deveriam ser diferentes dos interesses comerciais locais, principalmente em função do efeito orográfico que percebia haver sobre as condições circulantes das massas de ar. Estudos depois comprovaram suas indicações, e o aeroporto foi construído fielmente adequado à realidade atmosférica.

Suas incursões à Antártica obviamente se intensificaram com o início das operações brasileiras desde a estreia em 1982/1983, indo assim por 9 vezes ao continente austral pelo PROANTAR. Era comum sua ida todo final de ano, primeiro partindo do porto de Santos a bordo do “Besnard”, pertencente ao IO, e depois a partir dos navios da Marinha Brasileira “Barão de Teffé” e “Ary Rongel”, este último ativo até hoje. Numa destas viagens, conheceu Jacques-Yves Cousteau, tomando cafezinho; ficou intrigado com um apontamento de Costeau, que julgava ser o continente antártico o maior “exportador de frigorias” do planeta. Ainda, em 1990/1991, iria de veleiro ao integrar, junto com mais 3 companheiros (Hermann Hrdlicka, Eduardo Louro e Fausto Chermont), a tripulação do veleiro Rapa Nui, projeto de apoio à invernagem antártica de Amyr Klink, que o considerava um cientista totalmente "pinguináceo". Essa viagem rendeu vários apuros e boas aventuras; na ida, em Ushuaia, voltando de um jantar regado a muito vinho, acabou por cair na escadinha subindo o barco e quebrou a costela, o que não o impediu de seguir viagem; na volta, pegando um dos mares mais turbulentos do mundo que é o oceano no Estreito de Drake, ocorreram ondas estimadas acima de 10 m de altura ao sul de Cabo Horn, o que provocou o capote do veleiro, virando de cabeça para baixo, com direito a tomar uma lata de condimentos sobre a cara. Em silêncio, os tripulantes do Rapa Nui puderam apenas aguardar o retorno do barco à posição normal, seguindo depois rumo à América do Sul normalmente.

Um aspecto inusitado do trabalho do Prof. Villela era sua criatividade, assim como uma noção extremamente empírica das coisas, onde antes de verificar cartas de superfície, imagens de satélite, transmissões ou dados de sensores sobre o Clima, sempre colocava a observação do céu como ponto de partida. Isso lhe rendeu diversos trabalhos diferentes, como previsão das condições meteorológicas e também da situação das ondas para emissários de esgoto, tendo trabalhado em Praia Grande - SP, Barra da Tijuca no RJ ou Salvador na Bahia para empresas como a CBPO e a Odebrecht. Ainda era consultor da Fundação Cacique Cobra Coral, fazendo previsões que variavam desde encomendas feitas pelo governo iraquiano para, literalmente, chover no deserto, até os eventos do Rock in Rio, para não chover, claro. Essa característica inusitada e rebelde ou “não-comportada” levou-o a se interessar inclusive pela Ufologia, em especial quando queria entender as trajetórias de OVNIs que desafiavam as leis da Física. Essas e outras histórias cativavam a todos em suas palestras, fossem ministradas aos familiares, amigos, universitários ou empresários. Dizia: "Como nos ensinam Joseph Campbell e os antropólogos que estudam os mitos e a pajelança, religião, magia e ciência têm muito em comum!". Tentou publicar um livro pela Edusp, mas não houve tempo o suficiente. Ainda assim, há um ótimo capítulo sobre sua vida no livro “Endurance 64 – Na Antártica e Outras Histórias Austrais”, do navegador Cícero Augusto Vieira Neto, entre outros também interessantíssimos.

Como não poderia deixar de ser, à Geografia meu pai tinha uma atenção especial, o que me ajudou bastante a escolher a carreira e mais tarde também a trabalhar com a Antártida, no caso a considerar efeitos climáticos no relevo e nos solos a partir do Projeto Terrantar/Permaclima. Como exemplo desse interesse dele, pode ser citado o Paul Siple, geógrafo climatologista que ajudou a construir a Base Amundsen-Scott no Polo Sul e que criou uma tabela de sensação térmica (windchill table) utilizada até hoje. Ademais, suas palestras em Universidades como UNESP e UFSCar sempre envolviam cursos de Geografia, Biologia, Engenharia Florestal e Meteorologia, e no Departamento de Geografia da USP, especificamente, mantinha contato com o Prof. José Bueno Conti e aceitava prontamente convites de professores como Regina Araújo, Maria Elisa Siqueira e Emerson Galvani para ministrar aulas. Valorizava muito ciências que se situavam na chamada "zona de conflito", isto é, aquela fronteira interdisciplinar que acaba por ser muito importante nas relações Sociedade-Natureza, onde há possibilidade de se encontrarem soluções para problemas desde locais até globais. Isso não deixava que fosse pra lá de exigente, como pude comprovar quando tive de ser seu aluno em aulas particulares de Climatologia.

Apontou uma vez: "Conheça bem a Geografia, “namore” sempre os mapas; tão grande é a interação entre a superfície do globo e a atmosfera, que a Geografia pode ser um caminho alternativo para a formação do meteorologista (bom para os que não têm aptidão para a física ou matemática)".

Pai, que você sempre flua como um jet stream no alto da troposfera!

Prof. Fernando Nadal Junqueira Villela
Departamento de Geografia