As plataformas digitais moldam e são moldadas por práticas comportamentais e culturais contemporâneas, sendo estruturadas por algoritmos organizados em sistemas de recomendação (SR) criados por empresas de tecnologia e mídia com o objetivo de facilitar ou induzir o processo decisório, atuando na mediação da experiência social dos usuários. No campo da antropologia digital, as plataformas tornam-se espaços onde as atividades cotidianas podem ser coletadas, organizadas e analisadas, uma datificação que engloba questões éticas e de privacidade. O conceito está publicado na Enciclopédia de Antropologia on-line.
No novo verbete Plataformas Digitais, Jader Jaime Costa do Lago e Francisco Carlos Paletta apresentam algumas autoras e autores que discutem esses ambientes interativos, atentos às dinâmicas de poder envolvidas em sua criação e manutenção. Para o antropólogo estadunidense Nick Seaver (1985-), os criadores dos SR são atores bivalentes que buscam um caminho na suposta oposição entre algoritmos e humanos, computação e gosto. Nessa perspectiva, a navegação em sites, as preferências musicais, as coordenadas de geolocalização, os hábitos de consumo, as interações em redes sociais e outros dados comportamentais em ambiente digital estão à disposição de empresas ligadas à tecnologia da informação para fins econômicos. Para serem bem-sucedidas em meio à concorrência, essas empresas criam estruturas técnicas informacionais que sejam capazes de cativar o usuário para que ele permaneça na plataforma o maior tempo possível.
Ao mesmo tempo em que participam da construção de identidades e comunidades, as plataformas podem aumentar desigualdades ao limitar o acesso e a visibilidade de alguns grupos sociais. Trata-se da aplicação de uma técnica digital e, como definido pela filósofa Donna Haraway (1944-), “técnica envolve, necessariamente, dominação”. Segundo o sociólogo brasileiro João Martins Ladeira (1977-), os SR caracterizam-se pela constante observação das ações do usuário por parte das empresas de tecnologia, em monitoramentos voltados a identificar as ações de repulsa e sedução. A averiguação dessas ações retorna ao usuário na forma de recomendações. Para Nick Seaver é possível fazer uma analogia entre os sistemas algorítmicos e as armadilhas. São artefatos sofisticados e que funcionam psicologicamente, como infraestruturas epistêmicas e técnicas que se unem para produzir mundos culturais abrangentes e difíceis de escapar.
Ao final, os autores apresentam um projeto de antropologia digital, “Why we post?” (Por que postamos?), coordenado por Daniel Miller, com uma perspectiva sobre os usos das plataformas digitais por diferentes grupos ao redor do mundo, avaliando suas contradições e complexidades, mostrando como elas se tornaram espaços onde as pessoas vivem. “Em vez de tornarem o mundo mais homogêneo, as mídias sociais representam uma nova forma de expressar diferenças culturais.” Na perspectiva de Miller e seus colaboradores, “a plataforma é um artefato digital e cultural, uma ferramenta criada, desenvolvida e modificada pela ação humana”.
A enciclopédia
A Enciclopédia de Antropologia, obra produzida por alunos e professores do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, é um instrumento didático que promove o encontro entre pesquisa, ensino e extensão. A criação de um novo verbete ali importa não só como um registro rigoroso do conhecimento, mas também pelo processo colaborativo envolvido em sua criação.
A ideia surgiu em 2013, em uma disciplina de pós-graduação em Antropologia da professora Beatriz Perrone Moisés. Como trabalho final, a docente solicitou que os alunos criassem verbetes de enciclopédia a partir do tema da disciplina. A partir do segundo semestre daquele ano, Fernanda Arêas Peixoto, também docente do Departamento de Antropologia da FFLCH, assumiria a coordenação da pós-graduação desse curso e levaria o projeto adiante.
Embora tenha o nome de “enciclopédia” não se deve dar a ilusão de totalidade ou completude. Ao contrário, trata-se de uma obra em permanente constituição, realizada a partir das pesquisas e reflexões conjuntas de docentes e discentes. “Se ela se afasta da ideia de integralidade que marca o projeto enciclopédico em sua origem, guarda dele o caráter de colaboração coletiva, por isso a decisão de manter a designação”, como está descrito no site.
A Enciclopédia de Antropologia é composta por verbetes assinados, ordenados alfabeticamente e que se encontram classificados em autor, obra, conceito, correntes, subcampos e instituições. Deliberadamente sintéticos e apresentados em linguagem acessível, os verbetes visam funcionar como guias de orientação, de modo a permitir, a todo e qualquer interessado, o contato com formulações, obras e autores caros à reflexão antropológica. Ferramenta de trabalho e formação para aqueles que assinam os textos, a EA quer atuar também como instrumento de pesquisa e aprendizado para o leitor, que, além de poder navegar pelos diferentes textos publicados, tem acesso a uma bibliografia de apoio que o permitirá enveredar por novas searas, se assim o desejar.
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Para ler o verbete Plataformas Digitais completo, acesse este link.
Reportagem de Claudia Costa no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/universidade/qual-o-olhar-da-antropologia-sobre-as-plataformas-digitais-enciclopedia-on-line-da-usp-aborda-o-tema/