Por anos, a palavra “polarização” dominou o debate público para explicar os conflitos políticos no Brasil. A imagem parecia clara: dois lados opostos, cada vez mais distantes, disputando espaços e narrativas. Mas uma pesquisa recente de doutorado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP propõe uma interpretação diferente. Ao analisar o período entre 2018 e 2023, o estudo concluiu que o país viveu um processo de radicalização política concentrado principalmente no bolsonarismo, marcado pela defesa de pautas antidemocráticas, crescimento de ações violentas e aumento da tensão social no cotidiano.
De acordo com a tese, essa radicalização apareceu principalmente nas mobilizações bolsonaristas. Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro passaram a aceitar ou justificar ações antidemocráticas e demonstraram maior apoio a práticas violentas em defesa de seus objetivos políticos. “O que observei não foi apenas polarização. Era também um processo de radicalização, e não de forma equilibrada entre os dois lados”, explica Lilian Sendretti Rodrigues Macedo, autora da tese.
O estudo também mostra que discursos de desconfiança contra o sistema eleitoral, a imprensa e as instituições democráticas ganharam força ao longo do período analisado. Essa radicalização apareceu de forma clara nas ruas.
A autora analisou mais de 3 mil protestos realizados entre 2018 e 2023, além de entrevistas com eleitores e dados de opinião pública, e identificou o crescimento de manifestações bolsonaristas com pautas antidemocráticas, especialmente após as eleições de 2022.
Entre os episódios analisados estão bloqueios de rodovias, acampamentos em frente a quartéis e os ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília. Segundo Lilian, os ataques não foram um caso isolado, mas o ponto mais visível de um processo de radicalização que já vinha crescendo desde os primeiros anos do governo Bolsonaro.
A pandemia de Covid-19 também aparece como um momento importante desse processo. Enquanto parte da população evitava aglomerações, grupos contrários às medidas sanitárias continuaram se mobilizando nas ruas. Ao mesmo tempo, discursos anti-vacina, teorias conspiratórias e ataques à ciência passaram a circular com mais força nesses grupos.
Quando a política invade a vida cotidiana
Além das disputas institucionais, a pesquisa mostra como a política passou a afetar diretamente a vida cotidiana dos brasileiros. Segundo Lilian, o conflito político deixou de ficar restrito às eleições e aos debates públicos e começou a atravessar relações pessoais, amizades, famílias e ambientes de trabalho.
Para entender esses impactos, a pesquisadora realizou entrevistas e conversas em pequenos grupos com eleitores para investigar como as pessoas lidavam com o clima político dos últimos anos.
Um dos principais achados foi o que a autora chama de “burnout cívico”: um desgaste provocado pelo excesso de conflitos políticos e pela sensação constante de tensão nas relações sociais.
“Muitos entrevistados falaram de medo — medo de julgamento, de perder vínculos, de se expor”, afirma Lilian. Muitas pessoas passaram a evitar conversas sobre política para fugir de discussões, desgaste emocional e rompimentos pessoais.
O estudo também aponta que diferentes grupos passaram a consumir informações em espaços cada vez mais separados. Pessoas com posições políticas opostas passaram a confiar em fontes diferentes e a desconfiar das informações consumidas pelo outro lado. Nesse cenário, a confiança deixou de estar nas instituições e passou a depender mais de grupos próximos, redes sociais e contatos pessoais.
Ao defender o conceito de radicalização assimétrica, a pesquisa chama atenção para os limites de tratar todos os conflitos recentes apenas como polarização política. Para a autora, essa leitura pode esconder fenômenos mais graves, como a normalização da violência política e a contestação das regras democráticas.
A tese de doutorado Além da polarização: radicalização política, burnout cívico e repertórios de violência política no Brasil (2018-2023), de Lilian Sendretti Rodrigues Macedo, e orientada por Adrian Gurza Lavalle do Departamento de Ciência Política da FFLCH, foi defendida em fevereiro de 2026 no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política.