Depois de mais de três décadas dedicadas ao ensino e à pesquisa na USP, o historiador Elias Thomé Saliba recebeu uma homenagem inédita: seu nome passou a identificar um prêmio internacional concedido às melhores produções científicas e teses na área dos estudos do humor. O Elias Thome Saliba Award foi criado pela International Society for Humor Studies (ISHS), uma das mais prestigiadas instituições do mundo dedicadas ao tema, durante a 36ª conferência da entidade, realizada em julho deste ano, em Niterói (RJ).
“Aceitei com muita gratidão a nomeação do prêmio, uma conquista e uma retribuição por tantos anos de trabalho à FFLCH e à USP”, explica o professor. “Mas, cá entre nós, também fiquei imaginando se não era mais uma piada: afinal, a nomeação de um prêmio costuma ser, quase sempre, póstuma!”, brinca, em referência ao tema que há décadas pesquisa no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Elias explica que apenas nas últimas décadas o estudo do humor vem ganhando atenção no meio acadêmico. Por isso, considera que a homenagem representa também um reconhecimento à pesquisa em História, já que a ISHS reúne pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, e não apenas historiadores. Ele também acredita que o prêmio pode estimular novas gerações de pesquisadores a ingressar nesse campo de estudos. “A interdisciplinaridade é inerente a esta área de estudos e pode estimular muitas pesquisas e muitas publicações”, destaca.
O Elias Thome Saliba Award 2026 premiou a tese de doutorado O país do absurdo: a teledramaturgia de Dias Gomes como forma de ler o Brasil em O Bem-Amado (1973), de Iza Debohra Godoi Sepúlveda, do Departamento de História da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). A pesquisa analisa como elementos da comicidade, da farsa, da paródia e da alegoria foram mobilizados pela teledramaturgia como instrumentos de leitura crítica da realidade brasileira durante a ditadura. Em O Bem-Amado, o humor evidencia contradições políticas, práticas autoritárias e os absurdos da vida pública, revelando como a ficção televisiva encontrou caminhos para abordar questões sociais e políticas mesmo sob a vigilância da censura.
A pesquisa também destaca o caráter ambíguo do humor naquele período. Embora muitas vezes fosse desqualificado pelo regime como uma manifestação sem relevância política, o riso funcionava como uma forma de deslocamento e crítica, capaz de expor tensões, provocar reflexões e questionar estruturas de poder. Assim, a comédia se tornou um espaço de resistência simbólica e de interpretação do Brasil.
A autora do estudo faleceu aos 33 anos, em decorrência de um mal súbito, duas semanas antes da cerimônia de premiação. A honraria foi recebida por professores da UFMT em nome da pesquisadora.
O prêmio também concedeu Menção Honrosa à tese de doutorado em Artes O humor no teatro de Jô Soares, de Giovani Tozi, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O trabalho analisa a presença do humor na produção teatral de Jô Soares e sua relação com aspectos culturais e sociais do Brasil.
Humor como documento histórico
Professor da FFLCH há 36 anos, Elias Thomé Saliba iniciou sua trajetória de pesquisa ainda na década de 1970, dedicando-se à história da cultura política na Primeira República brasileira. “No exame das fontes já percebíamos a faceta cômica, nascida do contraste entre o discurso liberal e as práticas autoritárias. Mas a abundância e o excesso de humorismo nas fontes foi o que me conduziu a perceber a importância da dimensão cômica na história brasileira”, explica.
Segundo o professor, o humor funciona como um documento histórico indireto, capaz de captar disposições afetivas, modos de convivência e as zonas cinzentas do cotidiano: “Justamente aquilo que não aparece nas fontes ‘solenes’ da história política”.
Ele explica que a própria modernização brasileira só pode ser entendida se observada pelo ângulo do riso, porque é no humor – e não nas instituições – que se revela o modo como o brasileiro realmente incorpora, distorce ou negocia a vida privada republicana. “Daí o meu primeiro trabalho, que saiu por meio da minha teimosia, já que foi o único capítulo sobre o tema do humor na monumental História da Vida Privada no Brasil, vol. III, publicada em 1998 (1ª.edição)”, diz ele. Em seguida, publicou Raízes do Riso, lançado em 2003, obra que considera a mais importante de sua trajetória acadêmica.
Confira a entrevista veiculada no Canal do Departamento de História da FFLCH no YouTube abordando a trajetória do professor Elias Thomé Saliba
Evolução dos estudos do humor
O pesquisador relata que, quando iniciou sua trajetória, no início dos anos 1980, havia poucos pesquisadores brasileiros dedicados à estudos do humor na História. “Com o risco de esquecer alguém, tínhamos os estudos de Marcos Antonio da Silva, Isabel Lustosa, Verena Alberti e outros”, lembra. Desde 2013, ele coordena o Grupo de Pesquisa Humor e História, na FFLCH, com pesquisadores apoiados pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), responsável pela produção de diversos trabalhos importantes na área.
A linha de pesquisa do grupo investiga diferentes formas de expressão do humor, com base nas principais teorias sobre a comicidade, e analisa como essas manifestações se transformam ao longo do tempo e em diferentes contextos culturais. Com foco na história do Brasil, os estudos buscam compreender como o humor brasileiro criou espaços de sociabilidade, crítica e contestação, funcionando como uma forma de questionar discursos dominantes e revelar diferentes perspectivas sobre a sociedade.
Elias destaca o livro Além do Riso: reflexões sobre o humor em toda parte, organizado por ele e por Leandro Antonio de Almeida e Thaís Leão Vieira, dois outros importantes estudiosos do humor, no grupo de pesquisa. Atualmente, o grupo prepara um seminário temático, cujo título será Se correr o bicho pega, se ficar…: dimensões de um encontro entre animais, humor e história.
Para saber mais sobre o Grupo de Pesquisa Humor e História da FFLCH acesse o site Humor e História neste link e acompanhe os vídeo no canal Humor História USP do Youtube clicando aqui.
Texto de Thais Helena dos Santos publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/universidade/contribuicao-aos-estudos-do-humor-rende-a-pesquisador-da-usp-premio-internacional-que-leva-seu-nome/