“A infância é um chão que pisamos a vida toda.” A célebre frase da escritora brasileira Lya Luft (1938-2021) sintetiza, por meio de uma poderosa metáfora, a ideia de que os primeiros anos de vida constituem a base sobre a qual se constrói a identidade de cada indivíduo. Nela, as experiências da infância — os afetos, os medos, os aprendizados e os cuidados recebidos — deixam marcas duradouras que continuam a influenciar a forma como percebemos o mundo e nos relacionamos com ele, mesmo durante a vida adulta.
Essa é uma das reflexões que podem ser feitas ao visitar a exposição Descosturando o Pensamento: Meio Século de Livros Brasileiros para a Infância, 1976-2026, em cartaz até 11 de setembro na Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Inaugurada no dia 19 passado, a mostra reúne 55 obras, todas elas pertencentes ao acervo da própria biblioteca.
Nela, o visitante percorrerá 50 anos de literatura infantil brasileira, num trajeto organizado em cinco mesas distribuídas pelo espaço do evento, cada uma dedicada a uma década desse período. Segundo um dos curadores da mostra, o professor Paulo César Ribeiro Filho, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, o objetivo da exposição vai muito além de exibir as obras mais relevantes de cada época. “Mais do que reunir livros importantes desse período, procuramos mostrar como se transformaram, ao longo dessas cinco décadas, as maneiras de escrever, ilustrar, editar e pensar o livro para crianças no Brasil”, destaca o professor, que divide a curadoria da exposição com os professores Valnikson Viana de Oliveira e Francisco Camêlo, ambos também da FFLCH.
Para cumprir esse propósito, foram escolhidos justamente os livros que exemplificam e representam essas principais mudanças, levando em consideração sua relevância histórica. Nas palavras de Ribeiro Filho: “Nossa intenção foi a de construir um recorte capaz de tornar visíveis algumas das principais transformações ocorridas no período”.
Obras cinquentenárias
Dentro desse conjunto, ocupam posição especial livros publicados em 1976, que completam exatos 50 anos em 2026 e são os homenageados da exposição. Eles são A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, com ilustrações de Marie Louise Nery, Ida e volta, de Juarez Machado, Os Rios Morrem de Sede, de Wander Piroli, Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha, e O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, de Jorge Amado e Carybé.
A partir deles, é possível perceber a crescente importância da imagem e do projeto gráfico na construção das narrativas, a consolidação do livro ilustrado e do livro-imagem, as experimentações com a materialidade do próprio objeto livro e, ao mesmo tempo, uma significativa ampliação dos temas, das experiências e das vozes que passam a integrar essa literatura.
Em Marcelo, Marmelo, Martelo, de Ruth Rocha, por exemplo, são contadas três histórias: a de Marcelo, um menino curioso que questiona os nomes das coisas e inventa novas palavras — como “sentador”, para cadeira, e “suco de vaca”, para leite —, a de Gabriela e Teresinha, duas meninas diferentes que aprendem a gostar uma da outra e a respeitar as diferenças entre elas, e a de Caloca, que aprende a importância de construir amizades e de compartilhar os próprios brinquedos.
Apesar dos 50 anos transcorridos desde seu lançamento — como ressalta o professor Ribeiro Filho —, a obra continua sendo reconhecida pela qualidade de seu texto e de seu projeto artístico, além de permanecer presente no universo de leitura das crianças em idade escolar.
Depois de 1976, muita coisa mudou na produção literária infantil brasileira. De acordo com o professor Valnikson Viana de Oliveira, também curador da exposição, entre as principais mudanças ocorridas no mercado estão o crescimento da crítica especializada em obras para a infância, a consolidação do mercado editorial infantil — incluindo a larga produção de editoras independentes — e a maior inserção dessa vertente literária nos espaços escolares e acadêmicos. “Esse período também foi marcado pelo progressivo reconhecimento autoral dos ilustradores”, acrescenta o professor.
Além de a ilustração deixar de ser um elemento apenas complementar e se tornar fundamental para a narrativa, outra característica desse período é o afastamento da literatura infantil brasileira do formalismo pedagógico-moralizante, ainda de acordo com Oliveira. Segundo ele, é nessa época que surge a confiança na capacidade da criança de elaborar simbolicamente questões mais profundas através de ensinamentos mais bem elaborados.
Expectativas para os próximos 50 anos
Em relação às perspectivas para o futuro da literatura infantil brasileira, o professor Francisco Camêlo, o terceiro curador da mostra, conta que tem como uma de suas principais expectativas “a presença cada vez mais crescente de autores, tanto do texto quanto da imagem, de diferentes geografias e de grupos sociais diversos, o que amplia a produção de imaginários literários e sociais diversos acerca da infância e do ser criança” — característica essa que, de acordo com o fôlder do evento, já tem sido a principal marca da produção literária infantil desta última década (2016-2026).
Camêlo destaca que a atualidade das obras expostas é confirmada pelo autoritarismo ainda presente na sociedade brasileira, em que livros são alvo de tentativas de censura. Por exemplo, o livro A Bolsa Amarela, de Lygia Bojunga, incomoda por questionar a lógica adultocêntrica e patriarcal pela voz de uma menina escritora. “É uma obra muito atual, que ainda diz muito a leitores grandes e pequenos”, afirma o professor.
Camêlo lembra que a sociedade brasileira ainda é marcada por práticas herdadas da ditadura militar (1964-1985), pela persistência de estruturas racistas e patriarcais e pelo avanço de movimentos associados à extrema direita. Por essa razão, “ainda há muito o que descosturar hoje”, diz, recorrendo à metáfora do título da exposição, que, como ele explica, se refere aos livros que ajudaram e continuam ajudando a imaginar outras formas de ver, ler e compreender o mundo.
A exposição Descosturando o Pensamento: Meio Século de Livros Brasileiros para a Infância, 1976-2026 fica em cartaz até 11 de setembro, de segunda a sexta-feira, das 8h30 às 21h30, na Biblioteca Florestan Fernandes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP (Avenida Professor Luciano Gualberto, 315, Cidade Universitária, em São Paulo). Entrada grátis.
Texto de Laura Roson, estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg e Roberto C. G. Castro, publicado no Jornal da USP: Exposição revela as mudanças nos livros infantis nos últimos 50 anos – Jornal da USP