Há 30 anos, a USP mantém um programa dedicado exclusivamente aos estudos japoneses, contribuindo para o ensino e a pesquisa sobre a língua, a literatura e a cultura do Japão e para a produção acadêmica sobre a presença japonesa na América Latina. Para celebrar essa trajetória, a USP promove, entre os dias 31 de agosto e 2 de setembro, o 1º Simpósio Internacional de Estudos Japoneses e Nipo-Brasileiros no Brasil.
Organizado pelo Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa (PPGLLCJ), da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, o encontro ocorrerá na Casa de Cultura Japonesa, no campus da USP no bairro do Butantã. Ao longo de três décadas, o programa consolidou-se como referência na área, especialmente pela produção voltada aos estudos nipo-brasileiros e à diáspora japonesa na América Latina.
A iniciativa também destaca a relação histórica e social entre o Brasil e o Japão. O Brasil recebeu o maior contingente da imigração japonesa no mundo, relação que estabeleceu laços sociais e acadêmicos e resultou em expressões artísticas, culturais e científicas capazes de ampliar e diversificar as perspectivas dos estudos japoneses contemporâneos.
Com uma programação formada por conferências e painéis temáticos, o simpósio tem como foco central dar visibilidade à experiência da diáspora tanto no Brasil e na América Latina quanto em outras regiões que integram o chamado Sul Global. Estão previstos vários eixos temáticos: Língua Japonesa: sociedade, cultura e educação; Linguística Aplicada e Estudos Multi e Transdisciplinares; Ensino-Aprendizagem de Língua Japonesa como Estrangeira, Herança e Materna; Sociolinguística e Variação Linguística; Literatura Japonesa e Nipo-Brasileira; Tradução e Estudos Comparados; Diáspora e Relações Internacionais; Identidade, Motivação e Autonomia; Tecnologias Digitais; Cultura Japonesa e Nipo-Brasileira; e Pensamento e Filosofia Japonesa.
A cerimônia de abertura contará com a presença do professor Adrián Pablo Fanjul (diretor da FFLCH), da cônsul-geral Yoriko Suzuki (Consulado Geral do Japão em São Paulo), do professor Hiroki Otani (reitor da Universidade de Shimane), do professor Carlos Eduardo Ambrósio (pró-reitor de Pós-Graduação), da professora Maria Helena Palucci Marziale (pró-reitora de Pesquisa e Inovação da USP), da diretora Masumi Imai (Fundação Japão em São Paulo), da professora Lusine Yeghiazaryan (chefe do Departamento de Letras Orientais, FFLCH) e da professora Leiko Matsubara Morales (coordenadora do PPG-LLCJ e presidente da comissão organizadora do evento).
Entre os destaques da programação está a conferência Decolonial and Antiracist Japanese Language Education: Raising Critical Consciousness Through Fiction Novels, com a professora Ryuko Kubota (The University of British Columbia e presidente da Associação Americana de Linguística Aplicada), além dos painéis A herança cultural japonesa no Brasil sob a perspectiva dos estudos antropológicos e sociológicos e Migrações internacionais: diáspora japonesa na América Latina e ensino de língua de herança. Haverá ainda mesas-redondas, sessões de comunicação e oficinas. A programação completa está disponível neste link.
Referência em pesquisa e produção acadêmica
Criado em 1996, o Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da FFLCH já formou mais de 160 mestres. As pesquisas desenvolvidas no programa vão além do estudo da língua, da literatura e da cultura japonesas e abrangem temas como aspectos históricos, sociais, filosóficos e artísticos relacionados ao Japão.
“O atual corpo docente permanente do programa de pós-graduação reflete a diversidade e a multidisciplinaridade dos Estudos Japoneses e consolida o Programa como referência em pesquisa e produção acadêmica. Ao longo de seus 30 anos de trajetória, essa característica tem atraído pesquisadores e professores de diferentes regiões do Brasil e do exterior”, destaca Diogo César Porto da Silva, professor do Departamento de Letras Orientais da FFLCH. “Muitos egressos hoje atuam como docentes universitarios em universidades brasileiras e japonesas, além de estarem amplamente empregados em áreas que requerem proficiência linguística como tradutores e intérpretes de língua japonesa”, completa.
Diogo destaca ainda a atuação internacional do programa nos últimos 12 anos. Nesse período, docentes do PPG-LLCJ, em parceria com pesquisadores japoneses, organizaram dois eventos de alcance internacional voltados a questões contemporâneas dos Estudos Japoneses. O primeiro foi o Simpósio Internacional de Língua Japonesa como Língua Global, realizado em 2015, que discutiu, entre outros temas, o bilinguismo de crianças em contextos de migração transnacional — uma questão que permanece atual. O encontro ocorreu em um ano simbólico para as relações entre Brasil e Japão, marcado pelo centenário da fundação da primeira escola japonesa no Brasil e pelos 120 anos da assinatura do Tratado de Amizade entre os dois países. “O simpósio permitiu ampliar o debate sobre o ensino e a aprendizagem da língua japonesa para além das fronteiras nacionais”, explica Diogo.
Em seguida, o programa promoveu a conferência internacional Mobilidade e integração social, humana e linguística, em parceria com a Fundação Japão e o grupo de pesquisa Especificidade do uso de língua japonesa dos falantes plurilíngues da América Latina. O evento também se articulou ao V Encontro de Pós-Graduandos em Estudos Japoneses e ao II Encontro Latino-Americano de Professores de Língua Japonesa, reunindo pesquisadores, estudantes e professores em torno de diferentes dimensões da língua e da cultura japonesa. A iniciativa criou, segundo Diogo, “um espaço de confluência de saberes”, aproximando a pós-graduação, a graduação e as ações de extensão desenvolvidas junto a escolas públicas e particulares.
Professores do programa, sob a liderança da professora Eliza Atsuko Tashiro Perez, participaram, em 2018, da identificação do Vocabulario da Lingoa de Japam no acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. A pesquisa contou também com a participação de Jun Shirai, da Universidade de Hiroshima, que esteve no Brasil como professor visitante com apoio parcial da Fundação Japão. Publicado pela Companhia de Jesus em 1603, o dicionário bilíngue japonês-português é uma obra rara: existem apenas cinco exemplares conhecidos. “O livro registra aspectos das línguas japonesa e portuguesa utilizadas no século XVI e constitui uma importante fonte histórica para os estudos da língua japonesa e das relações entre Japão e Portugal”, explica Diogo.
A descoberta ganhou repercussão no Jornal da USP, que publicou reportagens sobre o achado em 2018 e sobre a reedição da obra em 2020. Naquele ano, o dicionário foi republicado no Japão em uma edição com imagens de alta resolução, resultado de uma coedição entre a FFLCH-USP, representada por docentes do PPG-LLCJ, a Biblioteca Nacional e a editora Yagi Shobô Shuppanbu. “A reedição permitiu ampliar o acesso a uma obra fundamental para compreender a história da língua japonesa e os primeiros registros do contato linguístico entre japoneses e europeus”, destaca a equipe responsável pela iniciativa.
1º Simpósio Internacional de Estudos Japoneses e Nipo-Brasileiros no Brasil
Data: de 31 de agosto a 2 de setembro
Local: Casa de Cultura Japonesa
Endereço: Av. Prof. Lineu Prestes, 159, Butantã, São Paulo
Mais informações no site
Texto de Izabel Leão publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/universidade/simposio-internacional-celebra-tres-decadas-de-estudos-japoneses-e-nipo-brasileiros-no-brasil/