FFLCH assina convênios voltados à pesquisa com deficientes visuais

A parceria foi firmada com a Associação Laramara e o Instituto Jundiaiense Luiz Braille, para o desenvolvimento do projeto de pesquisa Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivo, financiado pelo CNPq

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Eliete Viana
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*Matéria atualizada em 20/12/2022, às 10h14

Na tarde do dia 14 de dezembro, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP firmou parceria com a Associação Brasileira de Assistência à Pessoa Deficiente (Laramara) e com o Instituto Jundiaiense Luiz Braille de Assistência ao Deficiente da Visão, em cerimônia realizada no Salão Nobre do prédio da Diretoria e Administração.  

Por coincidência, a assinatura foi realizada logo depois do Dia Nacional da Pessoa com Deficiência Visual, que é marcado no dia 13 de Dezembro. A data existe desde 1961 e foi criada com o intuito de combater o preconceito e a discriminação, além de buscar a garantia de direitos e a inclusão das pessoas com deficiência visual na sociedade. Antes chamado de o “Dia do Cego”, a data mudou de nome porque a deficiência visual não se trata apenas de cegueira, mas também de baixa visão. 

Os acordos têm por objetivo estabelecer a cooperação técnico-científica e o intercâmbio de informações, conhecimentos e experiências visando à formação e especialização técnica de recursos humanos, bem como o desenvolvimento institucional mediante a implementação de ações, pesquisas, cursos, seminários, programas, projetos e atividades complementares de interesse comum entre a Faculdade e as instituições.

Pela FFLCH, a coordenação de ambos os convênios é da professora Maria Célia Lima-Hernandes, do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas (DLCV). 

O convênio com a Laramara tem vigência de 5 anos. A atual assinatura é uma renovação, pois a Faculdade já tinha uma parceria com essa Associação. No Instituto Jundiaiense Luiz Braille de Assistência ao Deficiente da Visão, a coordenação do acordo é do diretor-técnico Everton Lima Gondim, que é oftalmologista. O prazo de vigência é de 3 anos. 

Projeto 

Os convênios assinados têm o intuito de contar com a expertise de profissionais experientes no campo da deficiência visual para o desenvolvimento do projeto de pesquisa Recursos inferenciais na metáfora situada e audiodescrição – estudo contrastivofinanciado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que visa a um estudo inovador com equipe multidisciplinar para investigar os efeitos do texto audiodescrito (leitura secundada) na região occipital ventral de deficientes visuais congênitos – pessoas que deixaram de enxergar até os 5 anos de idade.

Segundo apresentação do médico Gondim, esta região fica na parte de trás do cérebro e é a que recebe a imagem quando a pessoa enxerga. Se a pessoa estiver de olhos fechados, esta área vai estar escura. Em deficientes visuais congênitos esta região é utilizada para outras atividades, mas se a pessoa passou a não enxergar após os 7 anos esta área não é usada, porque não desenvolve mais.

A professora Maria Célia, coordenadora geral do projeto, destaca que a ideia é retomar o ponto de chegada do estudo de Dehaene, que demonstrou que a região occipital é a base para a “caixa de letras”, um índice de alfabetização no cérebro humano. Ela lembra que, segundo aquele autor, somente indivíduos alfabetizados emitiriam, na fmri, sinais de ação. 

"O estudo pretende, assim, investigar a capacidade de leitura audiodescrita de deficientes visuais congênitos em contraste com o grupo de controle (videntes) por meio de experimento conduzido em etapas de afunilamento de centros de atenção lexicais, após o contexto geral audiodescrito ter sido apresentado. O foco de atenção primário será composto por metáforas em graus de complexidade diferentes", explica Maria Célia.

Em outras palavras, espera-se monitorar a fluência verbal de leitura passiva, na competência de sinonímias e inferências de metáforas situadas e seus efeitos na região rotulada "caixa de letras". Como método, será utilizada a combinação de audiodescrições com ressonância magnética funcional. Tanto deficientes visuais quanto videntes utilizarão máscaras escuras para impedir qualquer interferência decorrente de visão ambiental.

Interdisciplinar

Como um projeto interdisciplinar, além da FFLCH, que é a Unidade coordenadora, há outras Unidades da USP parceiras: Instituto de Física, através do Laboratório de Ressonância Magnética, com os professores Said Rabhani e Hernán Joel Cervantes; Instituto de Psicologia, na área de Psicologia do Desenvolvimento, com a professora Fraulein Vidigal de Paula; e o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP, através do Departamento de Radiologia e Oncologia do Instituto de Radiologia, representando por Mariana Penteado Nucci da Silva.

Em cada área de pesquisa (Física, Psicologia, Linguagem, Neurociência, Medicina), os resultados poderão gerar dinâmicas próprias em novos projetos ou ações voltadas à acessibilidade. No campo central e interdisciplinar da linguagem, os resultados poderão trazer contribuições para o campo do ensino/aprendizagem escolar, seja na produção de materiais adaptados, seja na forma de criar audiodescrições mais ajustadas a esse perfil de indivíduos.

Também poderá contribuir com o conhecimento em ciência básica, especialmente no que tange à evolução lexical e gramatical de construções linguísticas guiadas por mentes de deficientes visuais congênitos em contraste com a de videntes, cujos inputs visuais estão em sintonia com os materiais mais comumente veiculados. No campo técnico da audiodescrição, os resultados poderão auxiliar nos insumos para a formação de profissionais audiodescritores.

Sobre a importância do projeto, Maria Célia acredita que "com o desenvolvimento das pesquisas, vamos, de alguma forma, "provocar" o assunto dentro da universidade, na mídia e, consequentemente, na sociedade".  

A verba do projeto vai ser usada para financiar os exames de ressonância magnética, que tem previsão de serem realizados no primeiro bimestre de 2023. No dia seguinte à assinatura, 15 de dezembro, a professora Maria Célia e o médico Gondim visitaram o Hospital das Clínicas para conferir os aparelhos que serão usados neste projeto.

Conheça mais sobre as entidades

A Associação Brasileira de Assistência à Pessoa Deficiente (Laramara) é uma organização da sociedade civil, que está sediada no bairro da Barra Funda, em São Paulo. Tem como missão promover o desenvolvimento integral da pessoa com deficiência visual, por meio de atendimento direto, ações de assessoramento e defesa e garantia de direitos, para a sua autonomia e inclusão social; e como visão ser o centro nacional de excelência e referência para pessoas com deficiência visual.

Fundada em 7 de setembro de 1991, pelo casal Mara e Victor Siaulys. A iniciativa surgiu por causa da filha deles: Lara, que foi diagnosticada com retinopatia da prematuridade, para a qual buscaram instituições e profissionais com o intuito de realizar o tratamento e a reabilitação dela. Sendo assim, iniciou-se uma pesquisa abrangente sobre cegueira e deficiência visual, como meio para entender e compreender a realidade dessa pessoa, de seus familiares e seu mundo.

Essa pesquisa, juntamente com o tratamento da Lara, levou a sua mãe a cursar pedagogia e uma especialização em Deficiência Visual, na USP. Com esse relato diário, seu interesse em expandir essa experiência e conhecimento em forma atendimento aos mais vulneráveis, o casal reuniu um grupo de profissionais atuantes na área da pessoa com deficiência visual, para fundarem a Laramara, cujo nome é a junção do nome da filha e da mãe.

O trabalho começou com crianças de 0 a 7 anos, sendo estendido a outras faixas etárias, com maior acompanhamento, demandando a ampliação das atividades e programas para outras faixas etárias. Em 1996 e 1997, com novas demandas, foi ampliado o projeto educacional, desenvolvendo programas e atividades com foco no mundo do trabalho, nas artes e cultura para jovens e adultos. A Associação trouxe para o país a fabricação da máquina braille e bengala longa, importantes para a educação e reabilitação da pessoa com deficiência visual e, para isso, firmaram parceria com empresas privadas e organismos públicos para entregar um número significativo desses equipamentos, para famílias carentes de todo o Brasil.

O Instituto Jundiaiense Luiz Braille de Assistência ao Deficiente da Visão é uma associação civil, que tem por finalidade promover a reabilitação dos deficientes visuais, através de atividades pedagógicas, físicas, psicológicas, profissionalizantes; manter oficinas ocupacionais para treinamento e capacitação; a assistência, tratamento e a reabilitação médico-oftalmológica dos deficientes visuais total ou subnormal, e desenvolver campanhas de conscientização e prevenção da cegueira; e promover, através de convênios, a implantação de um centro médico-oftalmológico e banco de olhos, e o desenvolvimento de cooperação técnica, pesquisa, estudos abrangendo as áreas de oftalmologia e dos deficientes visuais.

Foi criado em 20 de dezembro de 1941, com o objetivo de alojar e profissionalizar pessoas com deficiência visual. A proposta partiu do professor Maestro Mario Chaves, que era deficiente visual e conhecia as necessidades acarretadas pela deficiência. Ele convidou amigos e deu início à entidade, que pretendia atender não apenas moradores de Jundiaí, mas de toda a região, no Estado de São Paulo.

Anos depois, notou-se a necessidade de oferecer educação acadêmica e a entidade passou a contar com aulas sobre o sistema Braille e atividades de vida diária, com foco no convívio social. Com a grande procura de assistidos em idade escolar, foi contratada uma professora formada em Educação Especial para Cegos, o que acelerou o processo educacional e promoveu a integração, pela primeira vez no Estado de São Paulo, de crianças com deficiência visual ao ensino regular. E, depois disso, o Braille passou a atender pessoas com baixa visão também. 

*Correção: antes estava "passou a não enxergar após os 5 anos" e na correção a idade correta "7 anos" foi colocada.