Eva Blay é contemplada com título de professora emérita da FFLCH

A socióloga é uma das pesquisadoras ícones dos estudos sobre a mulher e das relações de gênero. Ela recebeu a homenagem em evento prestigiado por professores da Faculdade, diretores de outras Unidades e do reitor da USP
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Eliete Viana
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Atualizada em 26/10, às 13h47

Eva Blay discursa observada pela diretora da FFLCH e pelo reitor da USP
Eva Blay discursa observada pela diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, e pelo reitor da USP, Vahan Agopyan - Foto: Victoria Golfetti - STI/FFLCH


Em cerimônia realizada na tarde do dia 19 de outubro, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP outorgou o título de professora emérita à Eva Alterman Blay. A homenageada entrou no Salão Nobre do prédio da Administração da Unidade na companhia dos professores eméritos Sedi Hirano e José Reginaldo Prandi, seus colegas do Departamento de Sociologia.

Reconhecimento

Em sua saudação, a pró-reitora adjunta de Cultura e Extensão Universitária da USP, Margarida Maria Krohling Kunsch, disse que era motivo de grande satisfação ver o reconhecimento que a Faculdade estava prestando. “Sua trajetória é reconhecida internacionalmente e é muito simbólico que, neste momento político do Brasil, a gente esteja aqui reunido para homenageá-la. A professora Eva é um orgulho para a nossa Universidade, para as nossas mulheres, professoras e servidoras da USP”, frisou Margarida.

O chefe do Departamento de Sociologia, Ruy Braga, ressaltou que os trabalhos da homenageada possuem importância além da academia, citando entre eles a tese de doutorado A mulher na indústria paulista. “Seus trabalhos dentro da Sociologia são inovadores e estimulam o debate público brasileiro. Tem uma trajetória notável, como uma socióloga que enfrenta os desafios do seu tempo. Meus parabéns, Eva, você é um orgulho para nós!”, declarou. 

“A socióloga encontra-se entre as raras personalidades que conseguiram associar a carreira de pesquisadora, de formadora de instituições e a de participante da vida pública brasileira”, ressaltou a diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, que também é colega do mesmo Departamento que Eva e foi escolhida por ela para falar de sua trajetória.

A diretora comentou sobres as pesquisas desenvolvidas pela docente ao longo de sua carreira acadêmica, as quais situam-se nos temas sintonizados com as transformações da sociedade, mas vistas sob o ângulo das formas de domínio, dos movimentos sociais, dos conflitos resultantes, dos direitos e da cidadania.

Maria Arminda destacou o fato de Eva ter sido a primeira mulher a ocupar o cargo de professora titular no Departamento de Sociologia, em 1989, de ter criado o Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero (NEMGE) e proposto o primeiro curso de graduação e pós-graduação sobre a mulher na USP. “Eva Blay erigiu-se em intransigente defensora dos direitos humanos, das mulheres em especial, atuando ativamente na denúncia das diversas formas de violência a que são submetidas”, ressaltou a diretora, ações que credenciaram a professora a coordenar o Escritório USP Mulheres-ONU, desde 2016.

“A sua biografia revela a densidade de sua atuação nas mais diversas áreas, especialmente no âmbito dos estudos sobre a mulher, das relações de gênero, dos direitos e da cidadania. A trajetória da socióloga Eva Blay manifesta a aliança entre vida e obra, atributo das vocações mais genuínas no universo das Ciências Sociais”, enfatizou.

Trajetória pioneira

Eva iniciou seu discurso agradecendo aos seus ex-alunos, muitos deles presentes na ocasião, pois “me permitiram estudar, ensinar, discutir, mudar, crescer, nunca parar. Mesmo discutindo bravamente”, disse a professora, brincando com sua fama verdadeira de brava. E também agradeceu a indicação de Ruy Braga para receber este título, com a qual tornou-se a segunda professora emérita do Departamento de Sociologia, após 28 anos da primeira, Maria Isaura Pereira de Queiroz, que é sua amiga e mentora.
 

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A cerimônia do recebimento do título de professora emérita contou com a presença de dirigentes da FFLCH e também da Reitoria, como o reitor e a pró-reitora adjunta de Cultura e Extensão Universitária - Foto: Victoria Golfetti - STI/FFLCH


A nova professora emérita recompôs sua trajetória dentro da USP, falando como era a Faculdade quando ingressou como aluna, em 1956, recordando de momentos como o da publicação de seu primeiro artigo, que teve a revisão do professor Florestan Fernandes (1920-1995); do ambiente dentro da universidade no período da ditadura militar (1964-1985), até os tempos atuais.

“Fiz o curso de Ciências Sociais como uma aplicada aluna. Assistia todas as aulas, lia o possível e aproveitava todas as oportunidades de pesquisa que o curso não dava”, lembrou, referindo-se aos trabalhos de campo que realizava com os professores.

Ela contou que começou a pesquisar sobre a mulher e a questão de gênero, um assunto que não tinha muita pesquisa e não era muito estudado, quando apresentou um projeto à recém criada Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) para investigar a situação da mulher em três cenários e conseguiu a primeira bolsa na área de gênero dada pela instituição.
    
Por causa dos temas de suas pesquisas, muitas vezes teve cursos que geraram reações contrárias ou não tiveram inscritos. Cenário que hoje é diferente, no qual é preciso limitar o número de alunos participantes em função do espaço das salas de aula. Segundo ela, as reações eram devido ao conservadorismo da academia, que era maior do que o da sociedade. Pois, em plena ditadura, era procurada por jovens e mulheres ligadas ao sindicato dos metalúrgicos para falar em igrejas, clubes de mães sobre a questão dos direitos das mulheres. “Se a academia era refratária, da sociedade partiam demandas feministas que a pesquisa acadêmica dispunha”.

Eva também lembrou dos seis meses que trabalhou na Organização das Nações Unidas (ONU), dos dois anos e meio do mandato de senadora, do período de um ano na École des Hautes Études em Sciences Sociales, na França, para fazer seu pós-doutorado, únicas ocasiões que interrompeu sua carreira na USP.

Além da questão de gênero, a professora possui outras linhas de pesquisa. Entre elas, está a imigração judaica, que desenvolveu entre um trabalho e outro para buscar suas raízes por ser oriunda de família judaica. E, em momentos de questões imigratórias e resistência aos imigrantes, Eva acredita que o conhecimento obtido sobre a história dos judeus no Brasil é necessário não só para ela, mas para entender a importância de acolher os imigrantes no contexto atual.

“O Brasil foi o destino de muitos judeus antes, durante e depois da segunda guerra. Não se pode esquecer que atualmente há milhares de brasileiros que são imigrantes em outras terras”, recordou a professora.

Aposentada desde 2007, mas ainda atuante como professora sênior, Eva fez a pergunta “quando nossa vida intelectual e acadêmica se encerra?”, para logo depois dizer que não sabe responder “pois no momento me empenho em colaborar com a construção de uma nova cultura junto à USP e por consequência junto à sociedade. Uma cultura de igualdade de gênero, sem violência, em que as mulheres possam viver em paz, em que qualquer que seja o grupo étnico, religioso, de gênero, possa viver sem discriminação”.
 

Eva Blay e o diploma de professora emérita da FFLCH
Eva Blay é a segunda mulher a receber o título de professora emérita do Departamento de Sociologia da FFLCH - Foto: Victoria Golfetti - STI/FFLCH


Encerrando sua fala, ela reforçou a importância dos estudos de gênero que, segundo ela, é temido pelo desconhecimento do seu significado e pelo retrocesso vivido no Brasil. “Gênero é sinônimo de democracia, de liberdade e é por isso que não podemos deixar ele ser excluído dos cursos e das escolas”, finalizou.

Aula

Após a fala de Eva, o reitor da USP Vahan Agopyan agradeceu a aula que a professora deu sobre gênero e outros assuntos, ao contar sua trajetória de vida e pesquisas. “A aula justifica a sua escolha pela Faculdade para ser professora emérita”. O dirigente aproveitou para agradecer a docente pela coordenação do Escritório USP Mulheres-ONU. “Eu não esperava que estaríamos em uma situação [do país] pior do que antigamente. [Por isso,] estamos na luta contínua dos direitos humanos, no qual o seu trabalho continua extremamente necessário”, afirmou

Para finalizar, o reitor disse que seria importante a USP realizar mais cerimônias como essa, que valorizam os membros da comunidade, porque “o que faz a Universidade são as pessoas, que precisam ser reconhecidas”.

O evento foi prestigiado por professores eméritos da Faculdade, como José Jobson de Andrade Arruda; dirigentes da USP, entre eles a diretora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF), Primavera Borelli; o diretor da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ), José Antonio Visintin; entre outros.