FFLCH debate ameaças ao conhecimento histórico

Durante evento, temas históricos que foram colocados na berlinda nos últimos tempos no Brasil e no mundo serão debatidos: inquisição, escravização de africanos, genocídio indígena na época colonial, holocausto, golpe de Estado e regime militar
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Eliete Viana
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A forma que os acontecimentos históricos são registrados nos livros didáticos e depois ensinados nas escolas, por exemplo, podem ser mudados de acordo com a época ou a ideologia em vigor? Esses questionamento serão debatidos no evento acadêmico Negacionismos e Revisionismos: o conhecimento histórico sob ameaça, de 7 a 9 de maio, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Durante o evento, serão realizadas discussões sobre temas históricos que foram colocados em debate nos últimos tempos no Brasil: inquisição, escravização de africanos, genocídio indígena na época colonial, holocausto, golpe de Estado e regime militar. As discussões apresentadas são baseadas em pesquisas, feitas não somente na própria FFLCH e/ou outras universidades brasileiras, mas também no exterior.

“O crescimento da polarização no debate político-eleitoral brasileiro colocou o conhecimento histórico no epicentro da agenda nacional. Territórios e temas onde havia certo consenso entre historiadores acadêmicos e amplos setores da sociedade civil, em que pesem as interpretações variadas e debates inerentes à pesquisa científica, foram colocados em xeque”, ressalta a organização do evento, formada pelos professores Mary Junqueira e Marcos Napolitano, do Departamento de História e do Programa de Pós-Graduação em História Social da Faculdade.

Além de Mary e Napolitano, o evento terá a participação de mais oito docentes do Departamento de História da FFLCH USP, e dois de outras instituições: Luiz Felipe de Alencastro e de Flavio Thales Ribeiro Francisco, respectivamente da Faculdade Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) e da Universidade Federal do ABC (UFABC).

Debate público

Os docentes organizadores abrem o evento com a mesa intitulada Negacionismos e Revisionismos como desafios ao conhecimento histórico. “A ideia é fazer um panorama crítico dos vários "negacionismos" históricos que têm surgido no debate público, bem como discutir os vários "revisionismos", desde aqueles que fazem o conhecimento avançar à luz de novas fontes e problemas, às revisões que são pautadas por objetivos puramente ideológicos”, explica o professor Marcos Napolitano.

Após a mesa de abertura, acontece a conferência Holocausto: a negação da história e da memória, que será ministrada pela professora Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) do Departamento de História.

No segundo dia, 8 de maio, o Revisionismo e História Indígena são abordados no debate entre os docentes Pedro Puntoni e Antonia Terra, na mesa 1. Na mesma data, Negacionismos nos campos da escravidão e da história africana são abordados por Luiz Felipe de Alencastro, Marina Mello e Souza e Maria Helena Machado.

No terceiro e último dia dos debates, 9 de maio, acontecem três mesas, que vão do início da tarde até à noite. A primeira do dia, às 14h, será sobre Identidades políticas contemporâneas: questionamento de conquistas, agendas políticas e desafios historiográficos; com a participação de Stella Franco e Flavio Thales Ribeiro Francisco.

Batalha das memórias

Mais tarde, às 16h30, é a vez dos debates sobre Negacionismos no contexto ocidental: o questionamento dos estudos da inquisição e o ‘blacklash’ – uma reação da direita – nos Estados Unidos, com a participação de Iris Kantor e Mary Junqueira.

E, finalizando o evento, a mesa A batalha das memórias e o negacionismo das ditaduras e regimes militares na América Latina, com Maria Helena Capelato e Marcos Napolitano.

A temática sobre regime militar no país está muito em pauta neste ano de 2019, principalmente após duas notícias: que o presidente Jair Bolsonaro orientou os quartéis a comemorarem no dia 31 de março a “data histórica” do aniversário do golpe militar e que o então ministro da Educação, Ricardo Vélez – demitido em 8 de abril –, declarou que queria mudar os livros didáticos para revisar a maneira como eles tratam a ditadura militar e o golpe de 1964.

“Em escala inédita, a sociedade brasileira está conhecendo os efeitos do que se convencionou chamar de “negacionismo histórico”, que poderia ser definido como a negação não apenas de interpretações dominantes sobre o passado, mas a negação do próprio fato/processo histórico que as gerou (como a negação da existência do Holocausto, por exemplo), por razões puramente ideológicas, frequentemente marcadas por preconceito e racismo”, destaca a organização do evento.

Porém, a professora Mary ressalta que o tema extrapola o Brasil, por isso a importância de se discutir o assunto. “São fenômenos que estão fortes no Brasil, mas não é exclusivo do nosso país. O evento será uma oportunidade de discutir na nossa Faculdade esses negacionismos históricos que estão acontecendo no Brasil e no Ocidente, em geral”, declara.

Clique aqui para conferir a programação completa do evento. 

A participação no evento é gratuita e aberta ao público em geral, sem necessidade de realizar inscrição prévia. Todas as atividades, mesa e conferência de abertura, assim como as mesas de debate, acontecerão no Auditório Nicolau Sevcenko do Edifício Eurípedes Simões de Paula (também conhecido por Prédio de Geografia e História), localizado na Av. Professor Lineu Prestes, 338 – Cidade Universitária, São Paulo.

Mais informações pelo telefone: (11)3091-0298 ou por e-mail: maryjunq@usp.br.