Nascimento de Pepetela

Autor mistura história e ficção em suas obras

Por
Larissa Gomes
Data de Publicação

Pepetela com fundo abstrato atrás
A obra de Pepetela demonstra a sua força e o seu vigor ao sintetizar, de forma crítica, os rumos adotados pela sociedade angolana nos anos após a independência. (Arte por Larissa Gomes e Renan Braz)

Pepetela, autor de Mayombe, nasceu em 29 de outubro de 1941. Suas obras possuem caráter histórico e são resultados de experiências pessoais do próprio autor, que lutou no movimento da libertação anticolonial angolana durante a juventude. Além disso, algumas de suas obras possuem referências à literatura brasileira, devido ao passado colonial que envolvem Angola e Brasil.

Para conhecer mais sobre Pepetela, confira a entrevista com Rejane Vecchia, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP na área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Fernanda Sampaio Gomes dos Santos, mestranda em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa na FFLCH.

Serviço de Comunicação Social: Poderia nos falar um pouco mais sobre Pepetela e as principais características das suas obras?

Rejane Vecchia: Pepetela é o pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nascido em 1941 em Benguela, província localizada no oeste de Angola. Durante a sua juventude, presenciou a consolidação política dos movimentos pela libertação nacional, filiando-se, em 1963, ao Movimento Pela Libertação de Angola (MPLA). Nove anos depois, publicou o seu primeiro romance, As aventuras de Ngunga, tendo como base algumas das discussões movimentadas pelo partido em questão.

Foi o primeiro escritor angolano a receber o Prêmio Camões, em 1997. Sua obra em prosa reflete sobre algumas tensões e contradições existentes na sociedade angolana em diferentes momentos da história do país, tendo conseguido, assim, construir um mosaico de vozes, por intermédio de suas personagens, que se mobilizam, sobretudo, em torno de questões sociais, políticas e econômicas. Entre elas, é importante destacar a perspectiva crítica em relação ao capitalismo predatório, a perpetuação da vulnerabilidade econômica entre grupos étnico-linguísticos minoritários, as dissidências entre partidos políticos que não estavam ideologicamente alinhados após a guerra de independência (1961–1975), debate que emerge, por exemplo, no romance Mayombe e, por fim, a guerra que se estende entre 1975, com alguns intervalos, até 2002. 

A partir do contexto histórico angolano, é tema recorrente e fundamental para o autor o colonialismo português e como ocorreram as confrontações a ele ao longo das décadas de sua estrutura política e econômica em Angola. Desse modo, seus romances traçam um panorama histórico-social que permite aos seus leitores perceberem a sociedade angolana desde um retrato crítico de si mesma como uma forma de repensar, principalmente, as medidas que foram adotadas no país após a independência política de Portugal.

Serviço de Comunicação Social:  De que forma sua obra pode ser estudada pelo público brasileiro?

Rejane Vecchia: A circulação da obra de Pepetela no Brasil foi ampliada nos últimos anos, principalmente, pela inclusão do romance Mayombe no vestibular da Fuvest. Além de ter sido um dos primeiros escritores do continente africano a ser referenciado em uma lista de vestibular do Brasil, o escritor também era na época o único escritor contemporâneo presente na lista. Em 2019, quando esteve no Brasil, o escritor participou de um encontro com professores e estudantes na Biblioteca Padre José de Anchieta, em Perus, na região noroeste de São Paulo. Vale dizer que ocasiões como essas em que os jovens leitores podem dialogar com escritores oriundos de outros continentes possibilitam, sem dúvida, uma atenção e uma percepção mais apurada dos conteúdos estudados por eles nas escolas.

Por outro lado, o próprio escritor é declaradamente um leitor assíduo da literatura brasileira e trouxe para a sua obra em prosa, algumas vezes, referências retiradas não só da produção literária brasileira, mas também de produções culturais do Brasil. Dessa forma, foi estabelecendo uma interlocução profícua e sistemática entre a literatura e as condições materiais da vida nesses dois países a partir de classes sociais que compõem a base da pirâmide social. Vale destacar, por exemplo, a confluência entre as narrativas de Capitães da Areia (1937), de Jorge Amado, e Se o passado não tivesse asas (2016). Também, por intermédio de temas e questões, muitos outros livros conversam entre si, uma vez que conjunturas históricas como a angolana e a brasileira, países cujas populações tiveram que lidar com a intervenção colonialista em diferentes momentos de suas histórias, ainda enfrentam os resultados históricos dos rumos que tais intervenções acionaram para suas respectivas sociedades como é o caso, por exemplo, da desigualdade econômica, do racismo e da exclusão social.

Serviço de Comunicação Social: Quanto de história e ficção se misturam em sua obra?

Rejane Vecchia: A escrita da História pode ser considerada como aquela percepção de conjunturas sociais que se organizam em torno de fontes e fatos. A possibilidade de interpretar esses fatos por meio das palavras é o que a História e a Literatura compartilham entre si. Nesse ponto, a obra de Pepetela pode ser aproximada da História, pois nasce de uma experiência pessoal, que é a da guerra de libertação colonial. No entanto, a Literatura apresenta um outro caminho, que é o da imaginação. Após a independência, houve a necessidade de elaborar um projeto político para o novo país, que de algum modo pudesse nortear a formação de uma ideia de nação angolana. Nesse aspecto, a obra de Pepetela demonstra a sua força e o seu vigor ao sintetizar de forma crítica os rumos adotados pela sociedade angolana nos anos após a independência.

Serviço de Comunicação Social: É possível encontrar alter egos do autor em alguns dos personagens dos livros?

Rejane Vecchia: Se levarmos em consideração o conceito de autor implícito, isto é, a perspectiva ou o “caráter autoral” que pode ser deduzido na obra como um todo, é possível supor que existam algumas correspondências entre a trajetória autobiográfica do escritor e alguns personagens presentes em seus textos. Muitos pesquisadores apontam Aníbal, de A Geração da Utopia (1992), como um alter ego autoral. Esse procedimento é recorrente na literatura de Angola. Nesse sentido, vale citar, especialmente, outro escritor angolano, José Luandino Vieira, que também escreveu a partir da experiência que acumulou no período em que viveu como um preso político do regime salazarista, após a sua participação nos movimentos de libertação nacional. É o que consideramos como a autonomia relativa da literatura uma vez que escritores e escritoras produzem suas respectivas obras a partir de um dado contexto dentro do qual existem e a partir de onde emergem suas produções literárias. 

Rejane Vecchia é professora da FFLCH-USP na área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Possui graduação em História, mestrado e doutorado em Letras pela mesma instituição. Atualmente, exerce o cargo de diretora do Centro de Estudos das Literaturas e Culturas de Língua Portuguesa, é vice-coordenadora do Núcleo de Apoio à Pesquisa Brasil-África: Novos Horizontes e vice-diretora do Centro de Estudos Africano. Possui experiência na área de Letras, com ênfase nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa e Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa, atuando principalmente nos seguintes temas: literatura, história, cultura, sociedade e utopia concreta.

Fernanda Sampaio Gomes dos Santos Bacharela é licenciada em Letras pela FFLCH-USP (2019) com período de mobilidade internacional na Universidade Jean Piaget de Cabo Verde. Atualmente, é mestranda em Estudos Comparados de Literaturas de Línguas Portuguesa (USP), com bolsa CNPq.