O IBGE divulgou no dia 1º de julho dados da Pesquisa Especial sobre as Enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul (PEERS) e revelou que 88% dos domicílios registraram algum tipo de ocorrência relacionada às enchentes daquele ano. As estimativas indicam que havia 6.333.727 moradores nas regiões afetadas, com um total de domicílios estimados em 2.328.093. Dentre os domicílios entrevistados entre 15 de setembro de 2025 e 27 de fevereiro de 2026, 68,7% relataram impactos em seu bairro ou nas ruas e rodovias próximas, enquanto 55,5% dos entrevistados relataram danos nas estruturas de suas casas. Foram relatadas interrupções em serviços básicos, como água e energia elétrica, em 66,3% das residências.
Augusto José Pereira Filho, professor do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP, explica que as razões para as chuvas de 2024 terem sido tão intensas no Rio Grande do Sul possuem relação com o El Niño, que consiste no aquecimento das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial e no aumento da precipitação profunda de nuvens, podendo chegar à 20 quilômetros de profundidade na área.
“É importante lembrar que tratou-se de um período de El Niño, esses episódios de enchente começaram no fim do inverno e início da primavera de 2023, se intensificando no período de abril a maio de 2024, quando houve um aumento do volume das águas, em razão dessa condição naquele momento. Esse ar que sobe no Pacífico, ele eventualmente descende sobre a Amazônia, o que faz com que a atmosfera afunde, haja maior estabilidade e, portanto, não forme nuvens. Dado que o Oceano Atlântico naquele período estava com temperaturas mais baixas, houve um escoamento menor de vapor d’água oceânica para a Amazônia.”
“Essa combinação de efeitos que causaram o sobreaquecimento da Amazônia — que não é em virtude do aquecimento global, mas sim dessa condição de menos nuvens — fizeram com que houvesse uma evapotranspiração gigantesca. A circulação de alta pressão, que traz umidade da Amazônia aqui para o Sul e Sudeste, fez com que houvesse uma canalização dessa quantidade gigantesca de evaporação em baixos níveis sobre o grande Sul, isso foi o que causou essa chuva de 400% a mais do que normalmente ocorre na primavera e no outono”, explica Pereira Filho.
Os impactos das enchentes em famílias vulneráveis
De acordo com o IBGE, 11,7% das moradias impactadas pelas enchentes foram classificadas como destruídas ou muito danificadas, com a mudança de endereço atingindo 14,6% dos moradores afetados. Interrupções na vida social e no convívio com amigos e familiares foram relatadas por 58,4%, enquanto 57,3% relataram dificuldades para se deslocar para o trabalho, escola ou creche; 66,8% dos moradores estavam na faixa de até R$ 5 mil mensais.
Wagner Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, reforça como as populações mais vulneráveis estão sujeitas aos maiores impactos das mudanças climáticas. “Os dados do IBGE indicam claramente que o Brasil é um dos países mais afetados pelas mudanças climáticas. A vulnerabilidade social no País é bastante elevada, nós temos, não apenas nas eras urbanas, mas principalmente nelas, populações que vivem em condições vulneráveis, sujeitas aos efeitos de chuvas intensas, como, por exemplo, o escorregamento de vertentes, alagamentos, enchentes e outras questões.”
Ribeiro explica que, mesmo com os eventos climáticos extremos, algumas populações não possuem o privilégio de poder se mudar para outros lugares. “O primeiro ponto a entender é que essas pessoas não têm escolha, elas não foram morar lá porque elas quiseram. Foi o que era possível construir de edificação, de moradia, dada a sua fragilidade social. Nós temos que começar a discutir — e isso não é uma tarefa simples, mas é urgente — como vamos adequar essas famílias a condições mais preparadas para enfrentar esses eventos que serão cada vez mais recorrentes. Área de alagamento, em termos de definição, é justamente uma área de expansão natural do rio, não deveria ter gente vivendo em bases, pelo menos não nessa escala. É necessário que o Estado tome ações mais diretas de oferecer alternativas mais adequadas para evitar que todo ano você tenha prejuízos materiais, quando não, infelizmente, mais.”
Como o Brasil deve se preparar para esses eventos?
Pereira Filho reforça a importância de investir em tecnologias que permitam uma previsão do tempo mais à frente e em infraestrutura para suportar os impactos climáticos. “Os modelos mais avançados têm um horizonte de previsão em até 15 dias, por exemplo. Eles podem dar uma orientação para a defesa civil, que precisa estar bem informada dessas condições e a partir daí haver um planejamento do governo, tanto federal como estadual, para mitigar o evento. Não dá para reduzir as perdas de vida e materiais a zero, em qualquer lugar do mundo você tem sempre vítimas, mas é possível reduzir os números. Há também ações estruturais, e foram essas que acabaram causando muito problema lá no Rio Grande do Sul. Barragens e sistemas de escoamento da água pelo rio precisam de manutenção, visto que se trata de uma modificação do ambiente pelo homem. Lá no Rio Grande do Sul, nessa época, as estruturas hidráulicas falharam, e isso resultou num aumento das perdas, feito do excesso de águas para o Rio Grande do Sul.”
De acordo com Ribeiro, são necessárias políticas públicas que discutam a “cultura do risco” e que levem em consideração os laços dessas populações. “É urgente elaborar uma política pública que mobilize a escala municipal, mas também a escala estadual e a escala federal e até apoio internacional, porque a tarefa é muito grande. Não é simples você, de uma hora a outra, oferecer uma alternativa de moradia para uma pessoa. Especialmente porque quem mora em uma comunidade está acostumado com laços não só de parentescos, mas também de vizinhança, que implicam solidariedade e relações de compadrio. Remover essas pessoas desses lugares faria com que esses laços fossem perdidos, o que não é adequado. A dificuldade passa a ser você conseguir transferir uma comunidade inteira para outra área, em conjunto, sem desmembrar.”
“Um aspecto que não está presente no Brasil é a cultura do risco. Nós não temos uma capacitação e um preparo da população para saber o que fazer quando um evento extremo ocorre e as suas consequências. Onde ela deve se dirigir? Que tipo de equipamento ela deve ter em casa? Como ela deve guardar seus documentos? Que tipo de mantimentos ela deve ter em casa para uma situação mais extrema? Se ocorrer um evento extremo, ela saberia exatamente onde vão estar seus familiares, para onde ela deve se dirigir? A partir de um sistema de alerta, nós podemos avisar as pessoas para que elas se antecipem e saiam das áreas de risco. Isso evitaria, pelo menos, algumas mortes. É algo que nós deveríamos insistir no Brasil. Trabalhar na perspectiva da cultura do risco, propondo e capacitando, realizando-se situações de treinamento para situações de emergência no Brasil”, finaliza Ribeiro.
Reportagem de Gabriel Albuquerque sob supervisão de Cinderela Caldeira: https://jornal.usp.br/atualidades/ibge-aponta-que-55-milhoes-de-pessoas-no-rs-sofreram-impactos-causados-pelas-enchentes/