Aproximação histórica entre Estados Unidos e Cuba

Retomada dos laços diplomáticos entre EUA e Cuba: uma oportunidade (perdida) para o diálogo e a negociação

Por
Thais Morimoto
Data de Publicação

Barack Obama e Raúl Castro
“A aproximação foi muito importante para ambas as nações, além de demonstrar a importância do diálogo e negociação para o desenvolvimento de relações entre os países”, afirma Marcos Antonio da Silva

No dia 17 de dezembro de 2014, o presidente dos Estados Unidos Barack Obama anunciou um novo capítulo nas relações entre o país e Cuba, com o restabelecimento das relações diplomáticas. Mas como isso ocorreu? Qual é a importância desse passo que foi dado? E como era a relação dos países para que o anúncio mudasse o cenário da geopolítica mundial? 

Veja os detalhes dessa aproximação histórica em nossa entrevista com Marcos Antonio da Silva, professor da área de Ciências Sociais e doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina da USP.

Serviço de Comunicação Social: Como ocorreu a aproximação histórica entre Estados Unidos e Cuba, que começou em 2014, e como está hoje?
Marcos Antonio da Silva: A aproximação foi resultado de uma convergência política, derivada de motivações distintas de cada parte. Do lado estadunidense, sob Barack Obama, tratava-se de recuperar a histórica posição hegemônica do país na região e eliminar focos de resistência (razões geopolíticas), de possibilitar o acesso ao mercado cubano e impulsionar sua atuação econômica na região (diante da ascensão da China) e de construir um legado visando a projeção internacional e as eleições internas nos EUA. Além disto, a constatação de que tal política retratava a lógica da Guerra Fria, e se constitua numa política arraigada e sem efeitos, impulsionando um aggiornamento da agenda estadunidense para Cuba e a região, como reconheceu Obama em sua visita a Cuba (2016): “Pero todavía muchas personas preguntan: ¿Por qué ahora? ¿Y por qué ahora? Y hay una simple respuesta: Lo que estaba haciendo Estados Unidos no funcionaba. Tenemos que tener la valentía de reconocer la verdad: una política de aislamiento diseñada para la guerra fría no tiene sentido en el siglo 21, el embargo hería a los cubanos en vez de ayudarlos”

No caso cubano, tal reaproximação alicerçada na política de atualização do modelo, promovida por Raúl Castro, indicava o desejo de consolidar sua reinserção regional, de buscar acesso a capitais e mercados, que poderiam ajudar sua recuperação econômica e contribuir para o fim do embargo norte-americano, e de demonstrar a viabilidade de uma política mais pragmática em relação ao conflito com EUA e conduzida por Raúl Castro que impulsionava novas estratégias e parcerias internacionais. 

O processo, conduzido inicialmente em sigilo, contou com a mediação da Igreja Católica e do governo canadense, sendo conduzido por representantes de confiança de B. Obama e Raúl Castro, resultando no histórico anúncio da retomada dos laços diplomáticos em 2014.  

Serviço de Comunicação Social: Qual é a importância dessa aproximação para os dois países e para a geopolítica mundial?
Marcos Antonio da Silva: Como mencionamos, tal aproximação foi muito importante para ambas as nações, além de demonstrar a importância do diálogo e negociação para o desenvolvimento de relações entre os países. Neste sentido, para os EUA significaram a possibilidade de recomposição de sua hegemonia regional, diante da ascensão de outras potências, de uma projeção positiva de sua imagem internacional, desgastada por conflitos ou guerras, e a possibilidade de acessar o mercado cubano. Para Cuba, significou a possibilidade de normalização de relações com a principal potência do planeta, de superação do embargo estadunidense e de consolidação de seu processo de reinserção regional. Desta forma, para ambos tal processo poderia significar, finalmente, a superação da lógica da guerra fria, marcada pelo conflito e distanciamento, que havia caracterizado as relações desde a década de 60. No que se refere a geopolítica mundial, tal reaproximação reposicionava as relações entre potências globais (EUA, Rússia e China) e o desenvolvimento de seus interesses na região.   

Serviço de Comunicação Social: O que essa aproximação histórica diz sobre a política dos dois países na época?
Marcos Antonio da Silva: Tal processo revela muito da dinâmica política de cada país naquele momento. No caso estadunidense se aproximava o final do segundo mandato de B. Obama que, apesar de políticas interessantes no âmbito doméstico, ainda não conseguira realizar algo relevante no plano internacional, portanto a aproximação com Cuba poderia oferecer um legado internacional relevante e contribuir para a aproximação de seu partido com o eleitorado hispânico nos EUA, visando as eleições de seu sucessor. Para Cuba, significava a afirmação da liderança de Raúl Castro e de sua política, denominada de processo de atualização do modelo, que procurava combinar o legado revolucionário com um pragmatismo adaptado ao novo contexto internacional, implantando mudanças econômicas e transformações políticas no âmbito doméstico e promovendo a reinserção internacional do país, o que também poderia oferecer sinais evidentes e positivos a sua sucessão já anunciada e a nova liderança cubana emergente. 

Serviço de Comunicação Social:  Como era a relação dos dois países antes da aproximação histórica?
Marcos Antonio da Silva: A relação entre os países, à sombra da Doutrina Monroe dos EUA para a América Latina, sempre foi controversa e conflitiva, desde o século 19, em boa parte devido às políticas estadunidenses para a região marcadas pela intervenção e ingerência em assuntos nacionais que se tornaram evidentes ao longo do século 20 com o apoio, por exemplo, a inúmeros ditadores ou ditaduras militares em nome da contenção da expansão do comunismo na região. Tal política torna-se mais conflitiva com a Revolução Cubana (que completará 65 anos em 2024) e suas medidas de nacionalização e socialização dos bens e serviços, o que afetou profundamente os interesses e negócios estadunidenses na ilha. Além disto, a aproximação e a aliança entre Cuba e a antiga URSS, principal rival norte-americano, conduziram a uma política de embargo econômico e isolamento diplomático que afetou as relações de Cuba com os EUA e boa parte da América Latina ao longo da segunda metade do século passado. Embora tenham ocorrido tentativas de reaproximação, nos anos 70 e 90 especialmente, estas foram frustradas por diversas razões, de parte a parte, que continuaram impulsionando a lógica da Guerra Fria, de isolamento e conflito. Com o processo de reaproximação, conduzido por Obama e Raúl Castro, imaginava-se que o diálogo e a negociação poderiam orientar a relação entre os países, no entanto, a ascensão de Trump nos EUA, com uma política populista e conservadora, impediu a continuidade de tal dinâmica, provocando o retorno da lógica da guerra fria nesta relação. Desta forma, Trump revisou, de forma unilateral, todas as políticas desenvolvidas por Obama, promovendo a ruptura dos laços diplomáticos e aprofundando o embargo econômico, apesar das reiteradas condenações da ONU e de boa parte da comunidade internacional, provocando sérios danos à frágil economia cubana. Neste momento, a administração de Biden tem revisado inúmeras destas políticas, porém sem a coragem e a audácia de Obama, num processo que tem sido lento e incipiente, mas que demonstra, outra vez, que é preciso superar a lógica da guerra fria nas relações entre as nações.  

Marcos Antonio da Silva possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Paraná (1997), Mestrado em Sociologia Política pela Universidade Federal do Paraná (2002), Doutorado em estudos sobre Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (PROLAM/USP) (2006) e Pós-Doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) (2017). É professor associado da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), atuando no curso de Ciências Sociais e no Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS), além de ter chefiado o Escritório de Assuntos Internacionais (ESAI). É autor de trabalhos em periódicos nacionais e internacionais de Argentina, Chile, Colômbia, Cuba, Nicarágua, México, Uruguai, EUA, Inglaterra, Espanha, Rússia, Polônia e Tunísia. Tem experiência na área de Ciência Política e Relações Internacionais atuando sobre os seguintes temas: Partidos Políticos, Eleições, Reforma e Conjuntura Política, Migrações Internacionais e América Latina (Revolução Cubana, MERCOSUL e Pensamento Latino-Americano).