Preconceito contra população nordestina descredibiliza sua participação política

Pesquisa da USP analisou nove eleições presidenciais e mostrou que jornais paulistas frequentemente associam a região nordestina a atraso, seca e baixa instrução, reforçando estigmas históricos
Por
Gabriela César
Data de Publicação
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Imagem: Wikipedia / Reprodução

Durante períodos eleitorais, o Nordeste frequentemente volta ao centro do debate político acompanhado de estereótipos sobre sua população. Uma tese de doutorado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP demonstrou que parte da imprensa tradicional paulista associa a região a imagens de atraso e irracionalidade política. Segundo Marina Chaves de Macedo Rego, autora da pesquisa, essas representações não apenas reforçam preconceitos históricos, mas também deslegitimam o exercício político de grande parcela das populações nordestinas.

Marina estudou as últimas nove eleições presidenciais do Brasil, de 1989 a 2022, a partir da análise dos jornais Diário de Pernambuco, Estadão e Folha de S.Paulo. A pesquisa revelou que, em 50% das vezes em que o Nordeste foi citado nos dois últimos veículos, ele foi associado a algum atributo de estigma, como seca e falta de instrução. Ela afirma que, a cada cinco vezes que o Nordeste é citado, uma traz um estereótipo negativo mais forte.

A socióloga também concluiu que, independentemente dos resultados eleitorais, o nordestino permanece sendo retratado como menos racional politicamente, muitas vezes sendo considerado apenas como responsável por votos amparados em políticas de distribuição de renda ou de assistência social. Das 1.080 notícias analisadas por Marina que mencionam o Nordeste, 69% relacionam a região ao Partido dos Trabalhadores (PT) — o que comumente é feito de forma depreciativa.

“Mesmo quando o Nordeste não votava majoritariamente no PT, por exemplo, já se tentava associar o Nordeste ao PT. Em 1989, por exemplo, o Lula não ganhou no Nordeste, mas venceu as eleições no Rio de Janeiro e no Rio Grande do Sul, quase ganhando em São Paulo.” Ainda assim, segundo Marina, uma parcela tradicional da imprensa paulista continuou a tratar o Nordeste como o maior eleitorado de Lula, sendo aqueles que o teriam levado ao segundo turno.

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O gráfico mostra a ocorrência de notícias do Estadão e da Folha de S.Paulo que associam o Nordeste a algum atributo de estigma em cada período eleitoral / Fonte: Gráfico 6 da tese de doutorado de Marina

O resultado mostra que rotular uma prática política como "nordestina" permite que ela seja inferiorizada e deslegitimada. Para Marina, essa foi a principal estratégia para que o impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), em 2016, progredisse. A ideia amplamente disseminada na época foi que Dilma só ganhou a eleição presidencial de 2014 porque o Nordeste votou massivamente nela. “Simbolizar um exercício político como nordestino é capaz de diminuir esse exercício político, de tentar deslegitima-lo em movimentos conservadores. E isso foi possível em âmbito nacional quando houve um golpe institucional em 2016, por exemplo”, ressalta.

 

“Quando tentamos hierarquizar grupos humanos, temos ali os piores elementos que formam um reacionarismo que tem ganhado força no contexto recente.”
— Marina Rego

Como o preconceito contra o Nordeste surgiu?

Os estereótipos sobre o Nordeste começaram a crescer com a decadência da economia açucareira e a ascensão do mercado cafeeiro no Sudeste brasileiro, no fim do século 19. A partir deste momento, a concentração de renda do Brasil saiu do Nordeste para o Sudeste, principalmente São Paulo, que passou a ascender também como uma nova metrópole de industrialização e de chegada de imigrantes europeus brancos. Marina ressalta que houve uma política institucional do Estado brasileiro de tentar embranquecer a população por meio do estímulo à vinda de europeus brancos para as regiões que estavam se industrializando.

Paralelamente, o Nordeste brasileiro permaneceu com uma população majoritariamente negra, formada em grande parte por ex-escravizados. “Nessa lógica muito perversa em que se tentava embranquecer o país, São Paulo passou a ser visto como futuro, como uma possibilidade de desenvolvimento, enquanto o Nordeste passou a ser visto como um passado que deveria ser superado”, destaca a socióloga.

As marcas dessas decisões históricas continuam vivas no cotidiano ainda hoje. Para Marina, é comum o uso da palavra “baiano”, por exemplo, como um adjetivo pejorativo vinculado a pessoas negras e indígenas, frequentemente empobrecidas. Por outro lado, quando se chama São Paulo de “locomotiva do país”, utiliza-se a premissa de superioridade do estado, referindo-se a uma parcela rica e branca da capital paulista.

Marina esclarece que não há populações superiores a outras, nem uma população paulista e nordestina que seja homogênea; todas possuem suas especificidades. A ideia de “região” é uma construção social e, a partir dela, surgiram preconceitos associados a determinados lugares, como a associação do Nordeste ao desamparo ou à seca. Essas ideias, segundo a socióloga, são fruto de construções históricas baseadas na desigualdade racial e de classe.

 

“O adjetivo regional é fundamental para a distinção racial brasileira, para esse racismo covarde que não se afirma abertamente.”
— Marina Rego


A tese de doutorado ‘CONHEÇO O MEU LUGAR’  Paulistanidade e Estigmatização Nordestina nas Eleições Presidenciais (1989 - 2022), de Marina Chaves de Macedo Rego, e orientada pelo Leonardo Gomes Mello e Silva, do Departamento de Sociologia da FFLCH, foi defendida em dezembro de 2025 no Programa de Pós-Graduação em Humanidades, Direitos e Outras Legitimidades.