Okinawanos e descendentes no Brasil mantêm língua provinciana no afetivo e familiar

Análise do primeiro folhetim da Associação Kyūyō e entrevistas com imigrantes e descendentes de okinawanos no Brasil evidenciam processos que restringiram e possibilitaram a língua
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Redação
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 190 mil japoneses chegaram ao Brasil entre 1908 e 1941, dos quais cerca de 10% eram naturais da província de Okinawa – Foto: Reprodução/Facebook/Okinawa Festival AOVC
190 mil japoneses chegaram ao Brasil entre 1908 e 1941, dos quais cerca de 10% eram naturais da província de Okinawa – Foto: Reprodução/Facebook/Okinawa Festival AOVC

 

Em 1879, o Japão anexou o antigo Reino de Ryūkyū como Província de Okinawa, empreendendo um esforço governamental, até 1945, para que os idiomas locais fossem assimilados pela considerada língua oficial da nação. Nesse processo, o povo okinawano enfrentou décadas de estigmatização e marginalização cultural. Em paralelo, após a abolição da escravatura no Brasil, em 1888, a alegada falta de mão de obra pressionava pela criação de acordos entre Brasil e Japão, apesar da preferência por imigrantes brancos e europeus. Foi nesse cenário que muitos okinawanos, em busca de ascensão socioeconômica, cruzaram o oceano trazendo consigo as línguas que o próprio Japão tentava silenciar.

Luísa Teruya – Foto: Arquivo pessoal
Luísa Teruya – Foto: Arquivo pessoal

Dos aproximadamente 190 mil japoneses que chegaram ao Brasil entre 1908 e 1941, cerca de 10% eram naturais da província de Okinawa, em busca de acumular alguma riqueza e retornar com melhores condições. Nesses processos históricos, o uchināguchi — língua do povo Okinawa — se tornou severamente ameaçado de extinção, conforme a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Em sua pesquisa na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Luísa Teruya investiga como esses eventos influenciaram a troca da língua originária pelo japonês ou pelo português.

Um conjunto de documentos foram reunidos e estudados através da análise do discurso de linha francesa, entre eles a primeira edição do boletim informativo da Associação Kyūyō (associação de imigrantes okinawanos), de 1928, e entrevistas com imigrantes e descendentes de okinawanos brasileiros. Ao se debruçar sobre esses registros, a pesquisadora notou que os jogos de poder dos discursos institucionais e públicos influenciaram na perda do uchināguchi em pelo menos uma geração. Isso ocorreu no meio de uma disputa em que a língua original permanece associada ao familiar e ao afetivo. “É sempre nesse lugar de ser a língua dos pais, dos avós, que [os entrevistados] entendiam e não conseguiam falar”, conta Luísa Teruya sobre as entrevistas que realizou. 

“As histórias foram passadas nessa língua. Os ensinamentos foram passados nela. Isso me marcou muito, porque é uma questão coletiva” – Luísa Teruya.

Para a pesquisadora, as características deste processo permitem entender o que foi construído discursivamente. Segundo ela, a história dos okinawanos no Brasil não pode ser lida apenas em termos de apagamento ou assimilação, pois é marcada por contradições próprias. “Por mais que [o uchināguchi] não seja fluente entre as gerações mais novas, hoje em dia fica nesse lugar de nossa língua da família, que nos une. Algo muito forte e muito simbólico”, explica Luísa Teruya, que é descendente de okinawanos. Ela também defende que, apesar do risco de extinção, o uchināguchi os conecta enquanto história e sua escolha de léxicos produz efeitos de pertencimento.

 

Disputas okinawanas

Os japoneses imigrantes vinham ao Brasil sob contratos de obrigação por período pré-determinado com fazendas, devido aos acordos firmados entre o País e companhias de emigração japonesa. Os okinawanos teriam que saber o japonês – ainda que não seja possível confirmar a aplicação dessa regra a todos. Eles eram aceitos com cautela, apenas devido às intermitentes ondas de imigração europeia que, conforme o pensamento da elite republicana, “melhorariam” o País racialmente. 

“Então, por exemplo, temos em 1908 a alocação dos imigrantes nas fazendas. Nessas primeiras levas, houve muitas fugas, porque as condições eram precárias e foi prometido algo que não era real”, explica a pesquisadora. “Essas [fugas] eram justificadas como ‘não, veja bem, governo brasileiro: não são os japoneses assim, são os okinawanos’”, continua.  

No início da imigração, a porcentagem dos okinawanos em comparação ao total de imigrantes japoneses é de 40,6%, de acordo com o livro 1 Século de História em Fotos – A Comunidade Okinawana no Brasil. Em 1913, a porcentagem caiu para zero. Durante essa primeira restrição, entram no País apenas okinawanos associados aos antes fixados no Brasil. Apesar das associações pré-existentes, em 1926 foi fundada a Associação Kyūyō, para reunir imigrantes okinawanos residentes em várias localidades do Brasil e como forma de organização frente às restrições. 

Propagandas dos empreendimentos de okinawanos eram comuns no boletim de Associações Okinawanas – Foto: Arquivo pessoal/Luísa Teruya
Propagandas dos empreendimentos de okinawanos eram comuns no boletim de Associações Okinawanas – Foto: Arquivo pessoal/Luísa Teruya

O boletim inaugural dessa associação, publicado em 1928, contém doze textos assinados e quadros de avisos com relatório financeiro, debates e explicações de problemas relativos à comunidade, além de propagandas dos empreendimentos de okinawanos. Para que os okinawanos sejam lidos como japoneses, ou seja, dignos das mesmas oportunidades que os demais, o boletim constrói sua posição como a oficial, incorporam para si o próprio discurso japonês. “Um artigo vai falar da busca de dinheiro, mas sem deixar de lado a moralidade. Não são textos autodepreciativos, mas nessa meta de ser um bom japonês. Mostrar-se digno, policiar-se mais do que os outros”, comenta.

É nesse conflito entre o desejo de pertencimento e a rejeição dos traços que os identificam como naturais de Okinawa que se funda a luta pela revogação das restrições. “Então, fora de casa, todo mundo fala japonês para parecer japonês; e tem quem não quer, que fala: ‘não, eu nem sei falar japonês’. Por mais que possa parecer que são pessoas contra todos esses valores, são pessoas que estão entendendo que não são menos, não falam menos. Essas pessoas também não entendem muito bem qualquer diferença entre o japonês e o uchināguchi”, diz a beletrista.

 

Pós-guerra

Posteriormente, em 1941, devido à entrada do Japão na Segunda Guerra Mundial ao lado do Eixo (Alemanha e Itália), a associação teve de fechar as portas. Mesmo antes disso, suas atividades eram investigadas pelo Departamento de Ordem Política e Social devido à lei de nacionalização do Governo Vargas e o conflito com o ensino do japonês exercido. Com a derrota do Japão na guerra, a província foi administrada militarmente por estadunidenses até o ano de 1972. Com o arquipélogo Okinawa excluído da Lei Básica da Educação de 1947, decaíram os usos políticos dentro do sistema administrativo-burocrático a favor do idioma “nacional”. 

 Comércios das comunidades okinawanas persistem como símbolo de continuidade histórica – Foto: Arquivo pessoal/Luísa Teruya
 Comércios das comunidades okinawanas persistem como símbolo de continuidade histórica – Foto: Arquivo pessoal/Luísa Teruya

O governo militar dos Estados Unidos passa a recomendar aos líderes locais o uso das línguas de Ryūkyū na educação, de modo a se desvencilhar da “identidade japonesa”. Por entenderem que defender uma identidade própria okinawana poderia prolongar a ocupação, a população decide reconstituir a educação básica sob o ensino do japonês comum. Apesar disso, surgem eventos da comunidade com discursos no intuito de promover valores ditos próprios, tanto no arquipélogo no Japão quanto no território brasileiro, influenciados pelo contexto do aumento da importância da etnicidade nos Estados Unidos e sua reformulação brasileira em direção a certo relativismo cultural.

“Tem uma entrevistada que vem no pós-guerra e vive o período escolar lá. Então o japonês é realmente uma das primeiras línguas dela. Ela não sabe [fluentemente uchināguchi] por mais que em casa ela fale. Mas ela chega aqui e é a língua, por exemplo, da família do marido”, conta a pesquisadora, exemplificando como esse passado conecta o povo provinciano.  

 

Universidade para preservar

Leiko Matsubara Morales é orientadora da pesquisa e docente no Programa de Pós-Graduação em Língua, Literatura e Cultura Japonesa da FFLCH. Para ela, a dissertação integra um movimento de conscientização que já começou na comunidade. “A universidade é um locus institucional relevante para a promoção das pesquisas, divulgação e, por conseguinte, para preservação das línguas, porque é nela que geramos e fortalecemos massa crítica sobre estudos daquelas não hegemônicas mas relevantes para a preservação da diversidade”, explica a professora.

Professora Leiko Matsubara Morales – Foto: Arquivo pessoal
Professora Leiko Matsubara Morales – Foto: Arquivo pessoal

Ela afirma que o trabalho da Luísa Teruya lança luz sobre um aspecto da diversidade do próprio japonês, pouco conhecido por conta do silenciamento, e mostra também diferentes povos do Japão que vieram para cá. “O Japonês ainda é muito pouco estudado em termos de pesquisa, por isso é importante fortalecer a pós-graduação. Temos muita coisa a fazer ainda”, continua. Ela ressalta que a interlocução dos resultados encontrados com o Japão pode promover ações como criação de cursos universitários com o objetivo de revitalização das línguas apagadas das comunidades minorizadas, como as de Okinawa e Ainu.

 “Por outro lado, o governo brasileiro também não fica isento, pois poderia e deveria considerar o fortalecimento do japonês no contexto de imigrantes”, afirma. Hoje, essas línguas são estudadas como herança, estrangeira ou adicional, mas também como patrimônio linguístico nacional brasileiro, ao devido fortalecimento dos cursos de letras, de acordo com a docente.

A dissertação A Imigração Okinawana no Brasil Pré-Guerra (1908-1941): Língua, Discurso e Memória foi defendida em novembro de 2025 na FFLCH e ficará disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP após conclusão da revisão.

Mais informações: yttluisa@usp.br, com Luísa Teruya

Texto de Jean Silva, estagiário sob orientação de Luiza Caires, publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/ciencias/okinawanos-e-descendentes-no-brasil-mantem-lingua-provinciana-no-afetivo-e-familiar/