Na próxima quarta-feira, dia 8 de abril, às 18 horas, a livraria e cafeteria Casa Marx, na zona oeste de São Paulo, abrirá suas portas para a inauguração da instalação cinematográfica Rosto de Mulher. O projeto audiovisual resgata a memória e a potência das lutas encabeçadas pelas trabalhadoras terceirizadas da limpeza da USP durante os anos de 2005 e 2011.
O trabalho propõe um diálogo entre a denúncia política e a experimentação estética. A partir de uma linguagem imersiva, a obra escancara como a terceirização atinge severamente e de forma desproporcional o corpo e a vida das mulheres, em especial das mulheres negras. A visitação é gratuita e se estenderá até o dia 23 de abril.
Rosto de Mulher transita entre a videoarte e o documentário experimental, constituindo um circuito fechado de seis telas simultâneas rodando em looping por cerca de 10 minutos. O projeto tem direção de Rafael Barros e Pedro Calderan, formados em Rádio e TV pela Faculdade Cásper Líbero, e é inspirado no livro A precarização tem rosto de mulher. A obra literária é de autoria de Diana Assunção, historiadora, mestranda na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e ex-diretora do Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp).
Diana resume o impacto prático do formato no público: “Essa instalação cinematográfica não é um filme, é uma experiência. É como se a gente fosse teletransportado para as greves, se sentir dentro daquele ambiente, daquele momento de luta”.
A configuração força a ruptura com a passividade do espectador, que precisa andar e navegar pelo espaço expositivo para ir juntando os fragmentos narrativos através de imagens, sons e luzes.
“O foco nas paralisações de 2005 e 2011 representa marcos na luta contra a subcontratação no Brasil”, afirma a autora, que expõe as motivações e as vitórias paliativas desses movimentos, revelando um cenário de extrema precarização que contrastava com a excelência acadêmica da USP.
O estopim para a paralisação de 2005 foi o desrespeito sistemático, dizem os diretores. As pautas envolviam falta de equipamento, constantes atrasos nos pagamentos e abuso moral direto. “Em 2005 teve denúncia de que tinha encarregadas, que são as chefias das trabalhadoras, que chamavam elas de escravas, faziam coisas assim bem absurdas”, relembra Diana.
O movimento mostrou a força de uma categoria até então invisibilizada. Diante do não pagamento por parte das empresas, a resposta foi tática e direta: “Elas estavam com salários atrasados (…) e aí, como não receberam o salário, elas falaram, ‘bom, a gente vai devolver o nosso trabalho’. Elas pegaram os lixos que tinham recolhido e jogaram de volta no chão, inviabilizando o funcionamento da Universidade, mostrando que na realidade elas eram bastante essenciais”.
As trabalhadoras conquistaram o pagamento dos salários atrasados. Seis anos depois, as trabalhadoras paralisaram novamente, incluindo em suas pautas uma demanda para a efetivação das funcionárias sem a necessidade de concurso público. O movimento teve a união do Sintusp e dos estudantes, mas sem os objetivos contemplados.
“O Vão da História (prédio dos cursos de História e Geografia da FFLCH) ali totalmente tomado pelas terceirizadas, os estudantes levantando da sala de aula, deixando, falando, ‘bom, eu estou aqui estudando escravidão no curso de História, enquanto tem trabalhadoras sob condições totalmente absurdas’.”
Diana descreve o cenário atual como um “apartheid social”, apontando duas situações gritantes que continuam na pauta de reivindicações do movimento: “Até hoje as terceirizadas não têm direito ao BUSP (bilhete de ônibus da USP, que permite transporte gratuito dentro do campus do Butantã, na zona oeste de São Paulo)”. Outra crítica que Diana faz é quanto ao acesso das terceirizadas ao Restaurante Universitário. “As trabalhadoras que limpam o Bandejão não podem comer lá”, afirma.
Fragmentação para explicar a precarização
A semente da exposição foi o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) de Rafael e Pedro, que inicialmente não tinha essa configuração de arte contemporânea. “O trabalho nem sempre teve esse visual tão experimental, ele demorou um pouco até virar uma coisa meio imersiva”, revela Pedro Calderan. “O Rafael queria montar um roteiro, pensar num formato de curta, mais algumas cenas pontuais ali que o livro retrata, então ele vem de um lugar de querer mostrar essas imagens.”
A visão urbana também foi um chamariz para Pedro embarcar no TCC. “O que me apeteceu no início, essa questão que você vê hoje, é a cidade de São Paulo. E pelo fenômeno da uberização, da terceirização, você vê como a cidade tem se mutado tanto. O fenômeno dos motoboys é uma coisa clara, como isso altera o trecho da cidade. Essa é a minha primeira pegada com o trabalho. É interessante que a gente consegue ter um dispositivo de trabalho que é acerca de sistemas geopolíticos, que levaram a isso de uma maneira bem sutil.”
Os diretores decidiram que a própria estrutura da obra deveria espelhar a terceirização. A escolha de dividir o filme em várias telas foi intencional, conforme explica Rafael: “Para a gente usar de uma linguagem que pegou um termo e fragmentou ele completamente dentro de um espaço, (isso) se relacionava com aspectos que a gente queria retratar da terceirização também, ou seja, a fragmentação entre os efetivos, os terceirizados, entre os negros e os brancos”.
Para conduzir isso, o recurso auditivo tornou-se protagonista. “Foi interessante ver o trabalho montado, porque ele usa muito a parte auditiva também para contar a história, acaba ficando um ambiente bem rico”, avalia Pedro Calderan. Rafael complementa: “O som delas [trabalhadoras] está sempre por trás de tudo. Não era uma ideia de mostrar por um lugar meio de cima, mas sim a partir da voz dessas próprias terceirizadas”.
Para a direção do projeto, não adotar o “cinema tradicional” foi também um ato de reverência à postura dessas trabalhadoras frente ao sistema de trabalho. Rafael conclui de forma precisa: “A gente estava fazendo um trabalho sobre mulheres que não aceitavam as condições de trabalho que estavam colocadas para elas como um fato imutável, que não poderia ser transformado à base de luta. Então, para a gente criar essa ruptura [estética] também foi uma maneira, em algum sentido, de ser inspirado por essa história, de tentar manter, colocar para fora esse legado”.
Texto de Mariana Gaia Cazassa Festa, estagiária sob supervisão de Antonio Carlos Quinto e Silvana Salles, publicado no Jornal da USP: Resistência das trabalhadoras na USP é tema de circuito cinematográfico em São Paulo – Jornal da USP