Gabriela Vieira Uchôa Cavalcanti de Araújo
"A Megera Apaixonada: uma análise comparativa entre a peça de Shakespeare e 10 Coisas que Odeio em Você"
"Este trabalho tem como objetivo discutir semelhanças e diferenças entre as cenas finais da peça shakespeariana A Megera Domada e sua adaptação fílmica 10 Coisas que Eu Odeio em Você (1999), dirigida por Gil Junger e roteirizada por Karen McCullah Lutz e Kirsten Smith, assim como possíveis motivações e resultados. Nas cenas em questão, foram analisadas algumas mudanças nas falas dos personagens Petruchio e Katerina, o impacto que isso tem na narrativa audiovisual e o que diz sobre o contexto histórico dos produtos. Por fim, argumento se as mudanças realizadas melhor se adequam às propostas feministas feitas na época do filme, de acordo com as considerações de Whelehan (2005) sobre a segunda e a terceira onda feministas. Além disso, é importante ressaltar que compartilho da visão de Linda Hutcheon (2006) sobre adaptação como produto e como processo, considerando que adaptações são elaboradas a partir de escolhas e dispensam regras ou modelos. Esse posicionamento mostra-se necessário especialmente em casos como o do objeto trabalhado aqui, cujo objetivo dos produtores, roteiristas e diretor parece ser o de realocar o contexto histórico do enredo e, por conseguinte, alterar aspectos-chave da narrativa shakespeariana."
"Gabriela Vieira Uchôa Cavalcanti de Araújo é formada em Letras - Inglês e mestranda em Estudos Literários pelo PPGL, ambos pela UFPE e com orientação do Prof Dr Yuri Jivago Amorim Caribé, e atua como tradutora freelancer e professora de inglês. Na esfera artística, possui uma coletânea de poesia (Como Conchas na Areia, publicada pela Editora Patuá - https://www.editorapatua.com.br/como-conchas-na-areia--poemas-de-gabrie…-) e um romance (Debaixo do Guarda-chuva, disponível como ebook na Amazon - https://a.co/d/0013c3sm), além de muitos escritos que ainda pretende compartilhar com o mundo. Compartilha atualizações de todas essas facetas em seu perfil do instagram, @uchoa.gabii."
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Gabriela Almeida
Ser ou não ser Aldonza/Dulcineia: as adaptações cinematográficas Dulcinea (1962), de Vicente Escrivá e Don Quijote cabalga de nuevo (1973), de Roberto Gavaldón
Dulcineia del Toboso, engendrada na loucura cavalheiresca de Dom Quixote a partir da lavradora Aldonza Lorenzo, configura-se como uma personagem marcada pela ambiguidade, oscilando entre a beleza idealizada e a feiura abjeta conforme a perspectiva de quem a descreve (Gernet, 2019). Tal complexidade resulta de um jogo de focalização que produz, sobretudo na segunda parte da obra cervantina, a dúvida quanto à própria existência da personagem, tornando-a uma personagem instável (Gorla, 2008). Essa ambiguidade é reinterpretada nas adaptações cinematográficas do Quixote de Cervantes, entre elas Dulcinea (1962), de Vicente Escrivá e Don Quijote cabalga de nuevo (1973), de Roberto Gavaldón. Esta comunicação tem como objetivo discutir a ambiguidade constitutiva da personagem cervantina nas obras cinematográficas. Busca-se compreender de que modo, por meio de dispositivos próprios do cinema, como enquadramento, encenação, montagem e performance. Nos dois filmes, a tensão entre Aldonza e Dulcineia ganha contornos existenciais: trata-se, para as protagonistas, de uma questão de ser ou não ser Dulcineia. A partir da perspectiva teórica de McFarlane (1996), segundo a qual a adaptação cinematográfica não se limita à transferência de elementos narrativos, mas implica especialmente a reformulação de funções narrativas difíceis de transpor diretamente do meio literário, este estudo busca investigar como o par Aldonza/Dulcineia é reconstruído e dramatizado nas duas obras fílmicas.
CERVANTES, Miguel de. O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha. Primeiro Livro. Trad. Sérgio Molina. São Paulo: 34, 2012.
CERVANTES, Miguel de. O engenhoso cavaleiro Dom Quixote de La Mancha. Segundo Livro. Trad. Sérgio Molina. São Paulo: 34, 2016.
GERNERT, Folke. Belleza y deformidad: Melibea y Dulcinea entre tradición y desviación. Studia aurea: revista de literatura española y teoría literaria del Renacimiento y Siglo de Oro, v. 13, p. 0133-160, 2019.
GORLA, Paola Laura. Los encantos de Dulcinea. Rutas cervantinas.-(Iluminaciones; 34), p. 63-89, 2007.
MCFARLANE, Brian. Novel to Film: an introduction to the Theory of Adaptation. Oxford: Clarendon Press, 1996.
Obras cinematográficas
DULCINEA. Direção: Vicente Escrivá. Espanha/Itália: [Produtora], 1962. 94 min.
DON QUIJOTE CABALGA DE NUEVO. Direção: Roberto Gavaldón. Roteiro de Carlos Blanco. Espanha/México: Óscar P. C. / Rioma Films, 129 min.
Doutorado em andamento em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal de Uberlândia (2022). Possui graduação em Letras - Português e Espanhol pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro (2019). Participou como bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Iniciação à Docência (PIBID) do subprojeto de Espanhol da UFTM, no período de dezembro de 2014 a fevereiro de 2018.
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RAYANE MINEIA VENCESLAU FERREIRA
WILLIAM SHAKESPEARE DOS SONHOS: ADAPTAÇÕES E
APROPRIAÇÕES DAS PEÇAS SONHO DE UMA NOITE DE VERÃO E A
TEMPESTADE EM SANDMAN (1988-1996)
Esta pesquisa investiga os processos de criação, adaptação e apropriação na
graphic novel Sandman (1988–1996), de Neil Gaiman, em diálogo com as
peças Sonho de Uma Noite de Verão (2016) e A Tempestade (2014), de
William Shakespeare. O objetivo é analisar como Gaiman adapta e se apropria
dos textos shakespearianos, incorporando-os à lógica narrativa e visual de
Sandman, especialmente por meio da ficcionalização de William Shakespeare
como personagem e da reconfiguração de figuras como Titânia e Puck. Para
isso, mobilizam-se os conceitos de adaptação e apropriação propostos por
Linda Hutcheon (2011) e Julie Sanders (2006). Por fim, analisa-se o papel dos
recursos específicos da linguagem dos quadrinhos, tais como o uso das cores,
dos requadros, das tipografias, dos balões e das legendas, na construção
estética e no processo global de adaptação das peças shakespearianas para o
romance gráfico. Justifica-se a relevância do estudo por evidenciar como
Sandman articula literatura canônica, cultura pop e artes visuais, reafirmando o
potencial das histórias em quadrinhos como espaço legítimo de criação
artística, reflexão estética e diálogo intermidiático.
BEER, Anna. The Life of the Author: William Shakespeare. Nova Jersey: Wiley-
Blackwell. 2021.
GAIMAN, Neil. Sonho de uma Noite de Verão. Tradução: Jotapê Martins/ FD.
In: Sandman: edição definitiva, Volume 1. Barueri: Panini Books, 2012a.
GAIMAN, Neil. A Tempestade. Tradução: Jotapê Martins/ FD. Sandman: edição
definitiva, Volume 4. Barueri: Panini Books, 2012b.
HUTCHEON, Linda. Uma teoria da adaptação. Florianópolis: Ed. da UFSC,
2011.
SANDERS, Julie. Adaptation and Appropriation. New York: Routledge, 2006.
SHAKESPEARE, William. Sonho de uma Noite de Verão. Trad. Rafael Raffaelli.
Florianópolis: Ed. da UFSC, 2016.
SHAKESPEARE, William. A Tempestade. Trad. Rafael Raffaelli. Florianópolis:
Ed. da UFSC, 2016.
Mestra em Teoria da Literatura pela Universidade Federal de Pernambuco.
Possui Pós-Graduação em Metodologia da Tradução em Língua Inglesa pela
Faculdade Frassinetti do Recife. Possui graduação em Letras - Inglês pela
Universidade Federal de Pernambuco (2019) e graduação em Letras -
Português pela Universidade Federal de Pernambuco (2014). Também lecionou
na Kentucky State University (EUA), enquanto bolsista do programa Foreign
Language Teaching Assistant (FLTA).
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Pedro Groppo
"A arte como reparação em Hamnet e O Conto de Inverno”
O trabalho aborda a adaptação (2025) do romance Hamnet (2020) para o cinema, em especial a encenação da peça Hamlet em seu clímax. Propõe-se que se ao invés de Hamlet—peça com temas alheios aos do romance Hamnet—fosse representado O Conto de Inverno, uma das últimas peças de Shakespeare, teríamos uma maior ressonância temática por tratar da reconciliação de um casal e da restauração de um núcleo familiar. Ambas as narrativas culminam numa cena de triunfo da arte sobre a natureza, um ato quase milagroso que restaura vínculos e laços familiares.
Referências
O’FARRELL, Maggie. Hamnet. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2020.
SHAKESPEARE, William. The Winter’s Tale. New York: Signet, 1993.
ZHAO, Chloé (dir.). Hamnet. [Filme]. 2025.
Pesquisador, tradutor e professor do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Federal da Paraíba.