Uma pesquisa da USP faz uma análise crítica sobre como a expansão do agronegócio sucroenergético vem alterando as relações de trabalho e a dinâmica social no campo na região de Araraquara, interior de São Paulo. Desde a década de 1960, o avanço da monocultura canavieira transformou a paisagem rural regional, substituindo áreas antes ocupadas por lavouras de subsistência e pomares de laranja por extensas plantações de cana destinadas à produção de açúcar e etanol.
Segundo o autor da pesquisa, o geógrafo Anderson Santos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, nas últimas décadas, “o crescimento da produção de commodities agrícolas para o mercado internacional impulsionou a economia em Araraquara, mas também trouxe consequências sociais negativas para a população, como a redução de empregos no campo, a precarização das relações de trabalho, a concentração fundiária e o enfraquecimento dos vínculos da população com a terra”. Muitos proprietários passaram a arrendar suas propriedades para usinas e a depender de trabalhos urbanos; o trabalho ficou mais precarizado e sem vínculo empregatício formal, levando os trabalhadores a fazerem longos deslocamentos diários para garantir sua renda.
A tese Da crise do capital à crise da sociedade do trabalho: espaço, trabalho e reprodução social no campo – a região de Araraquara, São Paulo foi apresentada ao Departamento de Geografia da FFLCH em abril de 2026, sob orientação do professor Anselmo Alfredo. A pesquisa reúne relatos de pequenos proprietários de terra e produtores, colhedores de laranja e trabalhadores do setor sucroenergético afetados pelas mudanças no campo.
Araraquara, polo do agronegócio sucroenergético
Nas últimas décadas, a região de Araraquara tornou-se um dos principais polos da produção de cana-de-açúcar do País a partir de uma combinação de fatores econômicos, políticos e territoriais. Desde a década de 1960, políticas públicas voltadas à modernização da agricultura estimularam a expansão de grandes monoculturas, com acesso facilitado ao crédito rural, incentivos fiscais, mecanização e infraestrutura para o escoamento da produção.
A pesquisa aponta que o agronegócio ganhou força durante o regime militar (1964-1985), quando o governo federal passou a priorizar a produção agrícola em larga escala voltada ao mercado nacional e internacional. Na região de Araraquara, a oferta ampla de crédito rural e as condições favoráveis de solo, relevo e clima facilitaram a expansão da cana-de-açúcar sobre áreas antes ocupadas por lavouras diversificadas, pastagens e pomares de laranja.
Outro marco importante citado pelo geógrafo foi a criação do Programa Nacional do Álcool (Proálcool) em 1975. A iniciativa incentivou a produção de etanol como alternativa ao petróleo, impulsionando a instalação e a ampliação de usinas sucroalcooleiras no interior paulista. Com isso, a cana passou a ocupar parcelas cada vez maiores do território regional, consolidando Araraquara como um centro estratégico da indústria sucroenergética.
Santos explica que a expansão da cana-de-açúcar em São Paulo ganhou ainda mais força a partir dos anos 1990. A abertura da economia brasileira, o aumento da demanda internacional por açúcar e etanol e a ampliação da comercialização de commodities em bolsas de mercadorias e futuros impulsionaram o crescimento do agronegócio canavieiro. Além disso, novos mecanismos de financiamento, como a comercialização antecipada da safra e a emissão de títulos de crédito rural (CPRs) facilitaram a captação de recursos pelos produtores. Com isso, grandes grupos empresariais ampliaram suas áreas de cultivo por meio da compra e do arrendamento de terras, intensificando a especialização produtiva da região e consolidando o predomínio da cana-de-açúcar na economia local.
Contradições do agronegócio
A expansão do agronegócio gerou contradições no interior paulista. Nascido na região de Araraquara, o pesquisador afirma que acompanhou de perto as transformações provocadas pelo avanço da produção agrícola canavieira em larga escala, antes de se graduar em Geografia e seguir na área como pesquisador na USP. De acordo com Santos, “embora a região tenha se tornado mais integrada ao mercado global por meio da produção de commodities, os trabalhadores do campo passaram a enfrentar maior vulnerabilidade social, desemprego e exclusão econômica”
Para Alfredo, orientador do trabalho, a pesquisa de Santos amplia o debate sobre os impactos sociais da expansão do agronegócio no Brasil. “A tese vai além da análise de indicadores econômicos e investiga os efeitos desse modelo de desenvolvimento sobre a vida dos trabalhadores rurais”, diz.
O trabalho aborda temas como a transformação da relação da população com a terra, propondo uma reflexão crítica sobre as consequências da modernização agrícola no País, particularmente nas últimas décadas.
“O crescimento da produção e dos lucros não se traduziu necessariamente em melhoria das condições de vida para todos os grupos sociais envolvidos no processo” – Anderson Santos
Deslocamentos mais longos e jornadas mais desgastantes
De acordo com o estudo, a redução das áreas cultivadas com laranja e a concentração da produção nas mãos de grandes agroindústrias citrícolas transformaram a rotina dos trabalhadores rurais da região de Araraquara. Nas poucas áreas citrícolas remanescentes, onde a colheita ainda é realizada manualmente, a oferta de emprego tornou-se mais escassa, obrigando muitos trabalhadores a buscar trabalho em municípios cada vez mais distantes.
Enquanto a mecanização avançou sobre praticamente todas as etapas da produção de cana-de-açúcar — principal atividade agrícola da região —, a citricultura continuou demandando mão de obra manual. Com menos oportunidades disponíveis, os catadores de laranja passaram a depender de empreiteiros que recrutam e transportam equipes para frentes de trabalho nas fazendas espalhadas por diferentes cidades.
Segundo Santos, a rotina desses trabalhadores passou a ser marcada por longos deslocamentos diários em ônibus fretados. Em muitos casos, o tempo gasto na viagem se soma à jornada no campo, aumentando o desgaste físico e reduzindo o tempo destinado ao convívio familiar e comunitário. Para ele, o aumento das distâncias percorridas pelos trabalhadores tornou-se uma das principais consequências da modernização da produção agrícola no campo.
“O trabalho é muito cansativo, e ainda tem o deslocamento. Eu tenho uma irmã que trabalha numa agroindústria. Tem vez que ela viaja duas horas e meia de ônibus pra chegar lá. (…) Pra você levantar quatro horas da manhã e ter que sair, que nem ela sai, cinco e meia de casa, e ficar duas horas e meia pra você chegar no trabalho, eu acho assim muito cansativo”, relatou uma trabalhadora em depoimento ao pesquisador.
Santos explica que a fala da trabalhadora evidencia como a busca por emprego passou a exigir não apenas mais tempo, mas também maior desgaste físico dos trabalhadores rurais. Sem registro em carteira e acesso a direitos trabalhistas, muitos enfrentam dificuldades para se afastar do trabalho mesmo quando adoecem ou precisam de tratamento médico.
Informalidade agrava vulnerabilidade dos trabalhadores
Outra trabalhadora entrevistada relatou que precisou passar por uma cirurgia no pulso direito e, posteriormente, ficou afastada devido à covid-19. Sem vínculo formal de trabalho, ela não teve garantia de renda durante o período de recuperação. A preocupação com a perda do salário e o pagamento das despesas provocou ansiedade e sofrimento emocional. “Você começa a ficar perturbada porque não está recebendo”, afirmou.
Segundo Santos, a ausência de direitos como auxílio-doença e remuneração durante afastamentos médicos cria uma pressão constante para que os trabalhadores permaneçam em atividade, mesmo quando sua condição de saúde exige repouso. Além das perdas financeiras, essa situação contribui para o aumento do estresse, da insegurança e do desgaste psicológico, agravando as condições de vida da população rural.
Para o professor Alfredo, o caso de Araraquara revela as contradições de um modelo de modernização agrícola que combina aumento da produtividade e integração aos mercados globais com a redução de empregos, a precarização do trabalho e a concentração da terra. O orientador sugere que a análise dos impactos sociais da modernização do campo é essencial para compreender os desafios do desenvolvimento rural no Brasil.
A tese Da crise do capital à crise da sociedade do trabalho: espaço, trabalho e reprodução social no campo – a região de Araraquara, São Paulo foi defendida na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanadas e será publicada em breve na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.
Mais informações: Anderson Pereira Santos (autor da pesquisa), anderson.pereira.santos@usp.br, (11)98440-8978 e Anselmo Alfredo (orientador), ansfredo@usp.br
Texto de Ivanir Ferreira publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/ciencias/no-interior-de-sp-agronegocio-impulsiona-economia-enquanto-precariza-trabalho/