Falta de escolas na Amazônia força abandono escolar e migração de jovens para as cidades

Pesquisa da USP demonstrou que a forma como o ensino médio é ofertado no Pará transfere às famílias a responsabilidade pelo acesso à educação e aprofunda desigualdades entre campo e cidade
Por
Gabriela César
Data de Publicação
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Imagem: João Paulo Guimarães

O Pará concentra uma das maiores populações rurais do país. Segundo o Censo Demográfico 2022 do Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), um quarto dos habitantes do estado (25%) vivia no campo naquele ano. O índice é quase o dobro da média nacional, que registrou 12,6% de moradores em áreas rurais. No entanto, uma pesquisa de doutorado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP demonstrou que a oferta educacional no Pará não acompanha essa realidade: o estado privilegia a educação nos centros urbanos, obrigando jovens do campo a se deslocarem para cursar o ensino médio ou até mesmo a abandonarem a escola quando não conseguem fazer esse deslocamento.

Segundo Felipe Garcia Passos, autor da tese, a forma como o ensino médio é ofertado nos 144 municípios do Pará, assim como em outros estados da Amazônia, responsabiliza as famílias pelo acesso à educação. Para o geógrafo, o deslocamento das áreas rurais para os centros urbanos em busca de melhores oportunidades educacionais passa a ser uma obrigação familiar, o que gera desigualdades, como uma alta evasão escolar entre os estudantes do campo em comparação com os da cidade. “As famílias se veem implicadas em um processo em que a não participação [no deslocamento educacional] ameaça levar à marginalização e à exclusão social, ameaça essa que obviamente pode e deve ser contestada para que haja outras possibilidades de existência que não seja a do modo de vida urbano hegemônico”, destaca o geógrafo.

Passos identificou que cerca de 42% dos estudantes do campo no Pará evadem na passagem do ensino fundamental para o médio, o que representou, em 2023, cerca de 20.343 alunos. Em comparação, no mesmo período, 25,2% dos alunos dos centros urbanos do Pará evadiram na passagem do ensino fundamental para o médio. “Existem famílias que não têm condição alguma de fazer nem a migração para a cidade nem o trajeto diário [para a escola], porque precisam da ajuda do jovem nas tarefas domésticas, porque não têm recursos e não conseguem se organizar. Há diversos fatores envolvidos”.

Em relação aos estudantes do campo que continuam o ensino médio, 47% precisam se deslocar diariamente para áreas urbanas. O geógrafo conta que, um jovem entrevistado começava seu  deslocamento diário até a escola às 3 horas da manhã, quando acordava. Seu pai precisava levá-lo de barco em um trajeto de meia hora até o rio principal onde passava o transporte escolar oficial, às 4 horas. O rapaz chegava ao porto da cidade às 5 horas e, então, pegava um ônibus até a escola. Após o término da aula, repetia todo o processo para voltar para casa.

 

“A pesquisa denuncia os efeitos da oferta desigual da educação básica no Brasil, no caso da Amazônia, do ponto de vista espacial.”

Felipe Garcia Passos

 

Segundo Passos, nas localidades em que há a oferta de ensino médio no Pará, a maior parte dela acontece por meio de três programas: o Centro de Mídias da Educação Paraense (CEMEP), o Sistema de Organização Modular de Ensino (SOME) e o ensino médio regular. O CEMEP transmite aulas via internet de Belém para comunidades amazônicas em salas de aula disponibilizadas pelas prefeituras. “De todas as entrevistas que eu fiz, esse foi considerado o programa de menor prestígio. Os pais evitam matricular os filhos nele. Mas, às vezes, eles são obrigados porque é o único programa disponível e eles não têm recursos para conseguir vencer a barreira da distância para acessar uma outra escola que, muitas vezes, está muito longe”, afirma.

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Na imagem, encontra-se uma EMEF abandonada que está sendo usada para aulas do ensino médio na comunidade de Igarapé Açu, em Santarém - PA / Imagem: Leila

O SOME, de acordo com o geógrafo, funciona exclusivamente nas áreas rurais do Pará, com a ida de professores às comunidades tradicionais. Nesse programa, um grupo de professores de uma área do conhecimento vai até uma comunidade e passa o conteúdo de todo o ano em um mês. Passos esclarece que, assim como no CEMEP, pela ausência de escolas estaduais, esses professores utilizam salas cedidas da prefeitura e até barracões de igrejas das comunidades. “O que a comunidade falava nas entrevistas? ‘Olha, o SOME é um pouco melhor do que o CEMEP, porque os professores vêm até nós e tiramos dúvidas com eles. São bons professores, mas o grande problema do SOME é que as aulas não são regulares, são blocadas em poucas semanas e é muito difícil de conseguirmos absorver todo o conteúdo em tão pouco tempo’”, destaca.

Origem da desigualdade 
Para o geógrafo, a desigualdade na oferta educacional no Pará está relacionada a um descaso histórico dos governos estaduais em dispor de condições para a oferta do ensino médio na região, como a construção de escolas e a realização de concursos públicos para professores e servidores. Passos relata que, muitas vezes, as autoridades políticas utilizam as particularidades geográficas da Amazônia como justificativa para a evasão escolar na região — o que, em sua visão, poderia ser um motivo para maiores investimentos federais e estaduais, e não o contrário.

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Segundo Passos, dos 144 municípios do Pará, 98 não dispõem de escolas estaduais de ensino médio em áreas rurais / Imagem: João Paulo Guimarães

Outro fator levantado por Passos é o papel da educação como mecanismo de disputa pela terra, especialmente no território da Amazônia. O geógrafo afirma que, muitas vezes, a escola é o único elemento do Estado presente nas comunidades tradicionais e nas áreas rurais. “Não chega a saúde e, muitas vezes, não chega nenhuma outra política pública. Mas a educação, frequentemente, é a primeira a chegar nessas áreas. E ela pode promover uma formação que conscientiza e instrui. Essa é a utopia. Imagine uma comunidade tradicional com jovens bem informados, que sabem ler e escrever em português. Eles terão muito mais capacidade de se organizar e de se articular para defender os interesses de sua comunidade”.

Passos afirma que a própria organização curricular dos programas com mais matrículas na região Norte não dialoga com as realidades das comunidades tradicionais da região. Programas pedagógicos como o CEMEP, concebido fora do Brasil e que realiza aulas em estúdios de transmissão em Belém para comunidades tradicionais da Amazônia, não abrangem a sociodiversidade da Amazônia, de acordo com o pesquisador. “Imagina, uma aula única de história, uma aula única de geografia para mais de 400 comunidades na sociodiversidade amazônica”.

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A tese de doutorado Educação na Amazônia: território extrovertido e esforço espacial das famílias, de Felipe Garcia Passos, e orientada por Eduardo Donizeti Girotto, do Departamento de Geografia da FFLCH, foi defendida em janeiro de 2026 no Programa de Geografia Humana.