Ataque às Torres Gêmeas

Ataque contra símbolos do poder norte americano deixaram 2977 mortos e deram início a Guerra ao Terror

Por
Pedro Fuini
Data de Publicação

Torres Gêmeas
Para Mariana dos Santos Faciulli, o 11 de Setembro precisa ser compreendido como um ponto em um diálogo violento que é anterior ao fato. (Arte: Pedro Fuini)

Há 21 anos, o dia 11 de Setembro ficou marcado como “o dia em que a Terra parou". Os Estados Unidos, potência mundial, via seu território sob um ataque sem precedentes em sua história. Ainda pela manhã, as Torres Gêmeas do World Trade Center, símbolo do poder econômico norte-americano, foram reduzidas a escombros poucos depois de serem atingidas por aeronaves sequestradas por terroristas. O Pentágono, sede do Departamento de Defesa e símbolo do poder militar do país, também seria atingido por uma aeronave. Um último avião cairia em um campo no estado da Pensilvânia. O ataque terrorista, planejado pela organização islâmica Al-Qaeda, liderada à época por Osama bin Laden, deixou 2977 mortos, e é considerado o evento que “inaugurou” o século 21. Em resposta, os Estados Unidos lançaram uma campanha militar antiterrorista chamada de “Guerra ao Terror”.

Mariana dos Santos Faciulli, mestre em Sociologia pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, afirma que o ataque deve ser entendido dentro de um contexto maior, e não como um ato isolado. “Grande parte do choque que se seguiu ao 11 de Setembro não foi apenas por conta da sua magnitude, mas por conta de uma incompreensão pública generalizada em relação às suas causas e às suas demandas”. O que teria ajudado a aumentar a magnitude do ato, segundo a pesquisadora, foi a ocultação sistemática de uma interação violenta entre os Estados Unidos e as organizações classificadas como terroristas anteriores ao 11 de Setembro. Ela cita como exemplo as fátuas (pronunciamentos legais) que a Al-Qaeda lançou em 1996 e 1998, nas quais Osama bin Laden expressa suas demandas, como a retirada do exército norte-americano da Arábia Saudita, e denuncia a ocupação e exploração de territórios no Oriente Médio pelos EUA. Ao ocultar essas ameaças, houve uma percepção de que os ataques pareciam uma manifestação violenta sem precedentes, que ameaçava o sistema ocidental de valores de modo geral.

A pesquisadora analisa que a Guerra ao Terror, após o 11 de Setembro, representou uma mudança fundamental na forma de se encarar o terrorismo, pois adotou um caráter preventivo global, ao defender que se contra-ataque antes de ser atacado, pois “nenhuma estratégia de negociação seria possível”.

Em seu mestrado, Faciulli buscou compreender uma cisão do conceito de terrorismo, em terrorismo tradicional e novo terrorismo, na comunidade científica a partir da década de 1990. Para muitos autores, o novo terrorismo se referia a uma mudança na letalidade e na capacidade de compreender das ações de grupos terroristas. Entretanto, ao comparar as manifestações violentas a partir dos anos 1990 com as de décadas anteriores, não se observa mudanças práticas que justifiquem uma cisão entre dois tipos de terrorismo. Ela argumenta que essa cisão se sustentou sobre uma construção histórica que permitiu que as ideias de maior letalidade e aparentemente inexplicáveis fossem associadas a sujeitos racializados que não conseguem se adaptar ao andamento do mundo moderno.

A pesquisadora ainda ressalta que a ideia de terrorismo como violência sistemática e específica surge na década de 1970, tendo como estopim o atentado contra atletas israelenses por grupos palestinos nas Olimpíadas de Munique. Antes disso, as ações de grupos contra a população civil eram vistas como estratégias pontuais de uma atuação política mais ampla. Faciulli ainda destaca que o termo terrorismo carrega um caráter depreciativo, pois características associadas a ele, como a intenção primordial de estabelecer terror, podem ser verificadas em outras formas de violência não consideradas como tal. 

Confira na íntegra a entrevista com Mariana dos Santos Faciulli acerca do 11 de Setembro e da pesquisa que desenvolveu acerca do terrorismo.

 

Serviço de Comunicação Social: O que é terrorismo? 

Mariana dos Santos Faciulli: Quando se faz essa pergunta, o que temos que ter em mente é que, na minha concepção, qualquer tentativa de definir o terrorismo como um conceito que se refere a fatos reais falha necessariamente. Não por que terrorismo pode ser muitas coisas, a depender do contexto, mas porque, essencialmente, ele não é nada. Ele não é nenhum tipo de violência específica. O histórico do conceito de terrorismo nos ajuda a entender isso um pouco. Nos anos 30, começaram os primeiros esboços do que seria terrorismo, mas só se consolidou como um conceito na década de 70. Foi só nesse momento que ele passou a ser reivindicado pela comunidade científica como um conceito que se referia a uma manifestação política de caráter distinto e excepcional, como um método específico de atuação violenta. Antes disso, as abordagens teóricas em torno da ideia de terror e terrorismo tratavam ações dos grupos como, por exemplo, sequestro de avião, bombardeios de vias públicas em atentado contra a população civil, como estratégias pontuais ou etapas, num processo mais amplo de atuação política, que comumente era compreendido como guerrilha, rebelião e subversão. A ideia de terrorismo como uma uma ação, uma violência sistemática e específica, ela surgiu na década de 70. No caso do 11 de Setembro se fala muito do sequestro do avião, mas esses sequestros eram muito comuns nos anos 60 e 70, mas não eram tratados como terrorismo propriamente. O estopim para o estabelecimento do conceito de terrorismo foi o ataque do Setembro Negro, um atentado contra o dormitório de atletas israelenses, feito por grupos ligados à Organização pela Libertação da Palestina, em 1972, nas Olimpíadas de Munique. Depois disso, foi exponencial a articulação da comunidade científica em torno da ideia de terrorismo. É importante, então, que se tenha em mente, que esse conceito de terrorismo, da forma como é tratado hoje, foi forjado por uma comunidade científica e política que se orientou por eventos práticos, mas também por dinâmicas internas históricas que acabaram se consolidando na noção de terrorismo. 

Tendo isso em vista, para mim, terrorismo não se refere satisfatoriamente a nenhum conjunto de eventos reais. Ao longo da curta história de definição do terrorismo, todas as características que foram ressaltadas como de marcadores específicos da violência terrorista, elas podem ser verificadas em muitas outras formas de violência não consideradas terrorismo. Essas características são, principalmente, a intenção primordial de estabelecer terror, o ataque deliberado aos civis como objetivo primordial ou uma violência que primordialmente visa a comunicação e não uma finalidade prática. Essa palavra “primordial” é importante porque, para muitos teóricos, a primordialidade dessas características é o que caracterizaria a violência terrorista. Porém, a única forma de estabelecer essa primordialidade, é imputando uma subjetividade a esses perpetradores previamente. O que diferenciaria, por exemplo, o ataque às Torres Gêmeas ou qualquer outra forma de ataque que acaba gerando consequências para civis seria o fato de que os perpetradores do ataque do 11 de Setembro, por exemplo, teriam como finalidade primordial estabelecer terror ou atacar civis. Mas a única forma definir isso é estabelecendo uma subjetividade a esses perpetradores previamente para diferenciá-los, por exemplo, dos danos colaterais que o exército norte-americano causa aos civis nos seus ataques e bombardeios. 

Então, para mim, o conceito de terrorismo define um conjunto vazio, que é inerentemente depreciativo, e seu caráter distintivo estaria precisamente no fato de ter uma carga moral negativa e uma ausência de validade que impede a possibilidade de ressignificação da ação violenta. E a partir disso, ele pode ser sempre aplicado de uma maneira infinita a uma série de ações violentas que não podem ser ressignificadas. Tendo isso em vista, que é um conjunto inerentemente depreciativo e acusatório, também não é possível que se consiga mobilizá-lo consistentemente para fazer qualquer análise com qualquer propósito analítico ou descritivo, porque, na verdade, o que ele faz é pegar determinados atos de violência que a priori não são distintos de nenhuma outra forma de violência, de ação política violenta, e epistemicamente converter ou homogeneizar esses atos como uma forma excepcional de violência política que ficam essencializados sempre como ilegítimos.

 

Serviço de Comunicação Social: Você pode explicar um pouco mais sobre essa cisão que você fala entre terrorismo tradicional e o novo terrorismo?

Mariana dos Santos Faciulli: Quando comecei a pesquisar sobre a produção teórica em torno do terrorismo, me deparei com uma cisão epistêmica entre um terrorismo anterior aos anos 90, e um terrorismo que começou a surgir nos diálogos científicos e políticos principalmente a partir dos anos 90. Esse terrorismo passou a ser conhecido largamente entre a comunidade científica como o novo terrorismo. Hoje em dia, pode-se dizer esse novo terrorismo é a convicção teórica política mais difundida acerca da natureza do nosso terrorismo contemporâneo. Todos esses termos que circulam, terrorismo contemporâneo, terrorismo islâmico, terrorismo pós-moderno são abarcados por essa concepção do novo terrorismo que começou a surgir nos anos 90. Esse novo do novo terrorismo, para esses autores, se refere a uma mudança de qualidade da ação violenta, que não poderia mais ser explicada pelas teorias e pelas observações políticas que existiam até então, exigiria uma nova abordagem. Mas, quando verificamos as atividades violentas que começaram a surgir a partir dos anos 90 e compará-las com as atividades anteriores, não existem mudanças práticas que justificariam suficientemente uma cisão entre dois tipos de terrorismo. Então, o novo desse novo terrorismo que eu defendo não está propriamente no caráter da ação, mas está na construção epistêmica e política em torno da ação de determinados grupos.

Então, a despeito da inveríficabilidade dessas mudanças práticas, essa concepção de um novo terrorismo foi largamente difundida. Inclusive, embora não se perceba diretamente esse vínculo, é uma ideia quanto a qualidade dessa violência, que está inclusive presente nas manifestações políticas mais superficiais, pronunciamentos públicos de presidentes norte-americanos, etc. Essa ideia de novo terrorismo começou a surgir nos anos 90, principalmente depois do primeiro atentado ao World Trade Center, no estacionamento, em 1993. Além desse evento, houve alguns outros, todos nos anos 90, como ataques às embaixadas norte-americanas, houve também aquele episódio de ataque com gás sarin no metrô de Tóquio. Foram eventos que aconteceram nos anos 90 e que se somaram a uma crescente preocupação que vinha desde a Revolução Iraniana, com a atuação de algumas organizações muçulmanas, que resultaram nessa ideia de novo terrorismo como um terrorismo de caráter, de qualidade distinta em relação ao terrorismo anterior. O que marcaria esse novo terrorismo, seriam principalmente duas características. A primeira, a maior letalidade das ações, seriam ações a princípio mais letais ou que visariam uma maior letalidade; e a segunda, uma menor inteligibilidade dessas ações em termos de atuação prática, de ação racional com fins práticos. O que eu quero dizer: nas atuações de organizações antes dos anos 90, mesmo que as suas ações não fossem apoiadas ou fossem julgadas como improcedentes as técnicas escolhidas, conseguia se identificar um fim político presente nessas organizações. Depois dos anos 90, isso desapareceu, e ficaram organizações e ações que seriam marcadas por uma maior letalidade e uma menor inteligibilidade. 

Em relação à atuação dos terroristas tradicionais com os novos terroristas, percebe-se que, na verdade, tanto em termos de estatísticas, de assassinatos, por exemplo, quanto em termos de manifestações quanto às razões das ações, não existem grandes diferenças reais factuais entre organizações dos terroristas tradicionais e dos novos terroristas, sempre lembrando que isso não é uma demarcação temporal. Essas organizações de novos terroristas existem concomitantemente com as organizações de terrorismo tradicional. Por exemplo, o Baader Meinhof ou o IRA. Mesmo o IRA sendo uma organização com um caráter religioso muito primordial, ela é considerado uma organização de terrorismo tradicional e não de novo terrorismo, que são majoritariamente organizações muçulmanas. Se não, é quase só isso. 

Então, sobre o que se sustentou essa ideia de novo terrorismo, se não sobre uma diferença prática? O que eu defendo é que ela se sustentou sobre uma construção histórica do Outro racial, que permitiu que essa ideia de maior letalidade e menor inteligibilidade ressoasse entre características de um texto moderno que defende implicitamente essa ideia de um Outro racializado do que não consegue se adaptar ao andamento do mundo moderno e que não pertenceria ao mundo moderno. Então, quando o discurso científico se lança à compreensão dessas manifestações políticas violentas desses sujeitos, que são sujeitos já desde o princípio entendidos como sujeitos raciais – populações muçulmanas, do Oriente Médio, Norte da África, Sudeste Asiático – ele mobiliza atributos que ressoam com vários elementos associados à construção histórica do Outro racial. Nessa manobra, acultura ou racializa a violência desses grupos e traça a origem dessa violência a uma reação ao avanço da modernidade ocidental e da moralidade moderna. Essa violência seria uma violência sem finalidade e que, por isso, é gratuitamente agressiva ou não é compreensível em termos de finalidade política, porque ela, na verdade, é uma reação ao avanço da modernidade e do seu caráter de autodeterminação, etc. Então, na verdade, o novo terrorismo seria o produto da consciência de sujeitos que não conseguem se adaptar ao avanço da civilização.

Isso é construído através da mobilização de determinados elementos do discurso ou da atuação desses sujeitos, que são ressaltados em detrimento de outros elementos. Por exemplo, o caráter religioso dessas manifestações, em detrimento do caráter político dessas manifestações. Sempre foi muito explícito, mas nunca foi enfatizado o caráter político dessas manifestações. Então, ao longo do tempo, foram manipuladas para serem percebidas como gratuitas, como uma violência que se origina em si mesma, não como uma resposta a qualquer outro contexto. 

É claro que nem todas as manifestações de sujeitos subalternos vão ser necessariamente tratadas como uma violência incompreensível ou mais letal. Mas a questão é que sempre quando elas não podem ser fagocitadas pelos princípios político-científicos ocidentais de racionalidade e modernidade, elas têm um substrato em que pode florescer essa ideia de uma violência racializada, uma violência que se origina em si mesma e que não é responsiva a nenhum ambiente estrutural, mas é sempre uma violência ativa.

 

Serviço de Comunicação Social: O que foi o 11 de Setembro?

Mariana dos Santos Faciulli: Em linhas gerais, eu acho que sempre podemos falar sobre o 11 de Setembro como um evento, essa é a maneira como, em geral, ele é discutido. Um evento sem precedentes, vamos dizer assim. Eu não acho interessante trazer essa ideia para cá, porque eu poderia discutir o que é o 11 de Setembro.

Mas eu acho que tem um jeito mais interessante de se tratar o 11 de Setembro, em vez de um acontecimento sem precedentes. Eu acho que podemos entender o 11 de Setembro primeiro como um ponto em um diálogo violento que é anterior ao fato. O que eu quero dizer com isso é que os eventos do 11 de Setembro foram à época entendidos como comprovações inquestionáveis de que o território norte-americano e, em última instância, todo o Ocidente estava submetido a uma ameaça sem precedentes. Os valores da sociedade norte-americana, os valores ocidentais estavam sendo ameaçados. Então, para além do número de vítimas, que foi muito alto, a atmosfera de excepcionalidade em torno desse episódio também se concretizou, porque foi um acontecimento sem precedentes em termos simbólicos. Ele destruiu localidades que eram significantes do poder político, econômico e militar dos Estados Unidos em uma escala global. Então, simbolicamente, foi muito significativo, e mais do que na prática, pela quantidade de mortos.

Grande parte do choque que se seguiu ao 11 de Setembro não foi apenas por conta da sua magnitude, mas por conta de uma incompreensão pública generalizada em relação às suas causas e às suas demandas. O ato foi tratado politicamente pelos veículos de informação, pelas instituições, como uma atitude ininteligível. “Por que isso está acontecendo em solo americano? Porque isso está acontecendo contra nós?” Essa atmosfera de incompreensão ajudou a exponencializar a magnitude desse ato. Mas essa atmosfera de incompreensão só surge a partir do momento em que são negadas todas as manifestações violentas anteriores ao 11 de Setembro. Estou falando de um diálogo propriamente e não só de manifestações que vieram dessas organizações. Toda a interação violenta entre os sujeitos, que acabou culminando no 11 de Setembro, é sistematicamente ocultada. Por exemplo, antes do 11 de Setembro, a Al-Qaeda lançou dois pronunciamentos legais publicamente que, que são as duas fátuas de 1996 e 1998, em que o Osama bin Laden expressa claramente as suas demandas para que o exército norte-americano deixe a Arábia Saudita, além de acusar as políticas externas norte-americanas de apoio a Israel, e vários outros casos de ocupação militar e expropriação de territórios do Oriente Médio e Norte da África, ocupados e explorados pelas políticas externas norte-americanas. Isso é uma coisa que está na internet para todo mundo ver. Na época foi altamente divulgado e a resposta sistemática da política norte-americana, como também da política europeia a essas manifestações, e inclusive a manifestações violentas anteriores, como ataques a embaixadas, pois antes do 11 de Setembro, as manifestações desses grupos e de grupos associados tinham praticamente só alvos militares, embaixadas e lugares em que as ocupações militares se estabeleciam. Tanto em termos de pronunciamento quanto em termos de avisos violentos, vamos dizer assim, foram feitas muitas investidas anteriores ao 11 de Setembro, que foram sistematicamente negadas e posteriormente ao 11 de Setembro, elas foram ocultadas. Então, o que acontece é que o 11 de Setembro parece uma manifestação de uma violência ativa em si mesma, uma fonte ativa da violência sem precedentes que não se insere em nenhum contexto político militar anterior. Não estou dizendo, óbvio, que a violência bruta factual é justificável, mas isso é muito diferente de dizer que ela é incompreensível ou que ela não tem precedentes. Eu acho que quando se discute o 11 de Setembro, é preciso ter em mente, que ele é, em grande medida, uma resposta a um diálogo violento que já estava sendo estabelecido previamente e durante muitos anos. É um diálogo violento que é sistematicamente ocultado para que o 11 de Setembro pareça uma manifestação violenta, sem precedentes, de ameaça ao sistema norte-americano de valores, política, etc, e ocidental de um jeito geral.

Para além disso, eu também acho que tem uma segunda forma de entender o 11 de Setembro, que inclusive tem muito a ver com o fato de nós estarmos aqui discutindo o 11 de Setembro, 21 anos depois do acontecimento, que é o fato dele ter sido um catalisador nos processos de racialização de populações no mundo e de fortificação de discursos e apreensões epidêmicas racializadas. O 11 de Setembro até hoje tem impactos ainda muito fortes sobre populações muçulmanas no mundo todo. Até hoje, essas populações são compreendidas como os perpetradores primordiais de terrorismo, populações que têm políticas de segurança em torno delas, que são muito ativas, porque afinal “nem todo muçulmano é, mas todo muçulmano sempre pode ser”. Então, se construíram políticas, uma forma de apreender a realidade de uma maneira racializada, de racialização constante dessas populações, em que sempre pode haver um terrorista entre os muçulmanos. Porque, afinal, são nessas populações racializadas que nasce a violência ativa, são sempre os perpetradores ativos da violência e nunca aqueles que respondem ou que se auto defendem de uma violência que já estava estabelecida. Eu acho que o 11 de Setembro foi também um catalisador nesse processo histórico de racialização de populações e da violência dessas populações, que começou a crescer na exponencial, principalmente depois da Revolução Iraniana.

 

Serviço de Comunicação Social: Houve uma mudança na forma de encarar ou combater o terrorismo após os eventos do 11 de Setembro?

Mariana dos Santos Faciulli: Houve uma mudança fundamental, porque depois do 11 de Setembro se lançou a Guerra ao Terror, que é uma manifestação que tem um caráter preventivo, nunca antes visto. A política central da Guerra ao Terror é que se responda a uma ação terrorista antes de ela acontecer. E isso não tem só implicações simbólicas, muito fortes, mas tem implicações práticas, grotescas. Por exemplo, políticas assassinas de encarceramento massivo injustificável. As prisões de Abu Ghraib (Iraque) e Guantánamo (Cuba) são exemplos muito emblemáticos disso. Mas, basicamente, depois do 11 de Setembro, essa ideia de ação preventiva ganhou um caráter global. É preciso contra-atacar antes de ser atacado. Em parte, a ideia de novo terrorismo fundamentou muito essa ideia, porque quando o novo terrorismo construiu as ações desses grupos, já a princípio mais letais, então são grupos que visam, desde o início, a morte massiva de civis. Quanto mais eles matarem, melhor. Eles não têm uma tática e uma estratégia política convencional, o que pode ser compreendido em termos instrumentais. Então, ao construir toda essa abordagem em torno do novo terrorismo como uma violência mais letal, a única possibilidade lógica de resposta a essa violência é uma resposta brutal de contenção. Então, essa nova abordagem combate esse novo terrorismo com uma ofensiva extremamente agressiva, o contraterrorismo. Ele precisa ter uma resposta que faça jus a essa ideia de de uma ameaça sem precedentes. E, frequentemente, essa ideia de contraterrorismo vem acompanhada de uma ideia de reparação de características inerentes a sociedades muçulmanas. “Essas sociedades são fundamentalistas, não conseguem lidar com a modernidade, com os valores de liberdade, autodeterminação, etc. Então, existem coisas que precisam ser reparadas no cerne dessas próprias sociedades.” Então começam as violências. Elas são mais incompreensíveis, mais inconsistentes. São construídas assim. Eu não estou dizendo que elas são de fato, mas como elas são construídas como mais incompreensíveis e mais inconsistentes, espera-se que elas sejam menos suscetíveis à lógica de dissuasão que orientou as políticas contra terroristas anteriores. Então, as estratégias de negociação e defesa militar mais comedidas, elas não seriam mais aplicáveis. Há dois autores que têm uma frase que ficou muito famosa, dizendo que os novos terroristas que são associados ao Bin Laden, ‘não têm interesse em sentar à mesa da discussão, eles têm interesse em quebrar a mesa’. Há essa ideia de que nenhuma estratégia de negociação seria possível e que, justamente por isso, a única forma de conter essas atuações violentas seria exterminá-las na sua raiz antes que elas acontecessem. Por isso, a política contra terrorista hoje em dia é extremamente ativa. Apesar do seu nome, ela é frequentemente ação, e não reação, mas não é compreendida assim. Acho que esse é o ponto mais importante. 

E aí, trazendo de novo essa questão, porque ela é a questão que norteia todas as perguntas em relação ao terrorismo contemporâneo. Isso ressoa com o fato de que populações racializadas são, em geral, compreendidas como sujeitos agentes da violência. Então, isso é muito importante porque isso se manifesta em larga escala em relação ao “terrorismo” dessas organizações - toda vez que eu falo terrorismo estou falando entre aspas, pois o terrorismo não era compreendido anteriormente porque ou eram organizações da sociedade democrática ocidental ou eram organizações que, mesmo não sendo ocidentais, elas falavam e dialogavam em termos de uma racionalidade política ocidental. Por exemplo, o caso da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que tinha a finalidade de construir um Estado Nacional. Quando foge a esse caráter de não querer dialogar ou ceder aos preceitos da negociação com a sociedade ocidental, é tratada como uma violência ativa em que o diálogo não é possível. E a única forma de responder a isso é eliminando não só a violência em si, mas os agentes que perpetram a violência ou que sempre poderão perpetrar essa violência, porque isso seria parte ainda da comunidade religiosa, cultural e étnica deles. 

Mariana dos Santos Faciulli é mestre em Sociologia pela FFLCH, e graduada em Ciências Sociais pela mesma. Possui pesquisa dedicada aos temas: terrorismo, violência política e relações coloniais/neocoloniais. Sua dissertação de mestrado, Violência heterônoma: a construção político-epistêmica do Outro terrorista, está disponível na Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP