Publicação de Harry Potter

Saga de fantasia criada pela britânica J. K. Rowling é composta por sete livros, adaptados para oito filmes

Por
Gabriela Ferrari Toquetti e Paulo Andrade
Data de Publicação

Harry Potter é uma série de fantasia que aborda temas bastante realistas - desde as problemáticas políticas presentes em nosso mundo até os detalhes íntimos que constituem a nossa complexidade humana”, segundo Beatriz Masson Francisco. [Arte: Gabriela Ferrari Toquetti]

Em 26 de junho de 1997, o lançamento de Harry Potter e a Pedra Filosofal, primeiro livro da série Harry Potter, criou um universo que se expandiu para além da literatura. A obra de J. K. Rowling foi publicada quando a internet começava a se popularizar e conta uma história de coming of age, que aborda a juventude, o crescimento e todos os aprendizados que vêm dessa fase da vida, criando um sentimento de integração entre seus fãs, especialmente no ambiente digital.

O retrato da passagem da infância para a adolescência é um dos motivos que justificam a imensa popularidade da obra, pois gera identificação com seus leitores. No início, Harry é um garoto órfão de 11 anos que mora com seus tios, até que descobre que é bruxo e recebe um convite para estudar em Hogwarts, uma escola de magia. Com isso, sua vida muda e nós, leitores, mudamos com ele. Nos sete livros da série, publicados ao longo de dez anos, acompanhamos o amadurecimento de Harry e de seus amigos, como Rony e Hermione.

Harry Potter é uma obra de ficção e fantasia, ao mesmo tempo que trata de temas muito realistas e próximos da concretude, como a complexidade da natureza humana e questões sociais e políticas - tudo com grandes doses de fantasia e magia, o que torna a história mais atraente.

Atualmente, a saga integra a lista de livros mais lidos do mundo, e as adaptações cinematográficas foram sucesso de bilheteria. “Amizades e famílias foram formadas tendo Harry Potter como pedra fundamental, e isso não é pouca coisa”, afirma Beatriz Masson Francisco, mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Confira a entrevista completa:

Serviço de Comunicação Social: Em linhas gerais, quais as temáticas abordadas em Harry Potter?

Beatriz Masson Francisco: Podemos elencar as temáticas abordadas na obra a partir de duas esferas narrativas que aparecem no texto de Harry Potter. Em uma primeira camada, que é mais aparente, mais “identificável”, vemos que os romances escritos por J.K. Rowling articulam temas sociais e políticos presentes em nosso tempo histórico, como o preconceito de raça, presente na composição do personagem Lorde Voldemort e de seus seguidores, que desejam aniquilar os bruxos nascidos trouxa como forma de “purificar” seu próprio mundo – topos este que demonstra que a série trabalha, também, com os perigos e consequências da ascensão de discursos totalitários que levam a regimes políticos totalitários.

Ainda que estes sejam temas muito relevantes e que suscitam debates interessantes, Harry Potter traz uma outra camada narrativa, mais aprofundada, que também é digna de nossa atenção: a série trabalha com primazia toda a complexidade e as contradições que existem na formação dos seres humanos. Acompanhamos de perto o desenvolvimento do protagonista que dá título aos livros e vemos como ele – a despeito de sua aparente heroicidade elucidada por seus poderes próprios do mundo da fantasia – é um menino que erra tentando acertar, perdoa e é perdoado, é altruísta ao mesmo tempo em que possui atitudes egoístas, tenta descobrir sua identidade e seu lugar dentro do Mundo Mágico e lida, a todo momento, com as dores do luto. E o que é mais interessante é que este trabalho sobre o desvendar das várias facetas da natureza humana não aparece somente na construção de Harry, mas também na dos personagens Alvo Dumbledore, Severo Snape, Sirius Black, Remo Lupin, Draco Malfoy, dentre vários outros.

Em sua totalidade, portanto, Harry Potter é uma série de fantasia que aborda temas bastante realistas – desde as problemáticas políticas presentes em nosso mundo até os detalhes íntimos que constituem a nossa complexidade humana.

Serviço de Comunicação Social: Quais elementos caracterizam a escrita de J. K. Rowling na obra?

Beatriz Masson Francisco: A série acompanha os anos escolares de Harry Potter desde o momento em que ele descobre que é um bruxo, aos 11 anos, até o momento em que ele decide abandonar Hogwarts para, junto de seus amigos, salvar o Mundo Mágico das mãos de Voldemort. Nesse sentido, a forma da escrita de J.K. Rowling acompanha o conteúdo que a série aborda, amadurecendo junto de Harry. Prova disso é a maneira com que Harry Potter e a Pedra Filosofal se inicia: em um tom próprio das narrativas para as crianças, o texto afirma que “o senhor e a senhora Dursley, da rua dos Alfeneiros, nº 4, se orgulhavam de dizer que eram perfeitamente normais, muito bem, obrigado.” Quando o comparamos àquilo que é encontrado em Harry Potter e as Relíquias da Morte, último volume da série, vemos que o narrador de Rowling cresce, em sentidos variados, para dar voz aos pensamentos e emoções de um Harry mais maduro e que enfrenta problemas mais complicados do que encontrar dificuldades para realizar suas lições de casa.

Neste sentido, o elemento primordial que caracteriza a escrita de J.K. Rowling é o trabalho minucioso que ela realiza para criar uma voz narrativa que acompanha o protagonista da série em sua completude. Esse narrador, por praticar uma onisciência seletiva, apresenta-nos, em grande medida, os pensamentos e emoções de Harry – mas não só; por vezes, ele dá ao leitor alguns vislumbres dos sentimentos de Voldemort e, ainda, adquire um discurso mais neutro quando narra capítulos cujos motes estão distantes espacialmente de Harry.

Além do narrador, outro elemento forte que caracteriza a escrita de J.K. Rowling é o detalhamento na construção de espaços narrativos que, na atualidade, povoam o imaginário coletivo. A Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts ganhou uma concretude visual com as adaptações que Harry Potter recebeu no cinema, mas antes disso o velho castelo já era um lugar em que os leitores da série ansiavam por conhecer e visitar – e é importante salientar que, em sua época de lançamento, no final da década de 90, os livros não eram ilustrados. Hogwarts era mágica, literal e metaforicamente, porque o estilo de escrita de Rowling, de certa forma, também era mágico. Estes lugares, com as suas riquezas de detalhes arquitetônicos e com regras próprias de funcionamento, ganharam tamanha concretude pela pena da autora.

Por fim, não posso deixar de mencionar que Rowling possui um talento especial para escrever narrativas de mistério. Cada um dos sete livros que compõem a série é norteado, em graus diferentes, pela solução de um ou mais enigmas, que são construídos por pequenas pistas deixadas ao longo dos capítulos. Em certa medida, J.K. Rowling dá continuidade à longa e importante tradição de autores ingleses que se dedicaram a escrever narrativas detetivescas, como Arthur Conan Doyle e Agatha Christie.

Serviço de Comunicação Social: Na sua visão, de que forma a obra revolucionou a literatura infantojuvenil e por que Harry Potter se tornou tão conhecido mundialmente?

Beatriz Masson Francisco: Acredito que exista uma série de fatores que contribuíram para a importância que Harry Potter teve e ainda tem no mundo todo. Alguns deles são intrínsecos à narrativa e ao mundo que J.K. Rowling criou, conforme já mencionei anteriormente: ela é uma história de formação, um coming of age, que retrata o crescimento de um menino dentro de um ambiente escolar – algo que, por si só, já geraria muita identificação do público alvo com a história, porque várias das questões típicas da infância e adolescência são retratadas ali. Acontece que estes elementos são “temperados” com uma boa dose de fantasia, o que faz tudo ficar muito mais interessante. Costumo dizer que Harry Potter acontece justamente na intersecção entre fantasia, o mundo feérico e realismo, e é por isso que, narrativamente, a série revolucionou a literatura infantojuvenil à sua época de lançamento e, ainda hoje, continua chamando a atenção de tantos leitores.

Junto disso, existem os elementos que são externos à história dos livros que também contribuíram para o seu sucesso: a série foi publicada na virada do século 20 para o século 21, época em que a internet estava vivendo seu boom como meio de conexão e comunicação entre pessoas que, espacialmente, viviam distantes. Harry Potter se tornou um elemento cultural muito popular que permitiu a aproximação dessas pessoas através da criação das comunidades de fãs, os fandoms. No início dos anos 2000, existiam milhares de fóruns e comunidades em que os leitores participavam para discutir os rumos que a história iria tomar, porque os sete livros foram publicados durante dez anos, de 1997 a 2007. Nesse sentido, a série foi capaz de proporcionar um senso de coletividade e de pertencimento entre seus fãs, principalmente no meio digital. Amizades e famílias foram formadas tendo Harry Potter como pedra fundamental, e isso não é pouca coisa.

Não posso deixar de mencionar, também, que os filmes que adaptaram os livros para as telonas contribuíram bastante para o sucesso da série como um todo. Harry Potter ganhou um rosto, assim como Hermione e Rony. Hogwarts, como já mencionei, ganhou concretude visual. As atrocidades praticadas por Voldemort também. Nas telas, os fãs puderam ver os efeitos dos feitiços e puderam entender como o Quadribol era jogado. Esse respaldo visual foi grandioso e fundamental para a popularização da série.

Hoje, Harry Potter é “abraçado” por um mundo mais vasto: o Wizarding World, uma marca que J.K. Rowling criou para abarcar todas as narrativas que estão conectadas por Hogwarts e seus personagens mágicos. Esta é uma forma de manter a série atual, expandindo seu universo para além do embate entre Harry e Voldemort. A franquia de filmes Animais Fantásticos, que mostrou a ascensão de Gerardo Grindelwald, o bruxo das trevas por quem Dumbledore se apaixonou e que tinha ideais tão tenebrosos quanto os de Voldemort, era uma das formas de mostrar essa expansão de universo em uma era pré-Harry Potter, mas existem dúvidas sobre sua continuidade. O jogo de videogame Hogwarts Legacy também propõe uma imersão na escola de magia em uma época mais antiga. Ambos exemplos mostram que o Wizarding World mantém, hoje, as histórias que são ligadas a Harry Potter em uma rede transmidiática, que conecta romances, contos, filmes, peças teatrais e jogos de videogame a um mesmo mote: manter o Mundo Mágico vivo e presente na vida de fãs mais novos e também nos de longa data.

Beatriz Masson Francisco é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH. Durante o mestrado, estudou a forma narrativa da série contemporânea inglesa Harry Potter, bem como o potencial que a obra teve para formar leitores em nosso país. Idealizou e foi a principal ministrante de duas edições do curso de difusão Harry Potter: Caminhos Interpretativos, durante os anos de 2018, 2019 e 2020, na Universidade de São Paulo. Atualmente é doutoranda do programa de pós-graduação em Teoria Literária e Literatura Comparada pela FFLCH.

O curso “Harry Potter: Caminhos Interpretativos” e o evento "Os estudos sobre a série Harry Potter no Brasil", ministrados pela pesquisadora entrevistada, podem ser acessados no canal do YouTube da FFLCH.