Nascimento de Jorge Amado

Escritor defendia as camadas populares da sociedade na escrita e na política
Por
Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Nascimento de Jorge Amado
Ao falar de sua obra, Jorge Amado dizia que "se nela existe alguma virtude, é essa fidelidade do povo brasileiro" (Arte: Renan Braz)

 

Se você leu Capitães da Areia na escola ou na época de prestar o vestibular, viu bastante do universo das ruas e do cais de Salvador: dos meninos de rua às manifestações afro-brasileiras, passando pela busca da justiça social. Todos esses temas permeiam não só esse, mas os outros trabalhos de Jorge Amado.

Nascido no sul da Bahia, o escritor compôs sua obra pensando na realidade da massa popular brasileira e “fazendo dos personagens pobres, marginalizados na sociedade da época, heróis de suas histórias”, explica em entrevista para o site da FFLCH, Marly D’Amaro Blasques Tooge, doutora do Departamento de Letras Modernas da FFLCH USP.

Marly o define como grande defensor das camadas populares e da mestiçagem sendo esses os temas extremamente característicos de sua obra. “Jorge teve coragem de expor sua obra, de discutir sobre o patriarcalismo brasileiro, combater o racismo, a desigualdade e injustiça social. Teve a coragem de ser preso por defender seus ideais. De ser exilado. De ser um obá. Ele teve coragem de correr o mundo como escritor e de optar pela escrita. Teve a coragem de viver e se transformar, sem nunca deixar de ser o carismático Jorge Amado”.

Ligado à todos esses ideais, Amado concretizou na escrita todo seu potencial político e aceitou que sua obra fosse adaptada a outras mídias, entrando mais em contato com a massa. Por isso, foi acusado de se tornar comercial, segundo a doutora.

Obras importantes como Jubiabá; Mar Morto e Capitães de Areia — apreendida na época de seu lançamento pela ditadura Vargas — foram categorizadas como as “engajadas”, e Gabriela, Cravo e Canela; Dona Flor e Tieta como as “não engajadas”. Porém, Marly explica que o escritor buscava sempre um tom de denúncia social e que nunca concordou com essa separação, ele dizia que sua obra era uma unidade e categorizá-la era uma “bobagem total”.

Jorge Amado teve um papel fundamental na política. Em 1945 foi eleito deputado federal pelo PCB (Partido Comunista Brasileiro), tendo sido o mais votado no Estado de São Paulo. Criou a lei, em vigor até hoje, da liberdade do culto religioso. Quando o PCB, foi declarado ilegal, Jorge Amado exilou-se na França. De acordo com a doutora, Jorge Amado entrou para o comunismo em época de idealismo político e saiu decepcionado com o stalinismo.

O escritor entrou para o Guinness Book em 1996 como escritor mais traduzido do mundo. Para Marly, o autor fez história tornando-se "ícone internacional da brasilidade, vendeu mais de 20 milhões de exemplares em cerca de 50 idiomas no exterior.

 

 

Marly D’Amaro Blasques Tooge defendeu a dissertação de mestrado Traduzindo o Brazil: o país mestiço de Jorge Amado, e concluiu doutorado Harmonia e tom: o poder brando da música popular brasileira e as representações identitárias do Brasil no mundoambas no Departamento de Letras Modernas da FFLCH USP.