Primeira publicação de Mafalda

Personagem argentina inspira leitores até hoje com sua personalidade questionadora e revolucionária
Por
Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Primeira Publicação de Mafalda
"As tiras de Mafalda são muito famosas e foram traduzidas para mais de vinte países, inclusive a Finlândia e a China, países culturalmente distantes da Argentina e da América Latina em aparência”, comenta a pesquisadora Barbara Zocal da Silva. (Arte: Ricardo Freire) 


O Hoje na História comemora a data da primeira publicação das tirinhas da menina que detesta desigualdades, racismo, guerras, convenções dos adultos e sopa. Sendo inconformada com o mundo em que vive, porém otimista quanto ao futuro, Mafalda conquistou e conquista até hoje leitores do mundo inteiro.

A personagem foi criada pelo cartunista Quino para um comercial de uma empresa de eletrodomésticos que acabou não indo ao ar. Em 1964, os quadrinhos foram publicados pela primeira vez na revista Primera Plana

Barbara Zocal da Silva, mestre pelo Departamento de Línguas Modernas da FFLCH USP, explica que o cartunista já trazia o senso político em outros quadrinhos como marca de seus personagens.

“As tiras refletiam as inquietudes da época na Argentina e no mundo, questões políticas, econômicas, cotidianas sob uma perspectiva mais liberal e crítica, tais como a repressão no país, que passava por golpe de Estado, o imperialismo dos Estados Unidos, a chegada da televisão na casa de famílias argentinas que, por sinal, representavam o público-alvo desta revista”, explica a pesquisadora. 

Quadrinho Mafalda

As críticas lançadas por Mafalda a fizeram virar ícone dos anos 1970 não só na Argentina mas nos países que receberam tradução. Barbara explica que, de acordo com Quino, o tema do cotidiano aproximou esses países dos discursos da menina. “Todos os países têm problemas e insatisfações políticas, sociais e econômicas, têm cidadãos que protestam, têm relação com algum tipo de tecnologia, têm famílias em conflito entre gerações e gêneros”.

O Brasil, que vivia em contexto político semelhante, ganhou sua primeira tradução na Revista Patota, no Rio de Janeiro. “Foi uma grande estreia para esta personagem no Brasil, pois suas tiras eram as únicas latino-americanas, além de algumas poucas brasileiras, entre outras famosas tiras da França, Bélgica e Estados Unidos”, comenta a pesquisadora, destacando o fato de que Quino fazia questão de fazer sua própria distribuição, diferente de outros cartunistas que terceirizavam suas produções. 

Porém, a pesquisadora explica que a revista deixou de ser publicada com apenas quatro anos de existência. As tiras voltariam à distribuição em 1982, também em tempo curto, na forma de livreto pela Editora Global sob tradução de Mouzar Benedito e edição pelo cartunista Henfil. “Eles fugiram de muitos padrões da tradição editorial (na época e na atualidade) e mantiveram muitas estruturas das frases em português semelhantes à estrutura em espanhol, e também deixaram algumas palavras em espanhol, como, por exemplo, "mamá", "papá", "bueno", "dios mío", o que marcou a personagem como estrangeira”. 

Os quadrinhos na literatura

Quino acredita que o fato de ter jovens e crianças como público pode ter evitado a censura dos quadrinhos de Mafalda. E não é à toa que os quadrinhos são leitura tão acessível a este público, pois, segundo a pesquisadora, são “ricos na forma de expressar signos visuais pictóricos e linguísticos”.  

Ela comenta que educadores tornam os quadrinhos presentes na sala de aula por ser um gênero que estimula a leitura e traz prazer ao mesmo tempo. Assim como estão presentes em livros didáticos e em provas de vestibular. “Lidar com temáticas sérias de forma humorística e crítica facilita a compreensão dos alunos, estimulando-os a engajarem-se politicamente e a terem um senso crítico mais aguçado. E eu acredito que Mafalda sempre é relembrada, pois ela ainda permanece atual.” 

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Barbara Zocal da Silva defendeu a dissertação As tiras de Mafalda no Brasil: tradutores e traduções pelo Departamento de Letras Modernas da FFLCH USP.