Instituições públicas de ensino superior continuam inacessíveis para estudantes que precisam trabalhar

Apesar do aumento da inclusão, desigualdade prevalece entre cursos de graduação e entre instituições públicas e privadas, segundo pesquisa da USP

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Thais Morimoto
Data de Publicação

Estudantes reunidos. Foto: Pedro Seno/Comunicação Social da FFLCH
Estudantes reunidos. Foto: Pedro Seno/Comunicação Social da FFLCH USP

Mesmo que o acesso ao ensino superior tenha se expandido, instituições e cursos de graduação com melhor desempenho continuam sendo mais frequentados por indivíduos de classes altas. Os estudantes de classes baixas precisam se adaptar para conseguirem concluir a graduação. As conclusões são de dissertação de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

Alice Assis de Figueiredo Roza estudou a desigualdade no ensino superior, principalmente em relação ao curso e ao tipo de instituição de ensino superior (IES) em que o aluno concluiu a graduação. A pesquisa mostrou como estudantes de baixa renda ainda possuem pouco acesso a cursos considerados “elitistas” e a instituições classificadas com maior qualidade.

Diferença entre as instituições

Mesmo que a Lei de Cotas tenha validade apenas em instituições públicas, as privadas também apresentaram aumento da inclusão entre 2011 e 2019, devido ao aumento da quantidade de instituições particulares. A pesquisa englobou três ciclos: 2011 a 2013, 2014 a 2016 e 2017 a 2019.

Percentual de concluintes que ingressaram por algum tipo de ação afirmativa. O gráfico mostra o aumento de estudantes de classes mais baixas nos três tipos de instituições ao longo dos ciclos.
Percentual de concluintes que ingressaram por algum tipo de ação afirmativa. O gráfico mostra o aumento de estudantes de classes mais baixas nos três tipos de instituições ao longo dos ciclos. Fonte: Dados fornecidos pelo Enade e elaborado pela pesquisadora Alice Assis de Figueiredo Roza 

Outro ponto estudado por Alice é como a qualidade dos cursos pelos índices do Enade muda de acordo com a instituição. “Quando a gente analisa o desempenho em questão de qualidade do curso que o estudante está formando, as universidades federais se destacam de forma absurda. A maioria é uma média acima de quatro [no Enade]. Já nas universidades privadas, as notas são mais baixas”, explica a pesquisadora.

O estudante de baixa renda

A partir das particularidades apresentadas por cada instituição, um aluno de baixa renda, por exemplo, muitas vezes precisa escolher entre a possibilidade de trabalhar durante a graduação ou se formar em uma instituição de maior qualidade. Sem opção, muitos estudantes precisam trabalhar. Segundo Alice, uma das soluções que pode auxiliar os estudantes são as políticas de assistência, mas elas ainda são muito pequenas comparadas à demanda. 

“Nas instituições privadas, muitos estudantes trabalham e sustentam a família. Já a maioria desses estudantes da IES pública não trabalha, dependendo da família para custear os gastos pessoais. Eles têm perfil muito parecido de quem, por exemplo, é de alta renda e veio da escola privada”, afirma a pesquisadora. Ela ainda destaca que muitos cursos em instituições públicas oferecem atividades em tempo integral, o que dificulta a conciliação com o trabalho remunerado.

Diferenças entre os cursos 

Com 57 cursos de graduação analisados, Alice percebeu que os cursos apresentaram dinâmicas diferentes mesmo com a Lei de Cotas. Segundo a pesquisadora, “ainda existem alguns cursos que são um pouco ‘elitistas’. Mudou em comparação ao que era antes, mas ainda assim esses cursos têm um perfil de estudante bem diferente [dos outros]”. 

Cursos com percentuais maiores de 50% de concluintes com perfil de alta renda em todos os ciclos.
Percentual de concluintes com perfil de alta renda. Os cursos mostrados apresentaram percentuais maiores de 50% de concluintes com perfil de alta renda em todos os ciclos. Fonte: 
Dados fornecidos pelo Enade e elaborado pela Comunicação Social da FFLCH USP

De acordo com a pesquisa, Medicina, o curso mais concorrido nos vestibulares do Brasil, manteve o perfil de alta renda como maioria dos concluintes. Relações Internacionais, Design, Engenharia da Computação, Engenharia e Engenharia Química são outros cursos que também mantiveram essa predominância. Mas, entre 2011 e 2019, todos tiveram maior distribuição de vagas entre os diferentes perfis. Segundo a pesquisa, a maior parte desses cursos também mantiveram maiores notas, melhor desempenho acadêmico e melhor qualidade no Enade. 

Por outro lado, cursos como Serviço Social, Letras e Filosofia apresentam maior porcentagem de alunos com perfil de baixa renda e de pretos, pardos e indígenas. Muitos dos estudantes também fizeram as graduações na modalidade educação a distância (EAD).

Alice Assis de Figueiredo Roza. Foto: Arquivo pessoal
Alice Assis de Figueiredo Roza. Foto: Arquivo pessoal

Igualar as oportunidades

Com tanta desigualdade no ensino superior, Alice ressalta a necessidade de oferecer oportunidades semelhantes a todos para que estudantes de baixa renda não se concentrem apenas em instituições com conceito Enade mais baixo. 

A pesquisadora também explica que a desigualdade impacta no mercado de trabalho. “É difícil medir, mas sabemos que [a qualidade da instituição apresenta] um impacto muito grande em questão da rede de contatos que a pessoa vai ter ao longo da graduação, o tipo de formação que aquela pessoa vai ter e a questão das oportunidades mesmo”. 

Ela ainda exemplifica: “Uma pessoa que concluiu a graduação em um curso que recebe, por exemplo, a nota 5, significa que aquele curso está fornecendo uma boa base para aquela pessoa. Um outro ponto interessante é que existem universidades que têm melhor reputação no mercado de trabalho e cursos que são mais valorizados pelo mercado”.

As políticas de expansão e democratização da educação superior no Brasil reduziram desigualdades? Análise do perfil socioeconômico dos concluintes dos cursos de graduação no período entre 2011 e 2019 foi defendida em agosto de 2023 no âmbito do programa de pós-graduação de Ciência Política e teve orientação da professora Marta Teresa da Silva Arretche. 

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