Redes de apoio auxiliam reconstrução da vida de mulheres após o cárcere

Pesquisa da USP revela que, a partir de coletivos de poesia e de acolhimento, mulheres que passaram pelo cárcere constroem novas formas de sobrevivência e conquistam independência
Por
Gabriela César
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Imagem da sombra de uma mulher dentro de uma cela em um presídio
Foto: Unsplash

Segundo relatório da Organização dos Estados Americanos (OEA), mais de 60% da população carcerária feminina no Brasil cumpre pena por crimes relacionados às drogas. Uma pesquisa de mestrado da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP revela que, ao ingressarem no sistema penitenciário, essas mulheres se deparam com um cenário inesperado: redes de apoio que desempenham papel fundamental para sua sobrevivência durante o encarceramento e, sobretudo, após deixarem a prisão.

A autora da pesquisa, Flavia Saiani, aponta que coletivos de poesia e de cuidado ajudam mulheres presas e egressas a construir novas formas de sobrevivência em meio à violência e à precariedade que marcam o cotidiano do cárcere. 

Para a dissertação, Saiani acompanhou o Sarau Asas Abertas — coletivo que realiza apresentações em duas unidades prisionais femininas da capital paulista — e o coletivo Por Nós, uma rede que se denomina abolicionista, feminista e antiproibicionista fundada pelas irmãs Mary e Batia Jello, ambas sobreviventes do sistema prisional.

A pesquisadora afirma que o Sarau Asas Abertas possibilitou que mulheres encarceradas pudessem ter contato com a poesia e se aproximar das artes. Na tese, Saiani explica que para o fundador do coletivo, Jaime Queiroga, a poesia é uma espécie de “anzol” para essa população feminina, que pode escrever sobre seus sentimentos e suas autoestimas. Quando em liberdade, muitas retornam para auxiliar Jaime com as atividades do Asas Abertas em presídios e Fundações Casa.

A poesia como porta para a liberdade

Gih Trajano foi uma das participantes do coletivo que seguiu carreira na poesia pós-cárcere. Trajano entrou no mundo do crime realizando pequenos serviços ao chefe da região em que vivia, como receber pagamento e entregar “mercadorias” ilícitas, em troca de um lugar para morar. Por volta dos anos 2000, foi presa por aplicar golpes utilizando CPFs falsos. Foi nesse período que conheceu o Sarau e passou a integrar o coletivo.

Após seu período na prisão, Saiani explica que “Gih passou a circular no circuito dos saraus e slam e conhecer as pessoas com as quais teve contato enquanto esteve encarcerada. E foram essas pessoas que se tornaram sua rede, inclusive na questão financeira. Foi levada a um Slam que ocorre em uma praça próximo de sua casa e começou a se apresentar”. Além de apresentações na cidade de São Paulo, Gih começou a frequentar o Sarau dentro da Penitenciária Feminina da Capital (PFC) não mais como detenta, mas agora como poeta.

Vista aérea da Penitenciária Feminina da Capital
A P.F.C (Penitenciária Feminina da Capital) fazia parte do complexo penitenciário do Carandiru e é um dos locais em que os coletivos atuam [Foto: Ana Paula Brito/Memorial da Resistência de São Paulo]

“A rede tecida pelas relações trazidas pelo Sarau Asas Abertas deu à Gih asas para que ela voasse solo, mas com um apoio (e abraços) para retornar.
— Flavia Saiani

Para Saiani, os laços construídos por Gih só puderam ser feitos a partir da violência sofrida pelo Estado que, segundo ela, é a prisão. A pesquisadora acredita que o fato dessas mulheres continuarem existindo, buscando e construindo uma vida minimamente digna já  constitui um ato político, porque, em sua visão, o Estado as queria mortas. “É como se, a partir do cárcere, essas mulheres se descobrissem novas pessoas e, muitas vezes, com possibilidades até maiores do que antes”, destaca.

Cuidado como ação política

Por Nós foi o outro coletivo que Saiani acompanhou durante sua pesquisa. Essa rede busca ajudar mulheres dentro do sistema prisional, especialmente durante as chamadas “saidinhas” — quando o preso em regime semi-aberto pode realizar saídas temporárias. A ajuda acontece por meio do acolhimento às presas, com o oferecimento de cafés, roupas e assessoria jurídica — realizados por doações de membros do coletivo.

“Não é um assistencialismo, não é só entregar as coisas; é o cuidado como ação política”, ressalta Saiani. Esse auxílio é feito, majoritariamente, por mulheres que passaram pelo cárcere, receberam ajuda do coletivo e decidiram continuar o trabalho de ajudar outras mulheres que permanecem presas.

O coletivo pretende escrever uma cartilha com as trajetórias das integrantes da rede e os caminhos e serviços que as possibilitaram vidas mais dignas após o cárcere. “Uma das propostas no lançamento da cartilha e da Por Nós é emancipar essas mulheres. Então, ainda que essa mulher não faça mais parte do coletivo, que ela consiga viver a vida dela com independência”, finaliza Saiani.

Membros do coletivo chamado "Por nós"
Para Saiani, “essas redes que se formam são um efeito social do encarceramento em massa” [Foto: Por Nós/Acervo Pessoal]

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A dissertação de mestrado Tecendo no fio da navalha: Mulheres sobreviventes do cárcere, cuidado e redes de apoio, de Flavia Saiani, e orientada pela professora Vera Telles, do Departamento de Sociologia da FFLCH, foi defendida em 2025 no Programa de Sociologia da FFLCH.