Brás, Bexiga e Barra Funda, de António de Alcântara Machado (1901-1935), acaba de ganhar uma edição fac-similar pela Editora 34, organizada pelo professor, tradutor e pesquisador francês Antoine Chareyre com a colaboração de Augusto Massi, docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Trata-se de um acontecimento para ser celebrado.
Chareyre – que já traduziu para o francês obras de Oswald de Andrade, Sérgio Milliet, Luís Aranha e Patrícia Galvão, a Pagu – devolve a Brás, Bexiga e Barra Funda o projeto gráfico original de 1927, inspirado nos jornais das primeiras décadas do século 20, com suas manchetes, publicidades e tipografias. Bastam alguns minutos com o livro nas mãos para perceber quão fundamental era esse projeto para a fruição pretendida pelo autor.
Mas, além disso, Chareyre reúne também uma preciosa fortuna crítica feita no calor da hora, com textos de Mário e Oswald de Andrade, João Ribeiro, Sérgio Milliet e ainda um achado: uma resenha esquecida do jovem Carlos Drummond de Andrade, assinada sob o pseudônimo Antônio Crispim. Tudo acompanhado de uma fartura de notas, uma seleção de outros textos de Alcântara Machado, um delicioso mapa esquemático da antiga pauliceia e um posfácio redigido pelo próprio editor.
Alcântara Machado costuma aparecer como um nome do segundo escalão do Modernismo brasileiro, menos celebrado e estudado do que Mário, Oswald ou Manuel Bandeira, por exemplo. Publicou pouco – apenas três livros em vida – e morreu cedo, aos 33 anos, vítima de uma crise de apendicite. Alguns consideravam seus contos paulistanos demais, incompreensíveis para quem lia de fora. Podem ser razões, mas não justificativas. Uma trajetória editorial que marcou Brás, Bexiga e Barra Funda como um título para o público jovem e vestibulando também colaborou para esse escanteio.
O volume organizado por Chareyre é a tentativa de corrigir essa injustiça, evidenciando a originalidade, o vigor e a atualidade da prosa de Alcântara Machado. Fazia 43 anos que Brás, Bexiga e Barra Funda não ganhava uma publicação desse porte, desde a edição fac-similar organizada pela professora da FFLCH Cecília de Lara em 1982 e lançada pela Imprensa Oficial paulista. Sinal claro dessa necessidade de atenção, o livro publicado agora pela Editora 34 é fruto de uma edição francesa, título inaugural da L’Oncle d’Amérique, editora criada pelo próprio Chareyre.
A morte precoce de Alcântara Machado fez com que sua obra fosse reeditada bem cedo, conta o editor. Contudo, ao longo dos anos os estudiosos preferiram se dedicar mais a nomes como Mário e Oswald – que foram se mostrando autores mais modernos, no sentido das experimentações literárias, com obras como Memórias Sentimentais de João Miramar (1924), Macunaíma (1928) e Serafim Ponte Grande (1933). Surgiam muito mais experimentais no formalismo, explica Chareyre.
“Quando os estudos se voltaram para esses grandes nomes do formalismo, da vanguarda, pouco a pouco Alcântara Machado foi rebaixado nesse cânone do Modernismo”, indica. Com uma escrita mais acessível e a presença forte da temática da infância, Brás, Bexiga e Barra Funda começou a ser entendido editorialmente como uma obra voltada para um público mais jovem. Edições com critérios acadêmicos – contendo notas, fortuna crítica e ensaios – começaram a rarear e abriram espaço para as edições didáticas, sobretudo a partir da década de 1990. “Minha ambição era fazer uma edição para adultos de Brás, Bexiga e Barra Funda”, comenta o Chareyre.
Um livro que nasceu jornal
No caso de Alcântara Machado, sua ambição com Brás, Bexiga e Barra Funda era bem maior. Ele queria matar a literatura, como acertou Carlos Drummond de Andrade em sua análise da obra. Ou, pelo menos, matar a tradição literária que sobrevivia até ali. Nessa perspectiva, o livro se pretende um registro jornalístico da imigração italiana em São Paulo. É o que o próprio autor deixa claro nas primeiras páginas do volume, no prefácio intitulado “Artigo de Fundo”: “Este livro não nasceu livro: nasceu jornal. Estes contos não nasceram contos: nasceram notícias”.
No final das contas, Alcântara Machado acabou fazendo ficção e não jornal, como Drummond mesmo aponta e celebra. Mas a analogia entre literatura e jornalismo não é falsa, indica Chareyre. A pretensão do autor era usar o jornalismo como inspiração para a nova prosa literária moderna. Assim, ele é a matéria-prima da ficção, e os contos se apresentam à maneira de um conjunto de fait divers – um grupo bem variado de notícias, que costumam valer pela curiosidade despertada nos leitores graças ao seu caráter pitoresco ou sensacionalista.
Nos 11 contos de Brás, Bexiga e Barra Funda tomamos notícia do garoto atropelado pelo bonde, do casamento que encerra alianças econômicas, das emoções das partidas de futebol, do crime passional que vira música popular. Nessas passagens breves da vida dos ítalo-paulistanos, Alcântara Machado vai apresentando ao leitor uma cidade que se transforma em metrópole, com automóveis desfilando pelas primeiras vias asfaltadas, bairros populares abarrotados e avenidas da elite. Registra a paixão pelo futebol, a vivência dos pequenos comércios, os bondes lotados e os dramas da infância e do amor.
As narrativas parecem tirar seu assunto das seções policiais e de casamentos, das crônicas futebolísticas e do boxe, dos relatos dos bairros operários da capital paulista. São todos temas populares, como salienta Augusto Massi. “Alcântara Machado pegou essas manifestações em seu nascimento”, aponta. “Ele é um dos primeiros a fazer literatura a partir disso.”
Uma postura que contradiz certas críticas de que o Modernismo paulista seria elitista, diz o professor. E a escolha de uma manifestação popular de grande público – o jornal – como referência também sugere essa direção. Alcântara Machado poderia ter se baseado nas revistas ilustradas, voltadas para um público diferente, mais sofisticado, sugere Massi. Mas escolheu o jornal, e isso é um fato pouco lembrado.
Inspirada no jornalismo, a prosa de Alcântara Machado é direta e econômica, com o narrador em terceira pessoa se impedindo de comentários. O foco é na ação, com os contos se resolvendo em poucas cenas, compondo instantâneos da vida nos bairros populares da capital. Não à toa, o subtítulo do livro é Notícias de São Paulo.
Massi explica que essa pretensão não era exclusiva de Alcântara Machado, mas fazia parte dos horizontes literários de outros autores daquela geração. “Mais importante do que separar a linguagem do jornalismo e da literatura, é uma característica do nosso modernismo tornar essas matérias vizinhas e fazer com que a literatura fosse menos romântica e mais objetiva”, conta o professor.
Alcântara Machado fazia isso com o conhecimento conquistado nas redações. Antes de Brás, Bexiga e Barra Funda, já tinha uma larga experiência no jornalismo – foi redator, cronista, crítico literário e teatral – dado biográfico compartilhado com vários escritores, lembra Massi. Dessa prática, todos carregaram a vontade de criar uma linguagem que se afastasse da retórica e que não fosse aquela dos bacharéis, mas sim presa aos fatos. “O universo do jornalismo impregnou essa geração: Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Cecília Meireles exerceram a crônica. Todos eles eram colaboradores assíduos do jornalismo”, recorda.
O projeto gráfico concebido pelo autor em 1927 e resgatado pela edição fac-similar expande para o próprio objeto livro essa influência do jornalismo. Alcântara Machado tinha plena consciência de que a tipografia não era algo superficial, mas parte da criação do próprio sentido da obra. Por isso, usa títulos que se confundem com manchetes de jornal e prefere as letras grandes e os trechos curtos, quase notas, separados por espaços em branco, abusando do negrito como ferramenta de destaque.
Ítalo-paulistas
O jornalismo pode ser entendido em Brás, Bexiga e Barra Funda como a manifestação no campo da linguagem das transformações industriais pelas quais São Paulo passava. O tema dos imigrantes italianos e seus descendentes, por sua vez, revela o aspecto humano desse processo modernizador. Por isso, para Massi, a obra não pode ser resumida simplesmente a um livro paulista, a uma defesa de São Paulo, como já foi considerada. Na verdade, ela é a defesa de uma cidade internacional, na qual a imigração acontece com mais vigor do que em outros lugares do País. Diante de uma Europa que se tornava cada vez mais fechada, Brás, Bexiga e Barra Funda indica aberturas. “Ele diz: Olhem, vocês migraram e criaram uma cultura”, argumenta o professor. “Isso mostra o verdadeiro espírito do modernismo.”
Alcântara Machado pertencia à elite quatrocentona de São Paulo – cursara a tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, assim como o pai –, mas estava longe de viver isolado nos bairros nobres da capital. Ele circulava pelas ruas, tomava bondes e frequentava os cafés do centro para captar o estilo coloquial e a linguagem dos engraxates, dos barbeiros e dos vendedores de jornais, conforme testemunhou Sérgio Milliet. Dentro de uma cena literária saturada de pensar o País a partir do indígena ou do negro, o autor capturava a novidade dos imigrantes e das classes operárias.
O tema da imigração ainda era pouco explorado na literatura nacional. Graça Aranha publicara, em 1902, Canaã, um romance de tese sobre os alemães no Espírito Santo, enquanto Plínio Salgado abordava a questão de um ponto de vista nacionalista em O estrangeiro, lançado um ano antes de Brás, Bexiga e Barra Funda, em 1926. Alcântara Machado adotava uma perspectiva diferente. A mudança do título provisório da obra, Ítalo-paulistas, para o definitivo não passa apenas pela opção por uma linguagem mais poética, com aliterações e assonâncias, aponta Massi. O autor tratava de deslocar a questão do nacional e da identidade para o problema da segregação, dos bairros operários isolados da cidade. “Esse estrangeiro pode ser assimilado, mas sua primeira experiência na cidade é de isolamento”, analisa o professor.
Para Massi, o resultado são contos muito significativos no que toca ao processo de assimilação, apresentado a partir de casamentos, adoções ou novas práticas culturais. Alcântara Machado não fala do imigrante recém-chegado, às voltas com as dificuldades na nova terra. Sua preocupação está com os descendentes, aqueles que nasceram e vão morrer em São Paulo, que não voltarão para a Europa e estão se fazendo brasileiros e, ao mesmo tempo, fazendo um novo Brasil.
Segundo caderno
Não é menos prazerosa a leitura do material reunido por Chareyre sob o nome Segundo caderno. “A ideia foi fazer alusão à tradição jornalística e à ambição do autor de ter um escrita muito próxima dela”, explica o editor, referindo-se aos cadernos especiais que costumavam acompanhar os jornais impressos. Os textos selecionados ampliam a compreensão da obra ao mesmo tempo em que permitem vislumbres do projeto literário de Alcântara Machado.
Para começar, Chareyre apresenta alguns textos do próprio autor que dialogam com o tema e as propostas de Brás, Bexiga e Barra Funda, boa parte deles publicado originalmente em jornais. Há uma homenagem ao desenhista, ilustrador e caricaturista João Paulo Lemmo Lemmi, o Voltolino, que trabalhou em inúmeros jornais e revistas de São Paulo e do Rio de Janeiro, incluindo O Pirralho, fundado por Oswald de Andrade. Lemmi foi uma referência importante para Alcântara Machado na representação dos imigrantes italianos e de seus descendentes. “Voltolino sentia a família do ítalo-paulista”, escreve o autor. “Os desenhos que lhe dedicou são de uma nitidez psicológica surpreendente.”
Em outro artigo, Alcântara Machado trata com ironia a visita do futurista italiano Filippo Tommaso Marinetti ao Brasil, em 1926. Para o autor, Marinetti representava uma espécie de contraexemplo das contribuições dos italianos para o progresso do Brasil. “Pois eu acho que você faria melhor se ficasse lá na Itália. Ela é quem precisa de sua atividade renovadora. Nós não”, escreve Alcântara Machado. “O que nós precisamos com certeza é fechar as portas às manifestações injustamente batizadas de artísticas (são mercantis e mais nada) que a sua terra, entre outras também da Europa, vive nos mandando.”
Ótima maneira de compreender como Alcântara Machado fez ficção e não jornalismo em Brás, Bexiga e Barra Funda, Notas sobre a visita do Bologna F.C. narra a passagem pelo Brasil em 1929 do então campeão italiano, com suas vitórias e derrotas para os times nacionais. Pelo assunto, remete imediatamente ao conto Corinthians (2) vs. Palestra (1), mas sua linguagem, ainda que saborosa, é mais convencional do que se veria no livro de 1927. A comparação entre os dois textos explicita a criatividade e a originalidade da escrita apresentada em Brás, Bexiga e Barra Funda.
Aristides Silva ou o quarto poder, publicado originalmente em O Jornal, do Rio de Janeiro, em 1929, é uma espécie de tratado do autor sobre a influência do jornalismo na literatura moderna, explicitando ainda os pressupostos da criação de Brás, Bexiga e Barra Funda. Alcântara Machado defende que a imprensa havia se tornado o lugar onde a ação das pessoas é registrada, enquanto o romance passara a se preocupar com a vida interior das suas personagens.
Reflexões desse tipo revelam a visão a partir da qual o autor concebeu seu livro. “O romance hoje em dia narra o indivíduo. Os indivíduos [no plural] são assunto da imprensa”, escreve. “Numa época (é a nossa) em que a literatura cada vez mais se preocupa com o caso interior o jornal acaba sendo o único comentário do que se passa fora dos homens.” É por isso, indica, que uma obra literária interessada nas ações – o caso de Brás, Bexiga e Barra Funda – é confundida ou mesmo chamada muitas vezes de reportagem.
Último texto de Alcântara Machado incluído no dossiê, Capitão Bernini apresenta o fragmento de um romance inacabado do autor no qual ele se volta mais uma vez para a comunidade ítalo-paulista e a infância. Publicado em 1944 n’O Estado de S. Paulo graças a Sérgio Milliet, o trecho serve para atiçar a curiosidade a respeito dos caminhos que sua escrita poderia ter seguido. “Então Russinho pegou nos livros, foi até o fundo, pôs os livros no chão e subiu na árvore. Ficou logo com os lábios e os dedos roxos papando amora. Só desceu da árvore quando o pretinho Ananias que bancava o carregador nos dias de feira apareceu com a sua cesta já dando o prego. Ananias desafiou Russinho para um joguinho de parede. Mas Russinho não tinha dinheiro. E a leite de pato não tinha graça.”
Achado drummondiano
A fortuna crítica reunida por Chareyre, com textos exclusivos para a edição brasileira, é um conjunto de documentos preciosos para se compreender as relações literárias e intelectuais de Alcântara Machado e, ao mesmo tempo, ter a dimensão da recepção entusiasmada de Brás, Bexiga e Barra Funda.
Na época do lançamento, conta o editor, o livro recebeu quase 20 resenhas, em geral bastante positivas. “Quando descobri toda essa fortuna crítica fiquei bastante surpreso”, diz Chareyre. “Era uma obra que fazia parte dessa geração modernista, em que outros autores tinham muita dificuldade para serem aceitos pela crítica. Fiquei surpreso em ver como esse livro, particularmente, fez sucesso com a crítica da época. Isso me pareceu importante.”
Para o editor, esses textos ajudam a entender o projeto por trás de Brás, Bexiga e Barra Funda. “As boas resenhas da época já trazem muita verdade sobre a obra”, pontua. “É o melhor modo de medir como uma boa obra mudou as linhas de um contexto literário. Por isso, gosto de montar esses dossiês de fortuna crítica.” Mesmo sendo leituras de um certo período, esses comentários ainda hoje são chaves para o entendimento do livro, defende Chareyre. “A ideia era voltar para as leituras da época, aceitar essa viagem para as leituras mais antigas na ambição de que ainda hoje elas podem nos ajudar a redescobrir essa obra.”
Mário de Andrade, por exemplo, defende que a obra é “universalmente humana”, um livro “irritantemente excelente” e cheio de ternura. Comenta que o volume garante à criança “direito de personalidade na ficção nacional” e aproveita para contrariar certas opiniões que rotulavam Brás, Bexiga e Barra Funda de regionalista.
“O livro são contos passados em São Paulo, trata dum fenômeno étnico que está se dando também em São Paulo e aproveita o patuá peculiar a certa gente de São Paulo, não tem dúvida”, escreve Mário. “Porém a fonte inspiradora, a força de comoção do livro está na luta racial, no contar a fusão étnica fatal proveniente dos fatores que provocam e fatalizam a adaptação, luta e fusão que não se peculiarizam a São Paulo, porém coisa de muitas terras e todas as terras vivas.”
Já Prudente de Moraes Neto afirma que Alcântara Machado escreve “com prodigiosa segurança” e sem hesitação. “Avança na narração inteiramente senhor de si, do seu assunto, dos seus efeitos.” Defende que, apesar do tom objetivo adotado nos contos, Brás, Bexiga e Barra Funda, assim como fora Pathé-Baby, seu livro de estreia de 1926, é o retrato do autor. “O Alcântara é como escreve. Quer dizer, escreve como é.” O veterano crítico João Ribeiro, membro da Academia Brasileira de Letras, por sua vez, não poupa elogios: “É realmente um excepcional escritor esse que nos dá, à maneira dos antigos cronistas, um tratado do Brasil, mas do Brasil novo e diferencial que se processa nas terras paulistas”.
O grande achado de Chareyre – a crítica escrita por Carlos Drummond de Andrade sob o pseudônimo Antônio Crispim – mostra o olhar agudo do mineiro, que soube compreender o objetivo central do autor. “O que Alcântara Machado queria mesmo era matar a literatura”, escreve Drummond. “Matou. Brás, Bexiga e Barra Funda é o melhor jornal até hoje aparecido no Brasil. Não tem um pingo de literatura.”
Para o mineiro, a obra não é um livro, mas um jornal. E seu contos são notícias. Não se trata de uma simples transposição da imprensa para a literatura, algo que Drummond reconhece não ter nenhum interesse artístico. É fruto do talento de Alcântara Machado, que colocou muito de si próprio nas “reportagens”, tornando-se uma espécie de cúmplice ou coautor dos acontecimentos narrados. “Os senhores já devem ter notado que António de Alcântara Machado é um caso muito sério”, arremata.
O texto havia sido publicado no Diário de Minas de 27 de março de 1927 e jamais aparecera em qualquer reedição de Brás, Bexiga e Barra Funda. O ponto de partida para sua redescoberta, conta Chareyre, foi uma carta de agradecimento de Alcântara Machado para Drummond, que o editor encontrou na hemeroteca digital da Biblioteca Nacional. O documento deixava evidente a existência de uma resenha escrita por Drummond, mas nenhum trabalho acadêmico ou mesmo a edição organizada por Cecília de Lara nos anos 1980 dava conta dela.
Chareyre presumiu que, em 1927, Drummond estaria escrevendo para algum jornal mineiro e procurou a ajuda de Massi. Eles recorreram então ao amigo, poeta e crítico literário Mário Alex Rosa, morador de Belo Horizonte, solicitando que ele procurasse no arquivo do Estado edições de jornais mineiros com datas próximas àquela da carta escrita por Alcântara Machado. “Nessa altura, ainda não tínhamos nem o título do jornal nem a data exata mas, partindo da carta, poderíamos procurar pelos dias anteriores”, explica Chareyre. “E assim Mário Alex Rosa chegou ao Diário de Minas e à resenha assinada por Antônio Crispim.”
Para Massi, o texto de Drummond representa uma espécie de peça faltante no quebra-cabeça das relações modernistas em torno de Brás, Bexiga e Barra Funda e de seu autor. “A resenha de Drummond valoriza de imediato tudo que falamos sobre as questões da linguagem”, diz o professor. Chareyre recorda que era importante para Alcântara Machado ter a opinião de um autor de fora de São Paulo, já que o livro havia recebido algumas críticas taxando-o de regionalista. “Saber que Brás, Bexiga e Barra Funda poderia ser lido fora de São Paulo era muito importante para ele.”
Na carta em que responde a Drummond, o autor comemora o contato de terras distantes e fala como considerava fundamental que os modernistas integrassem uma equipe. “Nós crianças do Brasil devemos unir as mãos e formar assim a roda da renovação”, escreve. Era um tema bastante sensível para o autor, que esteve à frente de várias revistas literárias ao longo da vida, como Terra Roxa e Outras Terras (1926), a Revista de Antropofagia (1928) – ao lado de Oswald de Andrade e Raul Bopp – e a Revista Nova (1931), com Paulo Prado e Mário de Andrade.
Faltou tempo para Alcântara Machado participar mais dessa roda. Mas o que fez de melhor no pouco tempo que teve reaparece agora em uma edição à altura da “originalidade desse homem inteligentíssimo”, como elogiou Drummond.
Brás, Bexiga e Barra Funda, de António de Alcântara Machado, Editora 34, 320 páginas, R$ 86,00.
*Texto de Luiz Prado para o Jornal da USP: https://jornal.usp.br/cultura/bras-bexiga-e-barra-funda-quando-o-jornalismo-reinventou-a-literatura/