Simpósio Internacional
Atlântico Indígena
Universidade de São Paulo (USP), São Paulo
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), Santos
Aldeia Guarani Tekoa Mirim, Praia Grande
11 a 13 de março 2026
Apoio Projeto EDGES
Organizadores:
Susana Matos Viegas (ICS-ULisboa, EDGES)
Valéria Macedo (UNIFESP)
Marta Amoroso (USP)
Maria Inês Ladeira (CTI)
Thiago Mota Cardoso (UFAM/EDGES)
Organização: EDGES, CEstA, CTI, LINDI - Cátedra Kaapora/UNIFESP, BNDS / FAM
Locais:
Dia 11 – USP - LISA (manhã) e CEstA (tarde): Rua do Anfiteatro, 181, Colmeia favo 8, Cidade Universitária, São Paulo - SP
Dia 12 – UNIFESP - Parque Tecnológico: Rua Henrique Porchat, 47, bairro Vila Nova, Santos - SP
Dia 13 - Aldeia Tekoa Mirim - Rua Serra da Leoa, s/nº, paralela à Rodovia Governador Mário Covas (Padre Manoel da Nóbrega), Praia Grande - SP
Apresentação:
Este simpósio visa reunir pesquisadores indígenas e não indígenas em torno de uma reflexão sobre territorialidades, significados e relacionalidades envolvendo o mar e povos indígenas que habitam atualmente a longa costa atlântica do Brasil. Contrariando a visão moderna da paisagem como entidade externa destinada à contemplação e/ou da terra como solo destinado ao extrativismo e ocupação, o simpósio convoca reflexões sobre o Atlântico e suas bordas territoriais ou, para alguns povos, suas dobras com outros patamares cósmicos. Isso implica, em primeiro lugar, endereçar a multiplicidade de vidas nas paisagens da mata atlântica, dos brejos, das confluências entre rios e o mar, das passagens da terra arenosa da planície para a terra fértil das serras, dos atravessamentos das rodovias e das mercadorias no turismo e nos portos, e de múltiplas formas de conceber o oceano negligenciadas por uma historiografia sobre o atlântico marcada pela conquista, domesticação e escravidão. O que designamos Atlântico Indígena serve de contraponto ao quadro de pesquisas sobre o Atlântico como espaço “civilizacional”, e complementa, num avesso (e não num oposto), os estudos sobre o Atlântico Negro que, desde a década de 1990 vieram trazendo à cena a violência dos deslocamentos de vidas através desse oceano.
Ao lançarmos uma reflexão sobre o Atlântico Indígena queremos endereçar paisagens invisibilizadas do Atlântico, buscando ainda suas dimensões invisíveis. Particularmente, centraremos foco nas conexões entre o Atlântico e a mata que toma o seu nome, assim como as múltiplas vidas que o conectam em terra firme com rios, mangues e outras bordas, compondo cosmo-existências e cosmopolíticas. Como aponta a etnologia guarani, cada vez mais fortalecida por pesquisadores guarani, o Atlântico como travessia em intensidade para tempos-espaços outros, conectando mar e céu. E, ainda, o Atlântico como massa de areia que borda a costa brasileira e foi apropriada como território do lazer, consumo e contemplação, mas que é, antes e sobretudo, lugar de vidas vincadas na terra por seres leves, como os caranguejos e outros habitantes dos subsolos. Que Atlântico será esse dos pontos de vista indígenas? Esta é a pergunta geral que trazemos para este simpósio.
Dando seguimento a um já longo e antigo debate antropológico, o simpósio mobiliza a perspectiva dos corpos em movimento, que viabilizam e encontram no Oceano partes de terra, em que as ilhas constituem paisagens que reportam a ontologias no extremo oposto ao que o Atlântico da globalização e da conquista tem servido à história dos últimos séculos. Para as vidas indígenas, esse Atlântico da globalização significou invasão, destruindo ou ameaçando seus modos de viver. Mas há ainda muita vida e conhecimento lá onde os olhares da globalização não alcançam ou não reconhecem.
Nascido de uma reflexão sobre a costa atlântica indígena no Nordeste, o simpósio visa promover diálogos entre visões e vivências Guarani às margens do Atlântico com as de povos que vivem no Nordeste. Também está prevista a realização de um segundo simpósio em Manaus em 2027 para integrar as visões do Atlântico do ponto de vista de povos indígenas da Amazônia, nomeadamente do Alto Rio Negro. Partindo de uma publicação de Viegas e Cardoso (2024) sobre as paisagens do Atlântico indígena no Nordeste, da referência do trabalho de Maria Inês Ladeira (2007) e de Valéria Macedo (2009) sobre a orla do Atlântico para os Guarani, o simpósio propõe-se expandir, multiplicar e fomentar um diálogo entre os antropólogos não indígenas que estão envolvidos nestas relações com o Atlântico indígena e pesquisadores indígenas das universidades UNIFESP, USP e UNICAMP.
O simpósio é organizado em cinco Eixos temáticos que fomentam Rodas de Conversa, com apresentações de até 15 minutos seguidos de debate.
Dia 11 de março, USP, Auditório do LISA, 09h00
Abertura com Susana Matos Viegas (ICS-Ulisboa) e Thiago Mota Cardoso (UFAM)
Painel 1, 10h30 - 13h00
As águas na Mata Atlântica (USP)
Mediadora e debatedora: Anaí Veras Brito (PPGAS/USP)
Carlos Papá (Selvagem, Projeto Escolas Vivas): Nhe’ēry – a Mata Atlântica como lugar onde nossas almas se banham
Saulo Kuaray Xunũ (Ação Saberes Indígenas na Escola/ASIE -UNIFESP): O Vale do Ribeira em suas águas doces e salgadas
Susana Matos Viegas (ICS-Ulisboa) e Thiago Mota Cardoso (UFAM): O trânsito entre o mar, o areal e a mata atlântica - perspectivas Tupinambá e Pataxó
Elizabeth Pissolato (UFJF): Imagens da mata no mangue: os bichinhos de caixeta talhados e grafados pelos Mbya Guarani no litoral sul fluminense
José Glebson Vieira (UFRN): Marisqueiras, catadores de caranguejo e ostreicultores entre os Potiguara/PB
Painel 2, USP, CEstA, 15h00 - 18h00
O Atlântico na Amazônia e no centro-oeste
Mediadora e debatedora: Joana Cabral de Oliveira (UNICAMP)
Luiz Medina Guarani (UNICAMP): O mar de longe e de dentro entre os Kaiowa
Vera Lúcia Aguiar Moura Ye'pa Mahsõ (UNICAMP): O rio de leite e o mar Ohpêkõ dihtará (Lago de leite): O fluxo que atravessa o tempo.
Joaci Marangatu Silva Souza (LINDI-UNIFESP): A Amazônia na travessia para o mar: uma caminhada em busca da terra sem males
Marta Amoroso (DA/USP): Outro mito amazônico e sua história: a Cobra Grande dos Mura e o oceano
Dia 12 de março
Painel 3, UNIFESP, Parque Tecnológico, 09h00 - 13h00
O mar no mundo e nas caminhadas Guarani e Tupi Guarani
Mediadora e debatedora: Valéria Macedo (UNIFESP)
Catarina Nimbopyruá (ASIE-UNIFESP): O sonho de meu pai e a retomada de nossa terra no mar
Timóteo Vera Popygua (LINDI/UNIFESP): As águas na formação e transformação do cosmos Guarani
Renato da Silva Wera Mirĩ (LINDI/UNIFESP): Caminhadas nesta terra e travessias para além-mar
Marcos Morreira (UFSC, ASIE-UNIFESP): Grafismos guarani na costa litorânea de SC e as caminhadas e moradas dos antigos
Melissa Vivacqua (Imar-UNIFESP): O Atlântico indígena para além dos horizontes coloniais da ciência moderna sobre as águas
15h00 - 18h00
Mediador e debatedor: Renato Sztuman (USP)
Marilene Pará Reté (LINDI-UNIFESP): Do Mato Grosso do Sul ao Espírito Santo e São Paulo: caminhadas por lugares, línguas e parentes
Reinaldo Peralta Vera Mirī (LINDI-UNIFESP): O desastre das águas de Itaipu e a caminhada ao oceano
Luiza Para Mirī (ASIE/LINDI-UNIFESP) e Amanda Signori (UNIFESP): O extrativismo da Petrobrás no mar e as terras indígenas no Vale do Ribeira
Renzo Taddei (Imar-UNIFESP): Entrelaçamentos possíveis entre a oceanografia e os saberes indígenas
Dia 13 de março
Painel 4, TEKOA MIRIM, 10h00 - 13h00
Entre as matas e o mar, os desafios para definir limites em Yvyrupa
Mediadora e debatedora: Maria Inês Ladeira (Centro de Trabalho Indigenista/CTI)
Edmilson de Souza e Genézio Gonçalves (cacique e vice-cacique da TI Tekoa Mirim: Palavras de boas-vindas aos visitantes
Apresentação do coral infantil
Ronildo Wera Amandios (cacique da TI Paranapuã) e Hugo Salustiano (CTI; PPGAS/USP): Sonhos, mar e o tekoa Paranapuã em São Vicente/SP
Marcelo Hotimsky (CTI): Os Guarani e as ilhas do Complexo Estuarino Lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá
Sérgio Martins Popygua (UniSantos; ASIE-UNIFESP; Comitê Interaldeias): Formação e fortalecimento dos tekoa no litoral sudeste
Painel 5, 14h30 - 17h30
Oguata Porã: caminhadas nesta terra, para paũ (as ilhas) e travessias para além-mar
Mediador e debatedor: Renato da Silva Wera Mirĩ (LINDI-UNIFESP; CGY)
Palavras dos xeramõi e xejaryi:
Jaryi Irondina Para (tekoa Paranapuã, São Vicente/SP)
Xamõi Marcelino Karai Tibes (tekoa Paranapuã)
Xamõi Tiago Franque Wera Mirim (tekoa Pakurity,Ilha do Cardoso, Cananeia/SP)
Xamõi Alcides (tekoa Vy’a, Superagui, Guaraqueçaba/PR)