Autoridade do arquivo, silenciamento dos conflitos (com Rafael Alves Lima)

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Docente responsável pelo evento
Daniel Padilha Pacheco da Costa
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Descrição

Esta conferência reflete sobre o que fazemos nos arquivos ao escrever a história das ciências humanas, tomando como base minha pesquisa de doutorado sobre a psicanálise durante a ditadura civil-militar brasileira (1964–1985). Concentro-me em arquivos públicos concretos (agências estatais, jornais, coleções pessoais e repositórios universitários) e em como sua organização, acessibilidade e silêncios moldam a reconstrução histórica.
Minha tese de doutorado, A Psicanálise na Ditadura Civil-Militar Brasileira (1964–1985): História, Clínica e Política, foi construída principalmente a partir de extensa pesquisa em arquivos públicos, documentos estatais, registros de inteligência e segurança, materiais judiciais e acervos da imprensa, em vez de se apoiar nos arquivos oficiais de instituições psicanalíticas, que foram tratados como objetos de análise e não como base empírica principal. Inspirado pela teoria dos campos de Pierre Bourdieu, pela imaginação sociológica de C. Wright Mills e por métodos prosopográficos, desenvolvi dois eixos analíticos (“rotas de filiação” e “rotas migratórias”) para mapear filiações institucionais e deslocamentos intelectuais na história da psicanálise no Brasil.
Entretanto, esses eixos não foram simplesmente impostos ao material; eles emergiram das próprias restrições e possibilidades oferecidas pelos arquivos. Os arquivos psicanalíticos oficiais, no caso brasileiro, são em geral mantidos sob rigorosa confidencialidade e sustentados por uma política de sigilo que restringe severamente o acesso externo. Como resultado, os caminhos mais confiáveis para a reconstrução de sua história não são os arquivos internos, mas sim periódicos e publicações oficiais, anais e registros de congressos, relatórios de formação e, ocasionalmente, escritos autobiográficos. Sustento que os periódicos funcionam como uma estratégia historiográfica e editorial que estabiliza conceitos e práticas ao mesmo tempo em que obscurece conflitos, exclusões e negociações com o regime ditatorial.
Por outro lado, os materiais que documentam a resistência – publicações freudo-marxistas, ensaios críticos, iniciativas clínicas efêmeras e intervenções politicamente engajadas – encontram-se frequentemente dispersos, preservados de forma precária ou dependentes de arquivos pessoais. Sua condição fragmentária exige criatividade metodológica e levanta questões sobre como historiadores medeiam entre a memória institucional e públicos mais amplos. O chamado “boom psicanalítico brasileiro” dos anos 1970, por exemplo, assume configurações distintas conforme se consultem boletins oficiais de sociedades, jornais de grande circulação ou testemunhos de grupos dissidentes.
Esta conferência, portanto, apresenta dois argumentos interligados. Primeiro, a organização dos arquivos condiciona decisivamente os resultados da pesquisa na história da psicanálise e da psicologia em geral. Taxonomias institucionais, políticas de catalogação e regras de acesso moldam aquilo que pode ser visto como central ou marginal, legítimo ou desviante. Segundo, historiadores da psicologia e da psicanálise participam inevitavelmente da sobrevida desses arquivos: ao selecionar, interpretar e publicar materiais, reforçamos ou desestabilizamos classificações herdadas.
O caso brasileiro também evidencia limitações estruturais e contingentes: coleções incompletas, acesso restrito durante e após o regime autoritário e a digitalização desigual dos documentos. Ao mesmo tempo, a transição para a democracia possibilitou o surgimento de novas iniciativas arquivísticas e de uma “biblioteca psicanalítica crítica” que desafiou a hegemonia institucional. A história da psicanálise sob a ditadura torna-se, assim, um laboratório privilegiado para examinar como instituições arquivísticas, regimes políticos e práticas historiográficas se entrecruzam.
Ao situar minha prática de pesquisa no funcionamento concreto dos arquivos, busco contribuir para uma historiografia reflexiva das ciências humanas – uma historiografia que reconheça tanto as seduções quanto as restrições das instituições arquivísticas e que compreenda a escrita da história como uma mediação negociada entre documentos, poder institucional e compromissos democráticos.

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