Entre os dias 4 e 8 de maio, o Instituto de Estudos BrasileiroS (IEB) em conjunto com o Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP realizou o seminário internacional “Milton Santos Cem Anos: um geógrafo do século 21”. O evento, que ocorreu no Espaço Brasiliana, homenageou o centenário do nascimento de Milton Santos, geógrafo e Professor Emérito da FFLCH.
A mesa de abertura contou com a presença de Adrián Pablo Fanjul, diretor da FFLCH; Marco Antonio Zago, ex-reitor da USP e atualmente presidente da Fapesp; Monica Dantas, diretora do IEB; Marcelo Cândido da Silva, diretor da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin; Anselmo Alfredo, chefe do Departamento de Geografia; François-Michel Le Tourneau, pesquisador de La Maison du Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS) da USP; Orlando Silva, deputado federal do PCdoB; e Karina Saccomanno, pesquisadora do Instituto Çarê.
“Estou muito feliz de ser parte do esforço de conservação desse acervo”, afirmou Orlando Silva, que está retornando ao IEB para visitar o acervo do Milton Santos no Instituto. Foi realizada uma doação de 400 mil reais de emendas parlamentares para a conservação do acervo do geógrafo, assim como será realizada uma publicação de um seminário sobre o pensamento de Milton Santos que ocorreu na Câmara de Deputados, em 2000. O deputado também pontuou que está realizando um projeto de lei para escrever Milton Santos no livro de heróis da pátria brasileira. O livro carrega os nomes das principais personalidades do Brasil, gravados em uma placa de prata no Palácio Central do Brasil.
O professor François esteve presente representando o CNRS, um centro de pesquisa de várias áreas do conhecimento. “A missão que temos [CNRS] aqui é participar da internacionalização da USP, assim como a relação da França com o Brasil”, afirmou. Para ele, a USP está em uma integração intelectual com o país francês e a trajetória de Milton Santos é um exemplo disso, já que o geógrafo teve uma atuação ativa como docente e pesquisador na França e no Brasil.
Já Anselmo Alfredo parabenizou a iniciativa do evento e dos professores do Departamento da Geografia que participaram da organização. Ele afirmou que é muito difícil fazer uma síntese de Milton Santos, pois, o geógrafo representa muita coisa. Para ele, Milton Santos era um crítico das obras no curso da Geografia na FFLCH e contra a perspectiva de normalidade da realidade globalizada. “Ele se colocava como alguém que aceitava plenamente concordâncias e discordâncias em relação àquilo que ele produzia e em relação à forma pela qual ele conduzia as suas exposições em sala de aula”, ressaltou.
Anselmo afirmou que Milton Santos era contra elogios, já que era ativamente a favor da capacidade de crítica que cada indivíduo deveria construir. Milton também criticava a Universidade do seu tempo, que ele considerava com muita burocracia e, que na época, nos anos 1990, encaminhava sua conduta em políticas neoliberais — o que, também, na visão de Milton Santos, necessitava discussão. “A Universidade tem dificuldade de formar intelectuais com a capacidade de Milton Santos”, concluiu.
Adrián Fanjul iniciou sua fala afirmando que, para a FFLCH, o seminário foi muito esperado desde 2025, quando o evento começou a ser planejado. O diretor relembrou a trajetória de Milton Santos na Faculdade, que se tornou Professor Emérito da FFLCH em 1997 e foi um dos primeiros docentes negros da Universidade.
Marco Antonio Zago afirmou que o acervo de Milton Santos é um patrimônio da USP compartilhado com a sociedade. Para ele, a efeméride do centenário de Milton Santos deveria ser comemorada de diversas formas e, quando foi reitor da USP, em 2017, inaugurou a “Praça Milton Santos”, em homenagem ao geógrafo. Zago explicou que as obras de Milton Santos ainda seguem atuais, identificando os territórios como construções sociais.
Mais sobre a vida de Milton Santos
Na segunda mesa do dia, estiveram presentes Marie-Hélène Tiercelin Santos, viúva de Milton Santos; Nina Santos, neta de Milton Santos; Kabengele Munanga, Professor Emérito da FFLCH; Rosa Ester Rossini, professora do Departamento de Geografia da FFLCH; Wagner Costa Ribeiro, professor do Departamento de Geografia da FFLCH; Ana Duarte Lanna, professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP; Manoel Lemes da Silva Neto, professor da PUC Campinas; Rodrigo Hidalgo, representante do Prêmio EGALC Milton Santos; Carlos Toledo Silva, representante da Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB), Paulo Cesar Zangalli, representante da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Geografia (ANPEGE); Karina Leitão, representante da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (ANPUR); e com mediação de Fabio B Contel, professor do PPGH.
Marie-Hélène Tiercelin Santos, viúva de Milton Santos, explicou que sua história com o geógrafo começou quando ele deixou o Brasil, em 1964, em decorrência do golpe civil-militar brasileiro e passou a lecionar na Universidade de Toulouse, onde conheceu Marie. A partir de 1968, o casal começou a viajar pelo mundo visitando universidades. “Não foi uma turnê de rockstar”, afirmou Marie, já que o casal se mudava recorrentemente para novas universidades em diferentes países. Ela destaca que, para além da descoberta de novos mundos, foi nessa fase que Milton Santos descobriu as bibliotecas de universidades dos Estados Unidos e passou por um período de leituras intensas. “Ele ficou maravilhado com a biblioteca do Massachusetts Institute of Technology (MIT)”, declarou.
Durante 13 anos o casal permaneceu viajando, período que Marie chamou de “nomadismo”. Quando houve a possibilidade, a partir da descoberta da gravidez de Marie de seu filho Rafael, o casal decidiu retornar para o Brasil. Entretanto, à época, as universidades brasileiras não quiseram abrigar Milton Santos em suas instituições com receio do que a sua trajetória acadêmica significava no período da ditadura militar no Brasil.
Após alguns anos no Brasil, com um futuro até então incerto, Milton Santos ingressou na USP, em 1972, aos 57 anos. Marie afirmou que o ingresso de seu marido na Universidade foi muito importante para que o geógrafo tivesse alunos que trabalharam com ele por muitos anos seguintes. “Para ele [Milton Santos], a maneira mais importante de trabalhar era ter idéias — que nem sempre eram muito bem definidas —, compartilhá-las com seus estudantes e discípulos, avançar com eles e depois oferecer em aulas”, ressaltou.
“A casa de Milton atualmente não é no cemitério, é no IEB, que muito mais vida dele está à disposição para vocês".
Marie-Hélène Tiercelin Santos
Nina Santos, Secretária Adjunta de Políticas Digitais da Presidência da República, relembrou a trajetória com o seu avô Milton Santos, com quem conviveu até os 13 anos. Ela recorda que em suas férias, quando criança, sempre visitava São Paulo e a Cidade Universitária. No campus, ela frequentava o Instituto Butantã e ia a todas as cantinas da Universidade.
“Meu avô dizia que ninguém olha o mundo a partir do mundo. Cada pessoa olha o universo a partir de onde está”, afirmou Nina ao realizar uma reflexão sobre o panorama histórico atual. Para ela, a humanidade vive um momento histórico muito desafiador, em que a capacidade da sociedade de conhecer e reconhecer o que se passa no mundo se encontra em transformação. Esse cenário, segundo Nina, “cria um nível de fragmentação da realidade que coloca imensos desafios à constituição de um espaço comum de vivência e de sociabilidade”.
Kabengele Munanga, antropólogo e Professor Emérito da FFLCH, afirmou que “falar dos cem anos de Milton Santos, é falar de um Milton Santos que não morreu porque espiritual e intelectualmente ele está vivo”. O antropólogo celebrou a contribuição intelectual de Milton Santos para entender o mundo, principalmente para compreender o que foi chamado de “terceiro mundo” na época.
Munanga relembra o primeiro encontro com Milton Santos em uma palestra sobre questões raciais no Rio de Janeiro. Ao final do encontro, os dois se cumprimentaram. “Ele me diz uma coisa que nunca esqueci: na nossa educação em família, nossos pais não tocavam nesse assunto [racismo]”, ressaltou o antropólogo.
Rosa Rossini, professora do Departamento de Geografia e pioneira nos estudos geografia feminista no Brasil, relembrou seu período convivendo com Milton Santos. “Para mim, é muito difícil falar sobre uma pessoa que adorávamos, que sabia como nunca conversar com as pessoas e, ao mesmo tempo, sabia produzir ciência com competência, se transformando no mais importante intelectual de geografia do Brasil”, destacou.
A professora explicou que a vinda de Milton Santos para o Departamento de Geografia foi muito importante porque, até aquele momento, os geógrafos trabalhavam o espaço como “palco” e, com a sua chegada, passaram a compreender a necessidade de trabalhar o espaço como produto das relações que se estabelecem entre a sociedade e o espaço.
A transmissão completa do Seminário Internacional “Milton Santos Cem Anos: Um Geógrafo do Século 21” está disponível no canal do Youtube do IEB.