Pesquisa analisa as trajetórias de imigrantes haitianos em São Paulo

Estudo mostra como a capital reúne tanto migrantes que seguem rumo ao Norte Global quanto aqueles que decidem reconstruir a vida na cidade
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Redação
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Foto: Montagem com imagens de Luciano Pontes/Agência Senado,rawpixel.com/Magnific e OpenClipart-Vectors/Pixabay
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Desde a década de 2010, o Brasil se tornou um dos principais destinos de imigrantes haitianos em busca de melhores condições de vida. Nesse contexto, uma pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) identificou dois padrões da imigração haitiana na capital paulista: a periferização dos imigrantes que decidem se estabelecer na cidade e a longa jornada daqueles que pretendem seguir para países do Norte Global.

A pesquisadora Thauany Vernacci Brewer Pereira Freire, autora da tese, explica que muitos haitianos migram em busca do chache lavi, expressão em crioulo haitiano que significa “buscar uma vida melhor”. Segundo ela, esse ideal ajuda a compreender por que parte dos migrantes vê São Paulo como um destino temporário antes de seguir para países como os Estados Unidos ou o Canadá. A possibilidade de receber salários em dólar e enviar recursos para familiares que permaneceram no Haiti é um dos principais fatores que motivam essa decisão.

Ao mesmo tempo, a promessa de oportunidades atrai muitos haitianos para a capital paulista. No entanto, as dificuldades de inserção no mercado de trabalho, o racismo, a precarização das relações de emprego e o acesso limitado à moradia fazem com que muitos reconsiderem seus planos.

“Os imigrantes não conseguem morar nas partes mais bem servidas de infraestrutura, por exemplo. As dinâmicas da urbanização e da valorização imobiliária vão empurrando essas pessoas para loteamentos irregulares, com situação jurídica instável. E todo esse conjunto de adversidades vividas em São Paulo entra na conta quando elas avaliam se vão ficar ou se vão partir”, explica Thauany.

Periferização da imigração

A experiência migratória, porém, não se resume ao desejo de partir. Muitos haitianos constroem na cidade um projeto de vida duradouro. A pesquisa identifica um processo de periferização da imigração haitiana em São Paulo. Após chegarem à capital, muitos deixam os abrigos e as regiões centrais para se estabelecer em bairros periféricos, principalmente na zona leste.

Segundo a pesquisadora, o alto custo dos aluguéis, a dificuldade de acesso à moradia formal e a precariedade do mercado de trabalho levam essas famílias a buscar alternativas em loteamentos irregulares e áreas cada vez mais distantes do centro, onde o custo da habitação é menor.

A concentração de haitianos na zona leste não ocorreu por acaso. O estudo mostra que a região passou a reunir uma combinação de moradia mais acessível, redes de apoio entre conterrâneos e a atuação de igrejas evangélicas, que auxiliam os recém-chegados com alimentação, documentação, moradia e acesso a serviços públicos. Esse conjunto de fatores transformou bairros como Guaianases em importantes polos de acolhimento da comunidade haitiana.

Redes de apoio fortalecem a permanência

Além da dimensão religiosa, as igrejas exercem um papel fundamental na construção das redes comunitárias haitianas. É nesses espaços que os migrantes encontram apoio para enfrentar os desafios da chegada, compartilham informações sobre trabalho e moradia e preservam elementos da cultura haitiana, como a língua crioula e os cânticos religiosos.

Segundo a pesquisa, essas redes de solidariedade são decisivas para que muitos haitianos consigam permanecer em São Paulo e reconstruir suas trajetórias de vida.

Reportagem de Talita de Paula Souza publicada no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/noticias/pesquisa-analisa-as-trajetorias-de-imigrantes-haitianos-em-sao-paulo/