A ideia de que bons argumentos possuem um tipo especial de “força” é uma idéia comum a diversas tradições filosóficas: bons argumentos têm a capacidade de compelir e convencer por meios racionais, não por coerção, e de conduzir à verdade e ao consenso. Entre os expoentes recentes de variações dessa visão, podemos citar John Stuart Mill, Jürgen Habermas, John Rawls e Robert Brandom; todos eles oferecem teorias idealizadas da práticas discursivas. Mas como exatamente a “força do melhor argumento” (na terminologia de Habermas) opera em realidades sociais complexas? Tem essa “força” realmente o poder de mudar opiniões, independentemente das circunstâncias? Nesta palestra, apresento as linhas gerais de um modelo alternativo de práticas discursivas que venho desenvolvendo nos últimos anos, com o objetivo de oferecer uma explicação mais realista destas práticas. (A descrição completa encontra-se na minha monografia Reason and Power in Argumentation.) Em particular, o modelo leva em consideração as limitações cognitivas inerentes aos agentes humanos (no sentido de ‘bounded rationality’) e os efeitos das relações de poder para a racionalidade discursiva. Ilustro o poder explicativo deste modelo com uma análise dos debates sobre a controversa figura folclórica de "Pedro Preto" (Zwarte Piet) nos Países Baixos. Como projeto fundamentalmente Kantiano, minha abordagem investiga os limites da racionalidade discursiva, mitigando um otimismo iluminista irrestrito sobre o poder da razão e ao mesmo tempo reconhecendo o papel significativo que os argumentos desempenham em vários domínios (ciência, política, educação, etc.).