Professora emérita Eva Blay recebe Prêmio USP de Direitos Humanos

A socióloga é uma das pioneiras e principais estudiosas na área de direitos humanos e relações sociais de gênero
Por
Eliete Viana
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A professora emérita da FFLCH Eva Blay, premiada na categoria individual, entre o reitor da USP, Vahan Agopyan (à esquerda), e o presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP, José Gregori - Foto: Fábio Nakamura / FFLCH USP


Na manhã do dia 27 de novembro, foi realizada a cerimônia de entrega da 16ª edição do Prêmio USP de Direitos Humanos, na Sala do Conselho Universitário. Na categoria individual, a premiada foi a professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) Eva Blay; e na categoria institucional, a Faculdade Zumbi dos Palmares.

Na abertura do evento, o presidente da Comissão de Direitos Humanos da USP, José Gregori, e docente da Faculdade de Direito da Universidade, fez questão de lembrar de dois nomes que faleceram recentemente: Eduardo Seabra Fagundes, presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) entre 1979 e 1971, e o rabino Henry Sobel, que tiveram forte atuação em defesa dos Direitos Humanos, principalmente durante a ditadura militar. 

“Numa manhã como essa é um misto de emoções. Fazer referência à dimensão de tristeza. Porque nestas últimas semanas a comunidade dos Direitos Humanos perdeu dois valorosos combatentes, que na hora do desafio que a vida sempre nos causa eles fizeram o que devia ser feito, em nome próprio e em nome de toda coletividade que representavam”. 

“Não há salvação fora dos Direitos Humanos”

Gregori ressaltou a importância do Prêmio USP de Direitos Humanos para distinguir e homenagear pessoas que defendem os desafios da nossa sociedade. “O papel da mulher, sobretudo numa hora em que a mulher está em uma posição ascendente e começa a enfrentar um tipo até de revanche e o problema de justiça e acesso à universidade”, comentou referindo-se às áreas de atuação de Eva Blay e da Faculdade Zumbi dos Palmares.

E, apesar de alguns retrocessos que o País vem enfrentando, demonstrou confiança. “Eu queria renovar a minha esperança na proposta dos Direitos Humanos. Eu ainda acho que ela é útil, eficaz e fora dela não há espaço para racionalidade. Não vejo possibilidade do Brasil enfrentar os seus problemas sem pensar nos Direitos Humanos. (...) Os meus mais de 80 anos ensinaram que, certas coisas, que são enraizadas no campo dos Direitos Humanos não podem ser tiradas. Porque a sociedade acaba repondo. (...) Em vez de tirar, deve-se procurar acrescentar, pois não há salvação fora dos Direitos Humanos”, frisou o ex-ministro da Justiça e ex-secretário nacional de Direitos Humanos. 
 

Eva Blay
Ao longo de sua carreira, Eva recebeu diversas distinções e prêmios. Entre eles, pode-se destacar a sua inclusão no grupo de 1000 mulheres indicadas para o Nobel da Paz, em 2005 - Foto: Fábio Nakamura / FFLCH USP


Pioneirismo 

A saudação à Eva Blay foi feita pela integrante da Comissão de Direitos Humanos da USP Maria Hermínia Tavares de Almeida, que é docente do Departamento de Ciência Política da FFLCH. Ela comentou sobre a trajetória da homenageada, pontuando sua atuação em defesa da igualdade de gênero, mesmo nos momentos mais conturbados do País. “Ela faz parte de um grupo de feministas que lutaram na ditadura militar”.

As linhas de pesquisa de Eva Blay concentram-se em relações sociais de gênero: sexualidade, democracia, identidade, juventude, participação política, relações internacionais, violência contra a mulher, participação política e gênero, trabalho feminino, habitação popular, planejamento urbano, imigração e imigração judaica.

Entre os destaques da carreira, Maria Hermínia enfatizou a atuação de Eva fora da universidade, como primeira presidenta do Conselho Estadual da Condição Feminina do Estado de Paulo (1983-1985) e o mandato parlamentar como senadora da República (1992-1995). 

“Dentro da USP, a luta não foi fácil, visto que a primeira reitora foi eleita em 2005. Dentro da FFLCH, somente em 2002 teve uma vice-diretora [Eni de Mesquita Samara], em 2008 a primeira diretora [Sandra Margarida Nitrini] e agora está vigente o mandato da segunda diretora [Maria Arminda do Nascimento Arruda, desde 2016]”, ressaltou. 

Maria Hermínia lembrou que, mesmo assim, a professora Eva criou o primeiro curso de graduação e pós-graduação sobre a mulher na USP, fundou e coordenou os trabalhos do Núcleo de Estudos da Mulher e Relações Sociais de Gênero (NEMGE); além de ter sido a primeira coordenadora do Escritório USP Mulheres, de 2016 a 2019. E, por fim agradeceu. “Gostaria de expressar gratidão e orgulho por nós [mulheres] e por suas alunas, por tudo que você fez”. 

Vamos resistir

Antes de iniciar o seu discurso, a homenageada dedicou o prêmio à Maria Isaura Pereira de Queiroz (1918 – 2018), também professora emérita da FFLCH, “que foi importante para a Sociologia em geral” – pois sua obra se divide em pelo menos três áreas: análise da política por meio dos movimentos religiosos; os estudos rurais; e os estudos sobre a cultura brasileira: histórias de vida, relações de gênero e o carnaval.

Para chamar atenção sobre a relevância do estudo sobre as mulheres, a professora comentou sobre a Revolução Francesa (1789 – 1799), “que em resumo queria a abolição de privilégios, mas sobre a qual não se fala o que as mulheres fizeram”, para demonstrar que é necessário ter outras visões de mundo. 

Eva destacou o período de três anos que esteve como coordenadora do Escritório USP Mulheres, a importância da autonomia da USP para debater as questões da sociedade e que “não podemos interromper este processo de aprendizado e ensino”.

Como uma mulher sintonizada com o tempo atual, a professora tocou na questão sobre “a ideologia de gênero”, que muitas pessoas dizem ser contra no País atualmente, ressaltando que mais do que nunca devemos pensar nas relações sociais de gênero, mudando a linguagem, por exemplo. “Isso é importante, porque no País estamos vivendo uma luta, uma guerra de gênero. E, quando excluímos o termo gênero, estamos excluindo todas as lutas que foram feitas e conquistadas na área”. 

Segundo a professora, o atual governo, ao excluir o termo gênero, está retirando apoio de políticas públicas voltadas para a área e alerta que “através das palavras se pode criar o fanatismo. Exalta o patriarcado, uma pátria e uma religião. Mas, isso não é bom, porque isso vai contra os direitos humanos, [que é integrar e não privilegiar apenas uma religião, por exemplo]”. E, concluiu, com a força de uma pioneira: “Vamos resistir. Nós temos um caminho percorrido e vamos continuar percorrendo”.

“Bom dia, Zumbi dos Palmares!”

Na categoria institucional, a Faculdade Zumbi dos Palmares foi a homenageada, sendo representada pelo seu reitor, José Vicente, advogado e sociólogo. A responsável pela saudação foi a professora da Faculdade de Direito Eunice Aparecida de Jesus Prudente, também integrante da Comissão de Direitos Humanos da USP. 

“É uma honra muito grande falar sobre a Zumbi dos Palmares. O Brasil se orgulha do cidadão José Vicente e também da instituição Zumbi dos Palmares”, destacou citando também o papel social dos cursos da Zumbi. “Tem cursos para formar estudantes advindos, principalmente das famílias trabalhadoras. São 1400 estudantes, sendo que 1100 são pretos e pardos”.

Vicente pediu licença ao reitor da USP para saudar Zumbi dos Palmares, dizendo: “Bom dia, Zumbi dos Palmares!”. “É preciso lembrar dele e dos que vieram antes. Estamos aqui porque tiveram outros que construíram tantas pontes, tantos caminhos. “Estou à frente desta instituição, mas poderiam ser outros”.
 

José Vicente
Na categoria institucional, a Faculdade Zumbi dos Palmares foi a homenageada, sendo representada pelo seu reitor, José Vicente, advogado e sociólogo - Foto: Fábio Nakamura / FFLCH USP


Ele fez um histórico sobre a vida e a atuação de Zumbi em favor do seu povo, passando pela luta dos negros até hoje e o processo que resultou na criação da Faculdade, aberta ao público em 20 de novembro de 2004. “Chegamos hoje aos 15 anos de vida da Zumbi dos Palmares. Estamos fazendo a parte que nos cabe [nesta luta] e que valoriza a população negra. (...) É justa e merecida esta premiação. É o mínimo que a academia e o Estado de São Paulo deve a esta luta”, disse emocionado.

Mesmo com o fortalecimento de uma “instituição voltada para a inclusão, para a qualificação e para o protagonismo do negro brasileiro”, como está na descrição do site da Faculdade, Vicente não deixou de lutar por mais políticas de igualdade, como as cotas e as ações afirmativas nas universidades públicas como a USP. “37% do corpo discente da USP atualmente são de negros e eles continuam chegando”, comemorou. E, finalizou exaltando a importância da diversidade. “A diversidade é nossa, ela nos fortalece, ela nos faz melhor".

“Põem em práticas os seus ideais”

No encerramento, o reitor da USP, Vahan Agopyan, falou da importância de manter e estabelecer uma cultura dos direitos humanos na universidade, parabenizou a Comissão pela iniciativa da escolha dos indicados ao prêmio, pois “estamos homenageando duas personalidades que põem em prática os seus ideais”, comentando resumidamente sobre as trajetórias deles. 

“Sobre Eva Blay podemos falar da questão de gênero e da própria integração judaica. A implantação do Escritório USP Mulheres causou uma mudança no comportamento da universidade, pois a professora é uma executora e não apenas uma teórica sobre o assunto”, ressaltou.

Em relação à Faculdade, frisou que “a trajetória de José Vicente se confunde com a instituição, que se preocupa com a inclusão dos jovens negros no mercado. Ela não ensina somente a pescar o peixe, mas a prepará-lo também (...) Avançamos muito, mas há muito a se fazer. A luta pelos direitos humanos deve ser constante".

 

Maria Arminda e Eva Blay
A diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda (à esquerda) também esteve presente na cerimônia de premiação de Eva, que é sua colega do Departamento de Sociologia na Faculdade - Foto: Fábio Nakamura / FFLCH USP


Edição de 2018 

O Prêmio USP de Direitos Humanos foi criado pela Comissão de Direitos Humanos da Universidade em 2000, com o objetivo de identificar e homenagear pessoas e instituições que, por suas atividades exemplares, tenham contribuído significativamente para a difusão, disseminação e divulgação dos direitos humanos no Brasil. 

No ano passado, o premiado foi o professor titular sênior da FFLCH Kabengele Munanga. A distinção foi concedida pela renomada carreira acadêmica, com pesquisas nas áreas de Antropologia da África e da População Afro-Brasileira, somada à militância contra o racismo e em defesa dos direitos humanos, tendo sido um dos protagonistas no debate nacional em defesa das cotas e ações afirmativas.