Nascimento de Túpac Amaru II

“O movimento liderado por Tupac Amaru se enquadra em um conjunto muito mais amplo de rebeliões do século XVIII no vice-reino do Peru.” explica, em entrevista, o professor Eduardo Natalino dos Santos

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Lara Tannus
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Tupac Amaru II foi assassinado pelas autoridades metropolitanas, mas deixou seu legado para posteriores revoltas latino-americanas. (Arte: Renan Braz) 
Tupac Amaru II foi assassinado pelas autoridades metropolitanas, mas deixou seu legado para posteriores revoltas latino-americanas. (Arte: Renan Braz) 


Em 19 de março de 1742 nascia em Cuzco, no Peru, um dos principais líderes revolucionários do continente americano. Inspirado nos ideais iluministas, o líder curaca se rebelou junto à elite criolla contra a colonização espanhola.

O líder, cujo nome original era José Gabriel Condorcánqui Nogueira, denominou-se Tupac Amaru II e se declarou o herdeiro do líder inca Tupac Amaru, que resistiu à colonização do espanhola do século XVI. 

Abaixo, o professor Eduardo Natalino dos Santos, do Departamento de História da FFLCH-USP, nos explica o que significou a liderança de Tupac Amaru II para a história da América do Sul:

“O movimento liderado por Tupac Amaru se enquadra em um conjunto muito mais amplo de rebeliões do século XVIII no vice-reino do Peru. 

Destaca-se pela abrangência regional e desdobramentos, com outros Tupacs (seus filhos e os Tupacs Katari, na região da Bolívia), mas também pela junção inicial de interesses locais (de espanhóis nascidos na América com as elites indígenas, da qual Tupac Amaru fazia parte). 

Por essa razão, foi considerado por muito tempo como uma espécie de movimento proto-nacional ou pré-independentista. No entanto, conforme o movimento se desenvolve, ele permite que um projeto mais indígena e menos conciliador venha à tona e isso gera rupturas entre os dirigentes do movimento e esse projeto menos elitista. Por exemplo, na questão do anti-clericalismo. 

Tupac Amaru não era anti-clerical, mas grande parte da base da rebelião era. Esses movimentos foram reprimidos com grande violência e, na memória posterior, eles figuram, em geral, como símbolos da luta contra a opressão colonial. Daí a ideia da continuidade de movimentos tupamaristas e kataristas até os dias de hoje, marcados por projetos políticos de base indígena (respeito às terras da comunidade, por exemplo) em conjunção com ideias da esquerda (de uma sociedade menos desigual em termos econômico, por exemplo).