Professor Milton Santos é homenageado pela Faculdade e pelos alunos de Geografia

O Auditório de Geografia, do edifício Eurípedes Simões de Paula, mais conhecido como prédio de Geografia e História, recebeu oficialmente o nome do geógrafo e professor
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Eliete Viana
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professor Colângelo e professora Maria Arminda
O chefe do Departamento de Geografia, Antonio Carlos Colângelo, e a diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, participaram da cerimônia de homenagem a Milton Santos - Foto: Cicero Wanderberg / STI-FFLCH


Na noite de 6 de agosto, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e os alunos de Geografia homenagearam o professor Milton Santos dando o seu nome ao Auditório de Geografia, no edifício Eurípedes Simões de Paula, mais conhecido como prédio de Geografia e História.

O geógrafo Milton Santos (1926-2001) foi professor titular do Departamento de Geografia da FFLCH, onde lecionou Geografia Humana de 1983 a 1997, e da qual recebeu o título de professor emérito. Considerado como um dos principais estudiosos de sua área, destacam-se, em sua obra, os estudos sobre a urbanização nos países subdesenvolvidos.

A homenagem foi realizada durante o primeiro dia de atividades da I Semana de Geografia da África: A diáspora em discussão. Essa Semana foi idealizada após o trabalho de campo feito na disciplina optativa Geografia Regional I – África, ministrada pelo professor Eduardo Donizeti Girotto, no primeiro semestre deste ano, no qual visitaram comunidades de matriz africana na Costa do Dendê, Bahia.

Após esse trabalho de campo, os estudantes da disciplina e com apoio do professor, organizaram de forma coletiva uma exposição, mesas de debates e mapas de localização dos territórios visitados, com o intuito de demonstrar as vivências, aprendizados e reflexões realizadas.

Homenagear a memória

Como nesta disciplina a proposta era analisar o processo de formação do território africano, abordando também o movimento negro organizado e a luta contra o racismo e a discriminação, os alunos aproveitaram o momento para fazer uma cerimônia oficial de nomeação do auditório. Para este acontecimento, os estudantes de Geografia fizeram um abaixo-assinado indicando o professor para nomear o espaço e levaram a proposta até à direção da Faculdade.
 

exposição da I Semana de Geografia da África: A diáspora em discussão
Exposição de imagens captadas durante o trabalho de campo em comunidades de matriz africana na Costa do Dendê, Bahia, apresentada durante a I Semana de Geografia da África: A diáspora em discussão - Foto: Cicero Wanderberg / STI-FFLCH


A diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, cumprimentou os estudantes e o Departamento de Geografia pela iniciativa de tornar o auditório um espaço dedicado à memória do professor Milton Santos.

“Quando a proposta chegou a mim eu disse “a Faculdade apoiará imediatamente”. Não só pela justiça, pela importância que significa ter tido uma figura como o professor Milton Santos entre os professores da nossa instituição e por tudo que ele representou e representa em todos os campos, sobretudo o intelectual ímpar, uma figura que representava todo o universo de direitos”, declarou a diretora.

Para Maria Arminda, a nomeação foi até tardia, visto que o docente já recebeu outras homenagens externas. “Uma figura como o professor Milton Santos, que só engrandece e engrandeceu a Faculdade de Filosofia, era uma pessoa que, de fato, merecia uma homenagem da Faculdade”.

Sobre a homenagem, a diretora falou sobre o seu significado. “Acho essas iniciativas fundamentais, porque elas marcam a história de uma instituição, afirmam identidades, homenageiam as pessoas que deixaram uma história. Quando nós celebramos, reconstruímos e homenageamos a memória de alguns nós estamos falando daquilo que valorizamos, do que acreditamos e o que queremos homenagear”.

O chefe do Departamento de Geografia, Antonio Carlos Colângelo, disse que, apesar da nomeação tardia, o nome escolhido para o auditório só poderia ser o de Milton Santos, visto que “o professor é o maior geógrafo de todos os tempos”, ressaltou.

Debate

Depois dos representantes da FFLCH, foi a vez dos convidados da mesa de debate falarem sobre as contribuições e a importância do professor.

A geógrafa Taís Telles destacou o que é ser negro no Brasil e citou frases de estudiosos e importantes nomes da causa negra, como o professor aposentado da FFLCH Kabengele Munanga; Abdias do Nascimento (1914-2011); Lélia Gonzalez (1935-1994) e o próprio Milton Santos (1926-2001), o qual citou que dizia: “ser negro é estar constantemente submetido a um olhar enviesado e ambíguo, pois a escravidão marcou o território, o país e as relações”.
 

participantes da mesa de debate e organizadores do evento
Participantes da mesa de debate e alunos organizadores do evento - Foto: Cicero Wanderberg / STI-FFLCH


Taís questionou a demora do professor ser homenageado dentro da própria Faculdade e o fato de sua obra ainda ser pouco lida na universidade, mesmo na USP, na qual ele lecionou. Pois, segundo ela, o professor teve a audácia de olhar o país de dentro, prova de que “ser negro é também produzir intelectualidade”, declarou.

“Dar nome também pode ser entendido como uma forma de destacar uma memória”, ressaltou a professora da rede municipal de ensino Amanda Lima, cujo título do seu Trabalho de Graduação Integrado foi Memórias da população negra da cidade de São Paulo: Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos (1725- 1904), apresentado em 2017 na FFLCH, abordando a demolição desta igreja e os seus significados.

No trabalho, ela avaliou que o contexto da demolição é relacionado com o branqueamento que era visto como meta nas cidades na época. Para exemplificar o apagamento da memória negra em São Paulo, Amanda também lembrou que antigamente o bairro da Liberdade, hoje associado principalmente aos japoneses e seus descendentes, tinha forte presença negra, mas isso foi esquecido ao longo da história.

E, por isso, é importante o resgate e a lembrança das memórias dos negros. “Agora temos a nomeação do auditório como Milton Santos, mas até quando teremos outras memórias reprimidas?!”, finalizou a também integrante do Núcleo de Estudantes e Pesquisadoras Negras do Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo (NEPEN GEO-USP), colocando o questionamento aos presentes.

Dialogando com as falas das outras convidadas, o pesquisador da Unifesp Antonio Carlos Malachias, mais conhecido como Billy, disse que “é preciso agradecer pela luta para nomear este espaço como Milton Santos”.

Billy colocou o professor entre os grandes geógrafos do Brasil, junto com Aziz Ab’Saber (1924-2012), e Manuel Correia (1922-2007), e o mais conhecido do país no exterior e que passou a ser reconhecido fora da área da Geografia também, o que já seria um ótimo motivo para ele ser mais lido na universidade, segundo ele. Porém, para o pesquisador e ativista de questões raciais, como ele se apresenta, isso não ocorre porque “a branquitude é um fator que impede que ele seja mais lido na USP”.

Por tudo isso, Billy declarou que é preciso reivindicar a negritude de Milton Santos, pois pensar a questão racial com recorte negro é discutir o Brasil.
 

quadro Milton Santos
Quadro em homenagem ao professor, que está afixado na entrada do auditório que leva seu nome - Foto: Cicero Wanderberg / STI-FFLCH


Outras discussões

No dia 7 e 8 de agosto, terça e quarta-feira, também aconteceram mesas de debates. Na terça-feira, o tema foi Resistências Pretas em São Paulo, com a participação de Erica Malunguinho do Aparelho Luzia; Pai Babalorixá Celso de Oxaguian, da Casa Ile Àse Igbin de Ouro; e Salloma Salomão, músico, historiador e professor na Fundação Santo André.

No último dia de discussões, a temática foi Mulheres Negras na dáspora, com a presença de Charô Nunes, do Blogueiras Negras; Jaqueline Conceição, do Coletivo Di Jejê; e Regimeire Oliveira Maciel, da Universidade Federal do ABC.