Processos seletivos para ingresso em instituições de ensino superior promovem desigualdade

Pesquisa da USP reconhecida com menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2023 estudou como os processos seletivos para ingresso em instituições de ensino superior indicam a preferência por perfis específicos de estudantes

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Thais Morimoto
Data de Publicação

Vestibulandos lista para realizar a prova da segunda fase da Fuvest
Vestibulandos conferem a lista para realizar a prova segunda fase da Fuvest. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

A jornada do estudante até a instituição de ensino superior (IES) é marcada por provas, redações e entrevistas. No meio do caminho pode até surgir o questionamento se aquele curso escolhido é o ideal. O encontro entre aquela vaga específica e o estudante foi justamente o objeto de estudo de pesquisa da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

Defendida no âmbito do programa de pós-graduação em Sociologia, a tese de doutorado Quando estudantes e vagas precisam se encontrar. Por uma sociologia dos processos de pareamento compreendeu a desigualdade existente no acesso a algumas carreiras nas IESs. 

Ana Carolina Silva Andrada
Ana Carolina Silva Andrada. Foto: Arquivo pessoal

Ana Carolina Silva Andrada, autora da pesquisa, estudou a história dos processos seletivos de instituições de ensino superior públicas e privadas do Brasil, por meio de documentos das instituições e de entrevistas com funcionários do Ministério da Educação e estudantes no fim do ensino médio. 

Segundo a pesquisadora, a partir da escolha da modalidade de processo seletivo, a IES prioriza alguns perfis de estudantes. “Essas decisões depois impactam no resultado: uma estrutura desigual de acesso ao ensino superior, com a limitação dos perfis que chegam na IES pública”, afirma a pesquisadora. As pessoas com menos acesso ao ensino superior também são prejudicadas no acesso ao mercado de trabalho.  

Nas IESs, há ainda diferenças nas carreiras. “A gente não pode só olhar para as instituições, temos que olhar para os cursos também. Então uma coisa é a composição do curso de Medicina na USP, por exemplo. Outra coisa é a composição de Ciências Sociais, que é de onde venho”, explica Ana.

Menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2023

Símbolo do Prêmio Capes
Logotipo do Prêmio CAPEs de Tese, um indicador da qualidade do trabalho. Foto: CGCOM/CAPES

Agraciada com menção honrosa no Prêmio Capes de Tese 2023, Ana se juntou a outros 13 pesquisadores da USP que foram reconhecidos pela premiação, conforme apurado em reportagem do Jornal da USP. A menção honrosa foi uma grande conquista para a pesquisadora da FFLCH. 

“Fazer o doutorado foi um processo muito desafiador, tive dois filhos e teve a pandemia de covid-19. Ter conseguido encerrar e defender já foi muito gratificante para mim. Quando veio o reconhecimento pela menção honrosa, recebi com um misto de surpresa e felicidade”, diz.

Ana ainda reconhece que a menção honrosa só foi possível com a estrutura fornecida pela USP, o apoio da orientadora e professora Nadya Araújo Guimarães, e as políticas de fomento à pesquisa.

Escolas públicas x privadas

Ao analisar duas escolas públicas e uma privada, Ana percebeu que estudantes de escolas públicas possuem menos acesso às informações sobre o ingresso no ensino superior do que estudantes de escolas particulares.

“No caso da escola privada, por exemplo, o acesso dos estudantes a informações, como data do vestibular, quanto custa as inscrições e as oportunidades oferecidas é muito presente, principalmente sobre as instituições de ensino superior públicas de maior prestígio”, afirma. “Por outro lado, na escola pública a informação sobre essas instituições de ensino superior circula muito pouco; o que circula muito é propaganda de instituição de ensino superior privada e oportunidade de bolsa ou de desconto”, compara. 

A pesquisadora ressalta que os três casos analisados não são isolados e podem servir de subsídio para indagar o funcionamento do ensino de modo geral. Ana então se questiona como estudantes de escolas públicas conseguem ter o acesso à oportunidade de se preparar, estudar e fazer as provas de vestibulares, reconhecendo que esse é o caminho para chegar à instituição de ensino superior. 

Candidatos realizam prova da primeira fase do vestibular
Candidatos realizam prova da primeira fase do vestibular Fuvest 2019. Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Soluções

Para mitigar a desigualdade no acesso ao ensino superior, Ana Carolina questiona “como podemos pensar em estruturas que possibilitem às pessoas fazerem aquilo que elas têm vontade de fazer e que elas possam fazer de uma maneira que seja bom para todo mundo?”. 

Um dos agentes nesse processo é o Estado. Por meio da criação das políticas de ação afirmativa, por exemplo, é possível diversificar o público nas instituições de ensino superior. “Ter políticas de ação afirmativas faz com que os estudantes que estão saindo do ensino médio percebam que tem vaga para eles e que eles também são os estudantes que essas instituições de ensino superior querem”, afirma a pesquisadora. Essas políticas também auxiliam na diversificação nos perfis de alunos que entram em cursos mais elitizados, como a medicina. 

Além do Estado, Ana ressalta como as instituições de ensino público podem atuar na diversificação dos estudantes ingressantes. “Por meio de políticas na própria instituição de ensino superior, ela pode se fazer presente como uma oportunidade para os estudantes de escola pública, como ocorre nas escolas privadas, que todo mundo sabe que a USP existe e como que faz para entrar nela”.

Estudante de escola pública
Estudantes de escolas públicas serão beneficiados com o Convênio entre a FFLCH e a Seduc. Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Ciente dessa necessidade, a FFLCH assinou um convênio com a Secretaria de Educação do estado de São Paulo (Seduc). A parceria visa “esclarecer os estudantes da rede estadual de ensino sobre as possibilidades de cursos e formações na universidade e, ao mesmo tempo, ter esse acompanhamento sistemático dos ingressantes”, de acordo com José Clóvis de Medeiros Lima, assessor de relações institucionais da FFLCH.

Para Ana, ações como a do convênio são essenciais para criar um canal direto entre a instituição de ensino superior pública e a escola pública. Mas segundo a pesquisadora, “é essencial pensar no alcance disso, para que de fato a USP seja uma presença nas escolas públicas pelo menos no estado de São Paulo”.

A pesquisadora também ressalta a necessidade das políticas de permanência. “Elas são centrais porque não adianta nada termos um encontro e depois o encontro não se manter, porque o estudante não tem onde morar, por exemplo”. 

 

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