Em visita à Faculdade, escritor Pepetela fala de suas obras e trajetória

A presença do autor angolano faz parte das atividades do VI Colóquio Internacional Áfricas, Literatura e Contemporaneidade. Na ocasião, ele também lançou dois livros
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Eliete Viana
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Editoria


 

mesa do evento
Pepetela é observado (da esq. p/ dir.) pela diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, por Rita de Cássia Natal Chaves e Tania Celestino de Macêdo - as duas últimas da área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas - Foto: Editora Kapulana


O escritor Pepetela participou, na noite do dia 16 de outubro, da Conversa com o autor, que faz parte do VI Colóquio Internacional Áfricas, Literatura e Contemporaneidade, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. 

O público lotou a sala 14 do prédio de Filosofia e Ciências Sociais, onde o evento foi realizado, e, por isso, a atividade teve transmissão simultânea em mais duas outras salas do mesmo prédio e a transmissão on-line pelo canal da FFLCH no YouTube. Além da comunidade da FFLCH e da USP, pode-se destacar que a vinda de Pepetela despertou o interesse da comunidade externa, por causa da grande presença de alunos do Ensino Médio e seus professores. 

Em sua participação, Pepetela falou sobre sua trajetória de vida e suas obras – pelo conjunto, ele recebeu o Prêmio Camões, considerado o mais elevado em língua portuguesa, em 1997. E, depois da conversa, realizou o lançamento e sessão de autógrafos de dois livros: O quase fim do mundo e O cão e os caluandas, ambos pela Editora Kapulana.

“Um alento para nós” 

Antes de começar a conversa, a professora Rita de Cássia Natal Chaves, da área de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH, fez questão de lembrar algumas questões sobre o convidado, apesar de afirmar que ele dispensaria apresentações. 

“Nós estamos diante de um autor, que é também um grande personagem. Aliás, me parece que esta é uma marca das literaturas africanas de língua portuguesa. Cada autor é personagem de uma narrativa que talvez ainda não tenha sido escrita. Mas, com a qual nós dialogamos sempre que lemos os seus livros. O Pepetela, além do autor de todos estes livros que conhecemos (...), ele é também autor de uma história maior, que é a história de Angola. Fez parte da criação deste país de Angola. Ele trabalhou antes, durante e depois do processo revolucionário”, resume Rita. 

A docente continuou sua apresentação enfatizando como a história do escritor angolano pode nos inspirar. 

“A história do Pepetela, a história que ele conta em cada livro é uma história com a qual nós podemos aprender muito para tentar transformar este momento doloroso que nós estamos vivendo. Eu acho que isso reclama a nossa crença. Não é possível gostar de literatura e não gostar de gente. Não é possível gostar de literatura e não pensar em justiça social. Não é possível gostar de literatura e desprezar a educação. Então nós já sabemos que aquilo que nós estamos sofrendo hoje é porque temos no poder gente que não gosta de literatura. E nós gostamos de literatura e gostamos do Pepetela! (...) A presença dele traz um alento para nós”.

A professora Rita também agradeceu a presença da diretora da FFLCH, Maria Arminda do Nascimento Arruda, ressaltando que era a primeira vez que um evento da área de literatura africana de língua portuguesa contava com a presença da direção da Faculdade.

“A honra é da Faculdade de ter um escritor como Pepetela [em um evento]”, declarou Maria Arminda, que disse ter feito questão de vir ao evento e acredita que a grande renovação da literatura em língua portuguesa vem da África. “Como diretora, tenho apoiado e apoiarei as iniciativas nas relações entre Brasil e África”. 

O escritor angolano iniciou sua fala agradecendo à Editora Kapulana, que o trouxe ao Brasil desta vez, e disse que preferia já dar espaço para o público fazer perguntas ao invés de falar diretamente sobre ele. Abaixo, seguem alguns temas abordados durante a conversa. 
 

Pepetela
O escritor angolano Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos adotou o nome de guerra de Pepetela, que significa “pestana” na língua Umbundo, o qual também passou a utilizar como pseudônimo literário - Foto: Editora Kapulana 


Mayombe 

Como uma das obras mais conhecidas do autor no Brasil é Mayombe, muitos questionamentos sobre este livro surgiram, o qual foi escrito durante a participação de Pepetela na guerra de libertação de Angola na década de 70. O livro integra a lista de obras literárias de leitura obrigatória para o vestibular da Fundação Universitária para o Vestibular (Fuvest), responsável por selecionar alunos para os cursos da USP. 

“É uma grande responsabilidade. Uma honra”, afirmou sobre o livro estar na lista da Fuvest, para em seguida dizer que a obra está servindo, muitas vezes, como um primeiro passo para os leitores conhecerem seus escritos. “Mayombe tem sido um Cavalo de Troia, como um vírus bom que puxa para outros livros”, destacou, fazendo alusão à armadilha que os gregos usaram para encerrar a Guerra de Troia e tornarem-se vitoriosos.

“Quase todo o livro foi escrito na guerrilha. É difícil certamente, e fisicamente porque escrevi a mão. A ficção ajudava a compreender a realidade. Dizia que escrevia para aprender e isso é um fato”, relatou.

Sobre este período, ele lembrou que chovia todos os dias à noite, por isso ele enrolava os escritos em um plástico, que não era muito fácil de se encontrar, e enterrava em algum buraco que só ele sabia. E brincando, ele disse que daria uma dica para quem quer escrever em uma guerrilha. “Tentar preservar o braço com o qual se escreve”, provocando risos no público presente.

Pepetela disse não se identificar com algum personagem específico do livro, apesar de muitos o identificarem. “Acho que nunca há uma identificação total com algum personagem. A identificação é parcial”, porque se tiver uma correspondência por completo será uma biografia e não ficção, afirmou. 

Professor e ministro 

As experiências em outras atividades também foram abordadas pelo público. O autor é graduado em Sociologia, tendo estudado na Argélia, e atuou como professor da área por muitos anos, no curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Agostinho Neto, em Luanda, capital de Angola. 

“Conseguia captar praticamente toda a cidade através dos trabalhos dos alunos. Porque, eles tinham de fazer trabalhos sobre os bairros [de Luanda], contou, dizendo que esses conhecimentos, diretamente ou indiretamente, entraram nos livros. “Para escrever sobre Luanda era preciso ter informantes locais”. 

No governo, após a independência de Angola em 1975, ele se tornou vice-ministro da Educação, exercendo o cargo até 1982. E Pepetela apontou diversas realizações obtidas durante o período: o ingresso das crianças no ensino obrigatório aos 6 anos de idade, foi aprovado, em 1977, o novo sistema de ensino e implantado em três anos. “Muito rápido, demasiado rápido, e muito ambicioso. Porque tinha a meta de ter todas as crianças em idade escolar na escola”, ressaltou. Mas, mesmo assim, lamentou não ter conseguido fazer a reformulação do ensino superior também.

E, ainda sobre este período, fez um balanço dos resultados. “Fiz aquilo que era preciso fazer. Tenho uma consciência tranquila, de quem fez o que pôde (...) Não conseguimos o maior objetivo que era ter justiça social. Porém, temos o orgulho que as pessoas sentem em ser angolanas. Antes, muitas pessoas eram consideradas sub-humanas, hoje a maioria tem direitos sociais”. 

auditório lotado

A participação de Pepetela no evento despertou o interesse da comunidade externa, assim como dos integrantes da própria Faculdade e da USP - Foto: Editora Kapulana 


Literatura

Apesar de achar que antigamente a literatura era mais importante, porque antes existiam poucos meios para divulgar certos valores morais de uma sociedade, por exemplo, Pepetela acredita que a literatura “continua a ser fundamental. Não porque resolva problemas. [Porque] Não tem que resolver problemas! Porém, chama a atenção para o que se passa. E ainda é importante para divulgar os valores morais”.

Em outro momento, o papel da literatura voltou a ser debatido, quando perguntaram se ele enxerga a literatura como arma política. “A nível de despertar a consciência sim. Mas, não como um programa de ação. Não é a literatura que tem de descobrir os caminhos!”, voltou a ressaltar.

Sobre a obra da sua vida, respondeu que “eu ainda não escrevi este livro!”, para logo fazer uma comparação com o futebol. “É como o jogador de futebol, o qual pensa que sempre vai fazer o melhor gol da sua vida no próximo dia”.
 

público assistindo a transmissão em outra sala
Como o público lotou a sala 14 do prédio de Filosofia e Ciências Sociais, onde o evento estava sendo realizado, a atividade teve transmissão simultânea em mais duas outras salas do mesmo prédio e a transmissão on-line pelo canal da FFLCH no YouTube - Foto: Editora Kapulana
 

Passado e presente 

Além dos momentos nos quais comentou sobre sua participação na guerra, na atividade docente ou no governo, ele refletiu sobre o passado ao falar o que diria para o Pepetela do início de sua vida como escritor. 

“Talvez dissesse que ia escrever um caminho arriscado, que nem sempre dá certo, que talvez fosse melhor seguir outra profissão. Ou não tê-la como única profissão! Porque, como diria [o escritor] João Ubaldo Ribeiro (1941 – 2014), ‘não é profissão para um pai de família honesto’”, explicando logo depois que, pela instabilidade da profissão, nem sempre se consegue muito dinheiro nesta área. 

Porém, o presente também foi lembrado quando explicou onde deposita a sua fé hoje. “Deposito na juventude uma certa fé. Talvez a juventude salve o mundo (..) Porque, o mundo talvez esteja pior do que a gente acha. O livro O quase fim do mundo é um “quasinho”, fazendo referência a uma das obras que está lançando nesta vinda ao Brasil. Nesta história, passada em algum ponto da África, um grupo de pessoas sobrevive a um evento apocalíptico de origem desconhecida, no qual toda a vida, ou quase toda, desaparece da face da Terra. 

No encerramento da conversa, a diretora Maria Arminda fez questão de destacar a relevância da presença do escritor. “Ao receber a visita de Pepetela, a Faculdade se engrandece com ele”, disse ao final, agradecendo às professoras Rita e Tania, representando todas as pessoas responsáveis pela organização do evento, “por proporcionarem uma noite memorável”. 

A transmissão completa do evento pode ser assistida pelo canal da FFLCH no YouTube.  

Após a conversa, o escritor realizou uma sessão de autógrafos dos livros que lança no Brasil: O quase fim do mundo e O cão e os caluandas, ambos pela Editora Kapulana. Porém, muitas pessoas trouxeram também outras obras do autor e formaram uma fila enorme, que não dava tempo de Pepetela descansar e tirar a caneta de sua mão, o que talvez o fez pensar novamente em “tentar preservar o braço com o qual se escreve”, mas agora por uma causa alegre.

Bate-papo 

Confira, a seguir, um pequeno bate-papo entre as professoras Rita e Tania com o escritor Pepetela. Na conversa informal, o autor falou da receptividade da literatura africana no País, do fato da USP, através da FFLCH, ser a primeira universidade do Brasil a mostrar aos seus estudantes as obras dos escritores africanos.



 

Colóquio 

A vinda de Pepetela à FFLCH, assim como foi a de Mia Couto no mês de setembro, integra a programação do VI Colóquio Internacional Áfricas, Literatura e Contemporaneidade, que em sua sexta edição tem a proposta de refletir sobre a complexidade das relações entre memória, imaginário e narrativa em contextos africanos. 

O colóquio faz parte de um programa maior intitulado Áfricas em Trânsito, que conta com um conjunto de atividades que têm a participação de escritores africanos e a realização de minicursos sobre as Literaturas Africanas de Língua Portuguesa.

As atividades do colóquio vão até o dia 24 de outubro. Acesse a programação pelo site: https://africasemtransito.wixsite.com/coloquio.