Nascimento de Sérgio Buarque de Holanda

Autor do clássico "Raízes do Brasil", o historiador contribuiu decisivamente com estudos sobre a formação da identidade do povo brasileiro
Por
Paulo Andrade e Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Nascimento de Sérgio Buarque de Holanda
“Se quiser entender o passado, o bom historiador terá que esforçar-se para uma boa inteligência do tempo presente”, escreveu Sérgio Buarque de Holanda, em 1950. (Arte: Renan Braz)


Nascido em 11 de julho de 1902, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, professor da FFLCH nas décadas de 1950 e 1960, contribuiu com a historiografia nacional principalmente com estudos sobre o período colonial e na formação da identidade do povo brasileiro.

Sua obra mais importante, o clássico Raízes do Brasil, se mostra ainda atual. "Algumas das passagens do livro ainda iluminam, de forma inesperada, muitos episódios da atualidade brasileira", como explica o professor Elias Thomé Saliba, do Departamento de História da FFLCH USP e pesquisador de História da Cultura, com ênfase no Brasil do período republicano e história cultural do humor brasileiro.

Saliba define a atualidade da obra como aquelas que "nunca terminaram de dizer o que tinham para dizer", assim como os demais trabalhos de Sérgio Buarque, que ainda são constantemente republicados, estudados e criticados.

O professor falou sobre a importância de Sérgio Buarque de Holanda para a historiografia brasileira. Confira: 

Serviço de Comunicação Social: De que maneira Sérgio Buarque de Holanda interpreta o Brasil?

Elias Thomé Saliba: Em bem-humorada crônica de 1929, Mário de Andrade nos conta a respeito do formidável bote de um jacaré comendo um pato, numa lagoa em Belém do Pará. 

O rápido nhoque do jacaré era comparado àquele conhecimento rápido e imediato do mundo: “ver pato, saber pato, desejar pato, abocanhar pato, foi tudo uma coisa só”, exclamava o escritor, maravilhado com o poder da verdadeira intuição. 

No final da crônica, o escritor modernista lamenta, por contraste, nossa incapacidade de juntar sensação, abstração, vontade e ação, conformando-se com a lentidão do conhecimento humano, caracterizado pela mastigação paciente, característica da analise e da pesquisa mais demorada. 

Apesar de pitoresca, a crônica resumia o dilema de toda aquela geração de intelectuais e artistas modernistas: era urgente repensar o Brasil em todas as suas peculiaridades, definindo-lhe um lugar cultural no contexto dos países civilizados. 

Mas compreender o Brasil pela intuição imediata – tão verdadeira quanto o nhoque do jacaré – ou pela analise paciente, pesquisando pacientemente as fontes de sua cultura e de sua história?

Este dilema da geração modernista também marcou a primeira fase da trajetória intelectual do historiador Sérgio Buarque de Holanda e o seu livro, ainda hoje um clássico: Raízes do Brasil

As “raízes” do título tiveram na época dois significados: o primeiro era uma referência às estruturas mentais mais profundas que forjaram a história brasileira; e o segundo, era uma indicação mais sutil, ao fato de que quaisquer raízes são feitas para serem arrancadas – ou seja, só modificaríamos radicalmente nossa história se arrancássemos as raízes que nos prendiam ao passado atrasado, escravista e oligárquico.

É daí que Sérgio Buarque de Holanda utiliza a metáfora do homem cordial – um ser de raiz comunitária que tenta sobreviver às enormes distâncias sociais mediante comportamentos de intimidade – que remetem, afinal, ao peso das relações familiares. 

Mas a expressão homem cordial não era um conceito sociológico, referia-se muito mais a uma certa maneira de ser no tempo, um processo histórico. O universo dos afetos domésticos mistura-se com o universo impessoal do Estado.

Daí o homo brasiliensis: o inventor de meios e jeitos sutis, sorridente sabotador tinhoso dos obstáculos abstratos e impessoais da lei ou do Estado, que ele contorna através dos contatos pessoais diretos. Que inclui a violência ou o seu uso indiscriminado e impune, já que mediações institucionais funcionam mal. 

Daí também uma leitura da história brasileira sensível aos arranjos e conchavos que passam continuamente da esfera privada para a pública, numa mistura quase irreconhecível.

As classes dominantes, desde os tempos da colonização, foram amoldadas a tradições autoritárias provenientes do absolutismo da Coroa ou de instituições inquisitoriais – almejando apenas o poder imediato e a satisfação de interesses adquiridos. 

Serviço de Comunicação Social: Na sua opinião, qual é o maior legado deixado pelo historiador e qual a importância de estudar suas ideias hoje?

Elias Thomé Saliba: Não é possível falar de todas as obras de Sérgio Buarque. A maioria delas é constantemente republicada, com importantes estudos críticos. Ainda bem. Mas, ficando apenas no Raizes do Brasil, perguntaríamos:  Afinal, teríamos já, de fato, arrancado todas estas raízes?  

Como algumas das passagens do livro ainda iluminam, de forma inesperada, muitos episódios da atualidade brasileira, é provável que parte da resposta seja negativa. 

O personalismo e uma ética de fundo emocional ainda podem ser notados no cenário atual. A persistência do uso costumeiro, de facções familiares e de particularismos dificultam a consolidação do Estado e o domínio das leis gerais. O personalismo exagerado, historicamente derivado do peso das relações familiares e da fraqueza das instituições públicas (que presidiram nossa formação), ainda continuam imperando no Brasil recente. 

Entra governo, sai governo, acabamos nos surpreendendo com a endêmica incapacidade de tratar a coisa pública de forma impessoal. Continuamos tendo receio da distância provocada pela impessoalidade da lei e das instituições. A síndrome de Santa Terezinha (a Santa francesa Teresa de Lisieux, único país no qual ela virou diminutivo) continua vigente, até nos apelidos mais comuns. 

“Se quiser entender o passado, o bom historiador terá que esforçar-se para uma boa inteligência do tempo presente”, escreveu Sérgio Buarque de Holanda, em 1950. Sem ser completa, era uma descrição quase perfeita da trajetória intelectual de um historiador que sempre viu o estudo do passado fortemente relacionado ao presente. 

Com um olhar sempre voltado para a visão de uma sociedade aberta no tempo presente, sua obra pode ser definida como um esforço para reconstituir as tensões entre a tradição e a mudança histórica e um mergulho libertário no passado brasileiro. Neste sentido seus livros continuam sendo “clássicos”, pois afinal, são aqueles que - como na definição de Ítalo Calvino - “nunca terminaram de dizer o que tinham para dizer”.