Congresso relembra os 50 anos da Revolução dos Cravos

A cátedra Jaime Cortesão, o Departamento de História e a FFLCH realizam um evento sobre os 50 anos da Revolução dos Cravos em Portugal

Por
Astral Souto
Data de Publicação
Editoria

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Nesta terça, 2 de abril, ocorreu a abertura do Congresso Internacional “Portugal da Ditadura à Democracia: História, Cultura e Memória”, que comemora os 50 anos da Revolução dos Cravos, que marcou o fim da ditadura salazarista em Portugal. 

O evento trouxe como convidados o embaixador de Portugal no Brasil, Luís Faro Ramos, o cônsul geral de Portugal em São Paulo, António Pedro da Vinha Rodrigues da Silva, a presidente da Cátedra Jaime Cortesão da USP, professora Vera Lucia Amaral Ferlini, a vice-reitora da USP, professora Maria Arminda do Nascimento Arruda, a vice-diretora da Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, professora Ana Paula Megiani, o representante da Casa de Portugal, José Antônio da Costa Fernandes, e o professor Francisco Assis de Queiroz.

Vera Ferlini abriu o congresso e agradeceu a todos os convidados. Após, falou sobre a importância das cátedras de Camões no Brasil, em principal a Jaime Cortesão - a primeira cátedra de Camões do Brasil. Ainda em sua fala, tratou sobre outros eventos culturais que irão acontecer sobre o fim da ditadura em Portugal que serão fechados com mais um congresso na USP. 
O cônsul português António Pedro, elogiou a Cátedra Jaime Cortesão e sua presidente, enfatizando que o valor dela e da USP são de grande relevância para a união entre portugueses e brasileiros. 

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Em seguida, Luís Faro, embaixador de Portugal, apontou a casualidade entre o aniversário de 50 anos da revolução dos Cravos e o quinto centenário de Luís Vaz de Camões, ambos em 2024. Luís contou sobre a sua jornada acadêmica e como foi difícil ser um estudante na ditadura portuguesa: “Uma pessoa que estuda hoje nunca vai saber o que é estudar sem liberdade”. Por fim, comentou sobre o evento que acontecerá em Portugal juntando todas as cátedras de Camões pela primeira vez. 

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A fala da professora Maria Arminda foi direcionada às crises democráticas que já existiram e como elas afetaram as universidades e a intelectualidade: “O que foi feito com as universidades no Brasil no período ditatorial atinge o coração do conhecimento universitário”. Ela completa a sua colocação abordando a importância do congresso e da memória desses tempos sombrios: “A memória serve para não repetirmos o que já fizemos, pois a memória deve ter um sentido libertador”. 

A abertura do congresso continuou com a palestra do professor emérito da Universidade Técnica de Moçambique, José Luís Cabaço. Ele começa seu discurso com sua experiência pessoal em uma colônia portuguesa na ditadura. Sua fala mostra como foi doloroso viver sob os instrumentos de opressão do regime militar: “Eu tinha 33 anos quando a Revolução dos Cravos emergiu, então posso falar que vivi com a espada da ditadura no meu pescoço por muitos anos”. 

O professor continua sua palestra reiterando a importância do dia 25 de abril que ele sempre deverá ser comemorado, pois abriu a mentalidade das pessoas sobre a censura e deu novos mundos a Portugal e suas colônias. A partir desse momento, José Cabaço relata toda a trajetória moçambicana e portuguesa desde o começo da ditadura até o dia 25 de abril. Ele destacou  a importância da emancipação das colônias portuguesas para o fim da ditadura: “A libertação das colônias iam destruir a ditadura em Portugal. A luta contra o sistema identificou isso”.

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O professor refletiu sobre a atual situação política de Portugal. Ele acredita que mesmo depois de 50 anos da libertação do período ditatorial, Portugal tem a liderança de um partido fascista de extrema direita que tem os mesmos princípios de um regime atrasado. 

O Congresso Internacional continuará até o dia 5 de abril, trazendo mais convidados ilustres como os professores Lincoln Secco, do Departamento de História da FFLCH, e Kenneth Maxwell, professor de história de Portugal da Harvard University, nos Estados Unidos. Para mais informações acesse: https://cjc.fflch.usp.br/eventos

O que foi a Revolução dos Cravos? 

O dia 25 de abril marca um dos eventos mais importantes da história de Portugal, que ocorreu em 1974. Conhecido como Revolução dos Cravos ou Revolução de 25 de Abril, o movimento eclodiu a partir do profundo descontentamento com o regime ditatorial do Estado Novo de António de Oliveira Salazar, vigente desde 1933.

O Estado Novo português se consolidou em um contexto de ascensão do fascimo e de regimes totalitários, marcados por figuras como Adolf Hitler na Alemanha, Benito Mussolini na Itália e Francisco Franco na Espanha. O fim da Segunda Guerra Mundial promove o fim dos governos de Hitler e Mussolini, mas os de Franco e Salazar não sofreram intervenção externa e se mantiveram até a década de 1970.

A Revolução de 25 de Abril derrubou o salazarismo e deu início à implantação de um regime democrático no país. Foi liderada por um vasto grupo, composto por civis, exilados, políticos, artistas, intelectuais, profissionais do próprio Estado ditatorial e, diferentemente da maioria das revoluções, militares. Os militares, em sua maioria capitães ligados à esquerda portuguesa, se revoltaram contra as guerras de independência nas colônias portuguesas na África.

Foi um evento revolucionário que resultou em muitas transformações políticas, econômicas e sociais em Portugal, mas também teve repercussões internacionais – como o processo de independência das colônias portuguesas na África. No Brasil, além de promover uma porta de ação para a militância no exílio, foi um símbolo de esperança em meio à ditadura militar brasileira, vigente desde 1964.

(Texto extraído do programa Hoje na História do dia 25 de Abril sobre a Revolução dos Cravos, do Serviço de Comunicação Social da FFLCH)

Fotos por: Larissa de Souza Gomes