Como articular teoria, prática e compromisso público no ensino de antropologia? Na disciplina Práticas de Extensão em Antropologia das Formas Expressivas e Regimes de Conhecimento, ministrada no segundo semestre de 2025 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP pela professora Rose Satiko Gitirana Hikiji, isso se deu por meio de cinedebates. As atividades foram realizadas em escolas, instituições culturais, coletivos artísticos, espaços comunitários e territórios periféricos da capital e região metropolitana de São Paulo, aproximando Universidade e sociedade por meio do cinema, da escuta, do fazer antropológico e da produção colaborativa de saberes.
Com base no acervo e na metodologia audiovisual do Laboratório de Imagem e Som em Antropologia (Lisa), sediado na FFLCH, estudantes planejaram e realizaram, ao longo do semestre, atividades de extensão que envolveram debates, exibição de filmes etnográficos, encontros com realizadores e elaboração de materiais didáticos.
Mais do que exibir as obras, os estudantes se engajaram em processos de mediação cultural, aprendendo a construir pontes entre as pesquisas acadêmicas e os diversos públicos que encontram. Para cada atividade, os estudantes se envolveram em todas as etapas: contato com parceiros locais, escolha de filmes, criação de materiais de divulgação, mediação dos debates e posterior análise qualitativa e quantitativa das conversas realizadas.
“É muito interessante essa proposta de promover debate, e levar um pouco dos materiais que estão aqui no Lisa para a comunidade externa. Mas também é muito interessante para a gente ter um pouco mais de contato com o material que a própria Universidade produz, ano após ano”, resume o estudante Bruno Nunes Medanha.
Cinema na batalha de MCs
Foram realizados mais de 15 cinedebates fora dos muros da Universidade, ampliando a circulação da produção antropológica. Os encontros aconteceram em diferentes regiões da capital paulista e até em Poá, na região metropolitana. Alcançaram públicos diversos, muitas vezes distantes do ambiente universitário e pouco familiarizados com o cinema etnográfico. As exibições foram acolhidas por espaços onde o diálogo entre imagem, música, memória e política se mostrou especialmente fértil.
Filmes como São Palco – Cidade Afropolitana, Adó – Mestre dos Sons, Cinema de Quebrada, Fabrik Funk, Em Noite de Seresta, Dois Irmãos e diversas outras produções contemporâneas compõem o núcleo das obras exibidas e discutidas pelos estudantes.
Um destaque da programação de atividades de extensão foi o cinedebate realizado na batalha de rap da comunidade São Remo, vizinha à Cidade Universitária da USP no Butantã, zona oeste de São Paulo. Para esse evento, os estudantes levaram a exibição do filme Fabrik Funk para o espaço da rua, em meio à dinâmica da batalha de MCs. O público discutiu as dificuldades do artista independente, as relações de gênero no funk e a perseguição institucional à cultura funk, reforçando o caráter aberto, participativo e territorial da ação.
Outro momento marcante aconteceu na exibição do filme Em noite de seresta no Cedesc (Centro Educacional Desportivo Social e Cultural do Parque Fernanda), uma instituição que atende a população de terceira idade na zona sul de São Paulo. “Foi perceptível como a memória, para aquelas pessoas, ocupava um papel importante de se reafirmar em diferentes âmbitos. Todas as falas permeavam a memória, e surgiram debates sobre o bairro e como aconteciam as manifestações musicais, de forma muito próxima com a seresta”, relata a estudante Yasmin Dias.
Filmes chegaram a lugares inéditos
“O objetivo do curso foi experimentar as possibilidades de realizar atividades de extensão universitária com as produções audiovisuais de pesquisas realizadas junto ao Lisa”, diz Rose Satiko, que é coordenadora do laboratório. O Lisa funciona como centro de pesquisa, formação e experimentação audiovisual. Sua produção audiovisual resulta de pesquisas realizadas por antropólogos em diferentes níveis da carreira, de alunos de iniciação científica a pós-doutorandos e professores, em contextos e com populações muito diversas, que vão de comunidades indígenas a habitantes das metrópoles em suas mais diversas atividades.
Além dos cinedebates, uma das contribuições desta edição da disciplina de Práticas de Extensão em Antropologia foi a disponibilização do catálogo audiovisual do Lisa na plataforma Sommos Amazônia, iniciativa proposta por uma das estudantes, ampliando o alcance público dos filmes. O acervo do laboratório é um dos mais amplos da área, reunindo 1.970 filmes, principalmente documentários, além de mais de 24 mil imagens e registros sonoros (fitas cassete, discos, CDs e arquivos digitais).
“Os resultados alcançados pelas turmas do curso foram muito inspiradores. Nossos filmes foram levados a lugares inéditos, os alunos tiveram contato com os realizadores e com as comunidades nas quais os filmes foram exibidos, prepararam materiais de apoio às exibições, fizeram materiais de divulgação e puderam trocar ideias e experiências com os espectadores, que alcançaram não apenas sobre os filmes, mas sobre a própria Universidade”, completa a professora.
A importância da extensão universitária
A disciplina reforça que a extensão não é um complemento da formação universitária: ela é parte constitutiva do próprio processo de aprendizagem. Ao realizar as atividades, os estudantes vivenciam a integração entre ensino, pesquisa e extensão, desenvolvem habilidades de mediação, comunicação e escuta, e estabelecem diálogos que extrapolam os limites institucionais.
As ações seguiram os princípios que norteiam a extensão universitária, os chamados “5 Is” definidos pelo Fórum de Pró-Reitores de Extensão das Instituições Públicas de Educação Superior Brasileiras (FORPROEX): interação dialógica, interdisciplinaridade, indissociabilidade ensino–pesquisa–extensão, impacto formativo e impacto e transformação social.
Os cinedebates transformaram a própria formação dos estudantes, que aprenderam a dialogar com diferentes públicos e a situar seu conhecimento em realidades plurais. A disciplina reafirmou, também, a potência da antropologia visual na construção de pontes entre mundos, fazendo da Universidade um espaço que se abre, escuta e se transforma junto da sociedade.
“Depois da apresentação, a gente continua conversando sobre os reflexos e as dimensões dessa atividade. Convoca a gente para pensar como transitar pelo conhecimento formal acadêmico e pelo conhecimento que não é formal acadêmico; o que a gente pode trocar, e oferecer, para a sociedade”, aponta a estudante Suzana Bertolaccini.
Para registrar os resultados da disciplina, o Instagram do Lisa (@lisausp_) veiculará pequenos vídeos dos alunos relatando sua experiência durante a produção dessas atividades.
Texto de Carlos Eduardo Conceição, estagiário sob orientação de Moisés Dorado, publicado no Jornal da USP: https://jornal.usp.br/diversidade/extensao-leva-antropologia-e-cinema-da-usp-para-diferentes-regioes-de-sao-paulo/