110 anos de Guimarães Rosa

Um dos maiores do século XX, escritor mineiro atravessou o sertão e a alma humana em sua literatura
Por
Luana Siqueira
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

Hoje na História: 110 anos de Guimarães Rosa
“O sertão é dentro da gente” - fala do personagem Riobaldo em Grande sertão: veredas (Arte: Renan Braz)

 

No dia 27 de junho de 1908, nasceu o escritor João Guimarães Rosa. Mineiro de Cordisburgo, Guimarães Rosa foi um médico e diplomata que se enveredou pelas letras, escrevendo contos e romances cujos cenários são o interior do Brasil, em especial o sertão. Com sua escrita singular, estabeleceu um diálogo da cultura erudita com a popular, tornando-se um dos grandes nomes da literatura brasileira do século XX.

Jaime Ginzburg, professor da área de Literatura Brasileira do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da FFLCH USP, explica que o reconhecimento de Rosa se dá, tanto no Brasil quanto no exterior, por alguns motivos: “a originalidade artística; interesse pelo contexto cultural do sertão; a escolha de temas desafiadores; o trabalho com variados gêneros textuais; a capacidade de articular reflexões éticas com formas estéticas”.

Sua obra-prima é o romance Grande sertão: veredas, de 1956. Nela, Ginzburg ressalta que “Rosa associa, como mostrou Benedito Nunes, uma narrativa sobre a jagunçagem com problemas discutidos pela filosofia. As incertezas do narrador Riobaldo atravessam esferas como a configuração do tempo e da memória, as origens da violência, a natureza do desejo e os antagonismos constitutivos da vida social”. 

Poliglota e ilustrado, Guimarães Rosa era também um conhecedor da oralidade sertaneja, e foi capaz de se movimentar entre diferentes registros de linguagem. “Existe uma variação estilística que merece atenção”, observa Ginzburg a respeito do conjunto de sua obra.

No caso das narrativas sertanejas, “a escrita é constituída com ambiguidades formais; em diversos casos, a perspectiva de narração é atribuída a uma voz que integra o espaço sertanejo, como se um contador de estórias se manifestasse oralmente para um ouvinte”.

Mas ele também desenvolveu outras formas estilísticas. “Ele escreveu narrativas que lembram formas do gótico europeu, no início de sua trajetória; e construiu um diário e outros textos associados à sua trajetória em Hamburgo, na Alemanha, durante o regime nazista. Além disso, cabe mencionar sua produção poética e sua correspondência”.

As obras de Rosa permitem, ainda, uma articulação com o seu tempo histórico: “Seus contos alemães constituem formas de resistência crítica ao autoritarismo dos anos 40. Em um período histórico de modernização do país, diversas de suas narrativas apresentaram imagens do Brasil distantes dos discursos de elogio da urbanização”.

Travessia do leitor

Ginzburg destaca que a leitura dos textos de Rosa pode contribuir para elaborar reflexões sobre diversos temas que ocupam a sociedade brasileira contemporânea, tais como a exclusão social, o risco de vida, a violência, a desigualdade e a discriminação.

Entre as obras do escritor, o professor destaca Sagarana (1946), Grande sertão: veredas (1956) e Primeiras estórias (1962). “São livros indispensáveis para a formação de leitores no Brasil. As articulações entre temas, formas e contextos, abertas pelas leituras desses livros, renovam, geração após geração, a disposição de leitores para pensar sobre o inquietante, o incerto e o não nomeado”.

Para aqueles que já conhecem os livros consagrados, Ginzburg sugere os textos póstumos que são ainda pouco estudados, de modo a ampliar seus horizontes, como Estas estórias (1969); Ave, palavra (1970); Antes das primeiras estórias (2011); e, em especial, o Diário, escrito em Hamburgo, durante o nazismo, ainda inédito na forma de livro.