Nascimento de Graciliano Ramos

O escritor levou a marca da erudição para a política e a linguagem coloquial à sua escrita, narrando a aflição humana misturada às angústias sociais
Por
Lara Tannus
Data de Publicação
Editoria
Hoje na História

 

(Arte: Renan Braz)
A pesquisadora Cristiana Boaventura explica sobre Graciliano Ramos: "Sua vida esteve sempre próxima às questões políticas do país e sua importância literária deve ser pensada nesse conjunto". (Arte: Renan Braz)


Graciliano Ramos, famoso por Vidas Secas e São Bernardo, é reconhecido como um dos principais escritores brasileiros do século XX. Dentre muitas características de sua obra, Cristiana Tiradentes Boaventura, doutora em Literatura Brasileira pela FFLCH USP, destaca sua formação como escritor e sua relação com a política, por acreditar que sua obra é "mais atual do que nunca". 

A pesquisadora conta que a infância de Graciliano foi pautada pela leitura, apesar de ter enfrentado dificuldades para aprender a ler e escrever. "Os métodos antigos como palmatória e as lições de um português rebuscado, longe da realidade do agreste, não colaboraram. Mas teve a sorte de encontrar a biblioteca do tabelião da cidade. Foi perdido entre os livros de Jerônimo Barreto e guiado inicialmente por ele que se formou, lendo intensamente".

Tornando-se erudito, o escritor seguiu carreira política em Alagoas, vindo a ser prefeito da cidade de Palmeira-dos-Índios, onde ganhou prestígio na vida pública. Cristiana comenta que Graciliano se destacou pelo comprometimento com a gestão pública e pela peculiaridade de relatórios muito bem escritos. "Foi assim, misturado entre literatura e política que começou a trajetória do escritor. Sua vida esteve sempre próxima às questões políticas do país e sua importância literária deve ser pensada nesse conjunto".

As características biográficas do escritor foram determinantes em sua escrita. "Foi um progressista e traz a marca da erudição para a política ao mesmo tempo que aproxima seu texto de uma linguagem coloquial. Autor de inúmeras obras importantes, narrou a aflição humana misturada às angústias sociais", explica a pesquisadora.

Graciliano foi preso sem acusação em tempos de perseguição política pela chamada Intentona Comunista na Era Vargas. Memórias do Cárcere e Infância são destacados por Cristiana como romances de teor autobiográficos, que registravam suas memórias e angústias.

"Fazer autobiografia é desdobrar-se sobre si mesmo e as memórias têm ao mesmo tempo essa dimensão de um registro potente sobre a sua experiência do cárcere e um olhar sensível e humano para as pessoas que coabitaram as precárias celas da prisão uma valorização a um só tempo do indivíduo e do mundo social. Presos políticos e não-políticos alçados a personagens de sua história, ao mesmo tempo particular e pública, um registro forte da perseguição política que viveu, sem nunca ter sido sequer processado".

A paz de Graciliano Ramos

Cristiana explica que a palavra "paz" se fez recorrente na escrita do escritor na última década de sua vida. "Posiciona-se como aquele que crê na possibilidade de “entendimentos para objetivo comum”. 

Desse modo, a pesquisadora acredita que o discurso de paz e liberdade proferido pelo escritor é oportuno e necessário para o nosso momento político atual, citando, por fim, um texto de 1952 dirigido aos intelectuais brasileiros:

Há várias maneiras de querermos a paz. Cada um de nós a sentirá diversamente. Mas quando é preciso defendê-la, quem não ficará de acordo? O que está em jogo, num momento como este em que o perigo da guerra parece tão denso, é a paz de cada um e é a paz de todos. Trata-se de defendê-la então pela unidade de todos os esforços. Buscamos salvaguardar valores, conceitos diferentes. Nossa contribuição à luta pela paz serão também diferentes, mas por isto mesmo nosso entendimento há de ser mais sólido, nossa frente mais ampla e representativa dos anseios da humanidade inteira.